“Se olhe no espelho, se aceite, se empodere”, aconselha empresária Zica Assis

Fundadora do Instituto Beleza Natural levanta a bandeira da aceitação do cabelo crespo, cacheado e ondulado há 29 anos

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Em 10.06.22 às 11:34

ZICA ASSIS / ARQUIVO PESSOAL

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Em 10.06.22 às 11:34

Desde muito tempo, o cabelo liso foi visto como o ideal de beleza. Então, muitas mulheres com fios crespos acabavam se submetendo a procedimentos de alisamento. Contudo, o empoderamento e o empreendedorismo feminino estão contribuindo para mudar esse cenário ajudando a promover a beleza natural, visando que a aceitação é a chave para driblar esteriótipos e se sentir bem consigo mesma.

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Um grande exemplo é a empresária Zica Assis. Ela sofreu preconceito por ter cabelos crespos e volumosos. No entanto, lutou contra a ditadura do cabelo liso, desenvolveu produtos inovadores voltados para cabelos cacheados e crespos, fundando o Instituto Beleza Natural.

Em entrevista ao Dicas de Mulher, a empreendedora fala de sua história, conquistas e a importância de valorizar a beleza natural feminina. Confira!

Dicas de Mulher – Você é uma grande influência empreendedora no ramo da beleza natural, mas como foi chegar até esse lugar? Poderia contar um pouco da sua história?

Zica Assis – Nasci numa comunidade na Zona Norte carioca e comecei a trabalhar aos 9 anos, fui babá e faxineira, ajudei a cuidar dos meus irmãos. Nos anos 1970 e 1980, sofri muitos preconceitos por conta do meu cabelo black power, do qual eu muito me orgulhava. Apesar de amar meus fios armados e crespos, fui obrigada a alisá-los para conseguir emprego. Mas não me conformei com essa ditadura do cabelo liso e passei 10 anos pesquisando em casa uma fórmula para tratar meus cabelos sem perder a originalidade deles. Em 1993, junto com meus sócios, fundei na Tijuca a primeira unidade do Beleza Natural, que se tornou a maior rede especializada em cabelos cacheados, crespos e ondulados do país. Hoje são 29 unidades de negócio em operação, sendo 27 institutos e 02 quiosques, nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia, além de uma fábrica própria, a Cor Brasil. Por mês, passam pelos salões mais de 100 mil clientes e a equipe é formada por cerca de 1.100 mil colaboradores. Nos institutos, são oferecidos mais de 20 tipos de serviços profissionais pesquisados e criados para cabelos com curvaturas de 2ABC a 4ABC, passando por relaxamentos, hidratações, cortes, colorações e muito mais. E para cuidar dos cabelos em casa, contamos hoje com linhas completas de produtos com cerca de 70 skus (entre shampoos, condicionadores, tratamentos e finalizadores), que podem ser encontrados nos institutos, e-commerce e também em grandes redes varejistas de todo o Brasil.

Quais foram as suas principais conquistas ao longo da sua trajetória como defensora da beleza natural dos fios?

Por meu trabalho, fui eleita, em 2006, uma das dez Empreendedoras do Novo Brasil, prêmio concedido pela revista Você S.A e pelo Instituto Empreender Endeavor. Ainda em 2006, fui eleita Empreendedora do Ano, na categoria Emerging, pela Ernst & Young. E, em 2007, a Mulher mais Influente do Brasil, na categoria Empreendedorismo, pelo Jornal do Brasil e pela Gazeta Mercantil. Em 2012, o Prêmio Claudia, da Editora Abril, na Categoria Negócios. Em 2013, estive na lista das 10 Mulheres de Negócio Mais Poderosas do Brasil, da Revista Forbes internacional, e fui escolhida Empreendedora do Ano pelo Estadão PME.

Na sua opinião, quais fatores tem levado as mulheres a assumir a textura natural dos cabelos?

Eu levantei essa bandeira há 29 anos, da aceitação da identidade do cabelo crespo e cacheado. Nesse tempo, a sociedade mudou, a mulher negra se empoderou, superou os preconceitos e assumiu seu cabelo, sem perder sua originalidade. Parou de aceitar imposições e os estereótipos impostos. É um movimento de aceitação da cultura e estética negra, e os cabelos fazem parte da nossa identidade. O nosso cabelo é a nossa coroa! É poder, é autoestima! É muito gratificante para mim ser reconhecida como pioneira neste segmento e estar à frente deste movimento.

Você acha que a tendência é que as mulheres assumam os fios grisalhos ou algumas delas deixaram de tingir somente por causa da pandemia?

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O tabu dos cabelos grisalhos ainda existe, independentemente de pandemia ou não. Ao aparecer os primeiros fios brancos, a reação imediata da grande maioria das mulheres é usar tonalizante ou tintura. E está tudo bem, não há nada de errado. A pergunta que cada mulher deve se fazer é “como realmente sou feliz com meu cabelo?” Temos que nos libertar de preconceitos ao associar o cabelo grisalho à velhice. Este movimento já está ganhando o apoio de atrizes e cantoras que estão ditando moda com os grisalhos.

Com toda sua experiência como mulher e empreendedora, o que aconselha para mulheres que buscam valorizar sua beleza natural?

O primeiro passo é não se espelhar nos estereótipos. É importante a pessoa se sentir bem consigo mesma, independente de moda ou tendência. Há quem escolha o cabelo natural em busca de conhecer melhor a estrutura original do seu fio e todas as possibilidades que ele oferece. Mas há também quem se sente bem mudando o visual fazendo relaxamentos e colorações, por exemplo. Porque, na verdade, a beleza natural é aquela que faz você se olhar e se reconhecer no espelho.

Você acredita que mulheres com o cabelo cacheado ou crespo alisam somente pela imposição dos padrões de beleza, ou por não se sentirem bem consigo mesmas?

Acredito que não seja só por padrões de beleza ou não se sentirem bem. Hoje, ainda existem histórias de pessoas que, por causa de preconceitos em alguns ambientes sociais, se sentem obrigadas a estar dentro de um padrão estético e por isso alisam o cabelo. Mas também há pessoas que alisam o cabelo porque se sentem melhor assim – e tudo bem. O importante é ela se sentir bonita da maneira que ela escolher.

Qual o impacto que os padrões de beleza podem acarretar na autoestima da mulher?

Acredito que o maior impacto é a mulher deixar de se conectar com ela mesma, vivendo um “faz de conta” para agradar os padrões de beleza que são seguidos por este ou aquele grupo da sociedade. E os efeitos colaterais à sua saúde física e mental podem ser lentos ou rápidos. O padrão de beleza é aquele que cada um traz no “DNA” e que o torna exclusivo e belo.

Sua trajetória incentivou mulheres a se aceitarem e apreciar a própria beleza. Acredita mídia pode contribuir com isso também?

Tenho muito orgulho de fazer parte da vida de mulheres que, antes de conhecerem a minha história e o Beleza Natural, não conseguiam enxergar a sua beleza exterior e interior. Todos nós temos a capacidade de inspirar o outro, desde que estejamos conscientes dos nossos valores. Quando era mais nova, a referência estética que eu via na televisão era apenas a Glória Maria. Hoje, as meninas mais novas têm contato com outras referências de beleza, como a Taís Araújo, Lázaro Ramos, Cris Vianna, Sheron Menezes, Maju Coutinho. Isso é muito importante quando se pensa em construção de autoestima, mas ainda acho que a mídia pode se tornar muito mais diversa.

Qual conselho você dá para as mulheres que estão passando pela transição capilar e assumindo os fios naturais sem sofrer com as pressões estéticas?

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Paciência! Eu sei que o processo pode ser longo e doloroso, mas acredite na sua beleza. Aproveite o caminho para descobrir seu estilo, a melhor forma de cuidar dos seus cabelos, do jeito que você mais gosta de usá-los. Aprenda a lavar, hidratar, pentear, pesquise, leia, consulte blogs, revistas, canais no YouTube especializados em cabelos crespos. Ah, temos muitos conteúdos bacanas em nosso site para ajudar. Procure usar também produtos específicos para esse momento de transição e para o seu tipo de cabelo, assim como profissionais especializados. Se olhe no espelho, se aceite, se empodere. Você é linda do jeito que você é!