COLUNA

As mulheres de Bridgerton

A busca pelo amor verdadeiro quando o casamento era um negócio

Bridgerton, com três temporadas na Netflix, está no top 10 das séries mais assistidas de junho. Romances, cenas quentes, figurinos, protagonismo feminino e cenários belíssimos retratam a Inglaterra do início do século XIX. Trata-se de uma obra baseada nos livros de Julia Quinn, romances históricos que venderam, nos Estados Unidos, mais de 10 milhões de exemplares.

Não fica difícil identificar os traços da produtora americana Shonda Rhimes, que também sustenta a produção de Grey’s Anatomy e Scandal. Uma análise mais profunda da série poderia nos levar a temas como: multirracialidade no período regencial britânico, a maternidade e o casamento compulsório, a função da arte na história, a sexualidade feminina, o amor como ameaça à manutenção de riquezas, dentre outras dezenas de tópicos que Bridgerton busca (de forma nada literal) apresentar em suas três temporadas.

Sinceramente, estou escrevendo nesta coluna para compreender melhor o que senti sobre a série, especialmente porque ainda não cheguei à conclusão se ela colabora com uma maior reflexão sobre o papel da mulher na sociedade ou se é um calmante com gostinho de romance açucarado para as donzelas dos anos 2000 (a partir de agora, contém spoilers!).

Lady Whistledown e o poder da palavra

A narradora da trama é uma escritora fictícia que assina suas produções jornalísticas como Lady Whistledown. Sua função, especialmente na primeira temporada, é entreter a sociedade londrina com fofocas, envolvendo a nobreza e as grandes figuras da alta sociedade. A partir da segunda temporada, Lady Whistledown se revela como Penelope Featherington, uma jovem à margem da temporada casamenteira, tanto pelas dificuldades financeiras da família quanto pelas questões estéticas e comportamentais da personagem.

Penelope tem um corpo gordo, ao contrário dos “diamantes da temporada”. Quanto à estética, destaco que os padrões de beleza retratados na série são bastante questionáveis em relação às descrições da história. Afastada do ideal de vida das mulheres que a cercavam, a personagem passa a escrever – como forma de compreender o mundo à sua volta, além de ter um lugar de relevância na sociedade e perante a rainha, ainda que anonimamente.

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As mulheres da família Bridgerton

Eloise Bridgerton também aparece como uma personagem avessa ao casamento, revelando a inserção do público feminino no meio literário e insurgente da época, com movimentos de mulheres que desejavam outro futuro para além do casamento e da maternidade. Sua irmã mais velha, Daphne Bridgerton, detém o protagonismo da primeira temporada como uma exemplar dama da sociedade, que herda da matriarca Violet Bridgerton a postura astuta, mas apaixonada.

Para apimentar a trama, Shonda Rhimes implanta uma série de cenas sexuais entre Daphne e o duque herdeiro de Hastings, Simon Basset, dando de brinde um roteiro picante que lembra obras como 365 dias, além de uma conclusão sobre a importância da educação sexual entre mães e filhas.

Onde o amor encontra a realidade

No quarto escuro da arte, estão a modista Genevieve Delacroix, que se diz francesa e ganha a vida costurando belos vestidos às mulheres da nobreza; e, especialmente na primeira temporada, Siena Rosso, cantora de ópera que teve um relacionamento clandestino com Anthony Bridgerton, o visconde primogênito da família Bridgerton.

Siena e Genevieve representam a dureza e a liberdade de não terem linhagem nobre, em um tempo em que não havia a possibilidade de migrar de casta e os casamentos serviam para manter as relações de poder e dinheiro. Aqui, a tensão entre a possibilidade da paixão versus as exigências sociais ficam escancaradas e a história segue seu rumo em um enredo nada romântico.

Por fim, a rainha!

Saiu também uma série especial sobre a vida da Rainha Charlotte (na Netflix). Trata-se de uma mulher que realmente existiu e a personagem guarda semelhanças à original, como o fato de – possivelmente – ter sido a primeira figura real com ascendência africana na linhagem britânica.

Como aquela que detém todo o poder sobre a sociedade, a rainha demonstra apatia sobre a monotonia das tradições. Ela joga sabiamente com as peças do xadrez para obter alguma satisfação diante da vida. Perto dela aparece sempre Lady Danbury, viúva e conselheira das mães que buscam avidamente por casar suas filhas.

Ainda hoje…

Sigo criticando as péssimas representações históricas, mas a série de fato me fisgou. A possibilidade imaginativa que ela trouxe sobre as diferentes posições sociais das mulheres e os malabarismos feitos por elas para satisfação mínima diante de uma sociedade patriarcal é, de fato, estimulante. As mulheres da série “Bridgerton” me lembram que vivemos sob um jogo de forças entre o querer e o poder; também sob a ótica do bem-estar e do julgamento social.

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Ainda no século XXI presenciamos relações que visam lucros e, assustadoramente, cresce a onda de jovens que anseiam por ser “a esposa troféu”. Ainda, também, vemos casamentos que são negócios e, nos divórcios, processos de divisão de bens que contam até os talheres que foram presente da voluptuosa festa de casamento. Estamos vendo surgir grandes críticas ao amor romântico e nos possibilitando maior liberdade nas relações, diante da educação sexual. Posso não querer me casar? Posso não querer ter filhos? Se posso, quem serei mediante o júri social?

Sem contar as mulheres das artes, do cinema e da literatura, ou do trabalho manual, formal, informal, empreendedor ou corporativo, que seguem lutando por salários menores nos mesmos cargos ocupados por homens, mas que de alguma forma encontram a sensação de liberdade.

Em contrapartida à busca monótona pelo poder e pela civilização, apresentada nos personagens masculinos da série, as personagens femininas me encantam no jogo dos afetos na luta pela sobrevivência. Não se trata somente da discussão sobre o amor romântico que a série estampa, mas dos espinhos das relações quando se é mulher, em qualquer época da história humana.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Dicas de Mulher.

Psicanalista e Palestrante, graduada em Psicologia e em Letras, com Mestrado e Doutorado em Linguística e Pós-Graduada em Sexualidade Humana. Dedica sua carreira ao desenvolvimento de mulheres líderes no trabalho, nos relacionamentos e na vida. É autora do livro "A linguagem da loucura" e empresária, ama comunicação, esportes, viagens e celebrações.