Dinheiro e Carreira

“Precisamos ocupar o lugar que nos é de direito e ajudar outras mulheres”, diz Kelly Gusmão, cofundadora da Warren Brasil

Dicas de Mulher

Especialista em representatividade feminina no mercado financeiro fala sobre projetos de equidade de gênero e independência financeira

Em 02.08.22

A independência financeira feminina é fundamental para empoderar mulheres e encorajá-las a realizarem os seus sonhos. Muitas delas ainda não têm liberdade de escolha sobre o próprio futuro e dependem financeiramente dos seus maridos. Isso as impossibilita de terem autonomia sobre suas vidas e elas ficam suscetíveis à violência patrimonial, que se estende até os dias de hoje.

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Além disso, de acordo com dados apurados em 2021 pelo IBGE, as mulheres ainda ganham 77% menos que os homens ocupando o mesmo cargo. Então, pensar em educação financeira é essencial para orientar as mulheres sobre como lidar com as suas finanças, tomar decisões sobre gastos, poupar dinheiro, investir e empreender para garantir o próprio futuro.

Pensando nisso, Kelly Gusmão, cofundadora e diretora de Recursos Humanos da corretora de investimentos Warren Brasil, criou iniciativas para promover equidade de gênero e representatividade feminina no mercado financeiro. Outra ação importante da Warren é disponibilizar cursos gratuitos, inclusive de finanças femininas, para orientá-las sobre organização financeira e investimentos.

O Dicas de Mulher conversou com a empreendedora sobre sua carreira, projetos de inclusão feminina no mercado financeiro e dicas para promover a independência financeira para mulheres. Confira!

Dicas de Mulher – Como cofundadora e CPO da Warren Brasil, você inspira mulheres no universo de finanças e do empreendedorismo feminino. Fale um pouco sobre o seu trabalho e como tudo começou?

Kelly Gusmão – Eu lembro como se fosse ontem. Eram meados de agosto de 2018 e eu andava inquieta por um motivo muito simples: a Warren ainda não tinha uma bandeira oficial que abraçasse todas as iniciativas de equidade de gênero que eu queria implementar na empresa. Então, mandei uma mensagem para algumas das mulheres mais incríveis que trabalham comigo e convoquei uma reunião extraordinária, em uma das nossas salas de reunião, que se chama “Otimismo”. Elas entraram na sala e já disparei: “Precisamos criar a Warren para mulheres!”. Naquele exato instante, todas as mulheres começaram a falar ao mesmo tempo. Foram minutos insanos de muito barulho, comemorações, ideias, planos, revoluções. Até que, em um momento, alguém disse: “Ok. E o que a gente precisa fazer para que tudo isso aconteça?”. Tínhamos em mãos uma decisão importantíssima para tomar, já que o planejamento para implementar um projeto desse porte demanda muitos passos. Precisávamos de algo estruturado, programado, organizado. Para nós mulheres, geralmente, é preciso que as coisas façam sentido, é necessário que exista uma conexão, um propósito. Foi aí então que eu pensei: “Já que somos uma corretora, o que mais poderíamos construir para atrair a atenção das mulheres?”. Levantei da cadeira, entrei na sala de gestão de fundos de investimentos e, ainda ofegante, disse: “E se lançássemos um fundo composto por empresas com mulheres em cargos de CEO?”. O trabalho de pesquisa e os estudos foram enormes da parte do nosso time de gestão. Foram meses pensando na melhor estratégia, analisando resultados e hipóteses. Fizemos uma bela curadoria das empresas que possuem mulheres na liderança e promovem a equidade de gênero e, em março de 2020, lançamos o nosso fundo Warren Equals e toda a iniciativa que leva esse nome.

Aos 25 anos, você trabalhou no mercado financeiro americano. Como foi a sua experiência e quais as maiores dificuldades que você enfrentou?

O que vivi lá fora me impulsionou a construir uma empresa melhor para todas as mulheres e também para todos os recortes de diversidade da sociedade. Fazia mais ou menos um mês que eu já estava na tal corretora em Wall Street. Durante um happy hour, um colega perguntou qual era o meu preço. Eu achei que ele estava falando sobre algum trade que a gente fez na mesa de operações naquele dia, por isso questionei: “De qual operação você está falando?”. Ele respondeu que queria saber o preço que custava para sair comigo. Assim que entendi, respondi que eu não tinha um preço. Eu não estava à venda. Então ele comentou que todo mundo tem um número na cabeça, ou seja, um preço. E, no meu caso, era mais importante ainda: como mulher, para vencer no mercado financeiro, eu precisaria de um preço. Mas entendi que o que ele estava dizendo não tinha relação comigo, era algo sobre ele e refletia o ambiente tóxico em que ele vivia e já estava acostumado. Eu, ao contrário, não queria fazer parte da manutenção daquele contexto. Essa situação abriu os meus olhos e me fez decidir que, a partir daquele momento em diante, eu faria de tudo para provar que ele estava errado. Eu não teria um preço! Passei também por situações de competição entre mulheres, tive duas colegas de trabalho que faziam apostas sobre o dia em que eu iria pedir demissão – às vezes, pareciam estar tentando me ajudar, mas, na verdade, estavam me prejudicando. Eram outros tempos, nesse ponto, acredito que já evoluímos muito. Hoje com 41 anos, não percebo mais essa competição, acredito que hoje as mulheres se apoiam mais, praticam mais a sororidade, se veem mais como aliadas e membros do mesmo time. Foi com essa bagagem que ajudei a fundar a Warren. E isso tudo que vivi me impulsiona todos os dias para cumprir com o meu papel aqui dentro: possibilitar um ambiente acolhedor, seguro, que desenvolva todas as pessoas — em especial, as mulheres.

Além de cofundadora e CPO, você também lidera a área de Recursos Humanos da Warren e busca garantir um ambiente de trabalho mais acolhedor e inclusivo. Fale um pouco como é esse processo?

Um belo dia do ano de 2017, em Porto Alegre, RS, no nosso espaço de 70 metros quadrados, onde trabalhavam quase 30 pessoas, levantei para pegar um café. Na frente da cafeteira, tinha uma pessoa que eu nunca tinha visto. Então me apresentei e ofereci um café para ele. Surpreendentemente, ele disse: “Hoje é meu primeiro dia!” Fiquei feliz e exclamei: “Que legal, o que você vai fazer aqui?” Para a minha maior surpresa, ele não sabia o que ia fazer, não sabia nem o nome da pessoa que tinha “contratado” ele. Ele não tinha contrato, não sabia o quanto ia ganhar, não tinha computador, não tinha nada. A primeira coisa que pensei foi na péssima experiência que ele estava tendo – sendo um dos pilares da Warren a experiência do cliente. Eu não pude evitar, mas inverter o jogo e pensar na experiência das pessoas colaboradoras e das pessoas que iriam entrar para o time dali em diante. Deixei meu café em cima da pia, corri para o meu notebook e comecei a pesquisar como montar um time de Recursos Humanos. Depois de muito estudo e dedicação, montamos a área de Pessoas e Cultura da Warren. Acredito que não preciso nem mencionar em detalhes que a experiência daquela pessoa resultou na não fidelização dele como colaborador. Alguns dias depois, nunca mais vi aquele rosto no escritório. Mas, até hoje, ele é lembrado com muito carinho, pois foi ele que proporcionou a grande virada de chave na minha mente. Outra coisa curiosa é que, aqui na Warren, nos autodeclaramos área de Pessoas e Cultura. Não acho que as pessoas são recursos. Pessoas são o principal ativo das empresas. Tem uma fala do autor Simon Sinek que diz: “100% dos clientes são pessoas. 100% dos funcionários são pessoas. Se você não entende de pessoas, você não entende de negócios.” E, assim, a área de Pessoas e Cultura ganhou meu coração. Não seria mais um time construído e passado adiante para outra liderança. Encontrei o meu lugar na empresa, encontrei a minha missão. Aqui tudo faz sentido e aqui permanecerei.

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​O mercado financeiro sempre foi dominado por homens, porém vemos cada vez mais mulheres bem-sucedidas ocupando cargos importantes. Como quebrar essa hegemonia masculina nesse mercado?

Como mencionei anteriormente, em 2020, lançamos o Warren Equals, um conjunto de iniciativas com foco em equidade de gênero na empresa, para aproximar as mulheres do mercado financeiro. Depois, transformou-se num fundo de investimentos, reunindo empresas do Brasil e do mundo que possuem políticas de equidade, mulheres em cargos de liderança, marca pró-mulher, diretrizes de equiparação salarial entre homens e mulheres e muito mais.
E, em março de 2022, dois anos após o lançamento do fundo, tivemos uma novidade: a Warren Shop — nossa loja de produtos Warren, até então acessível somente para pessoas colaboradoras —, agora lançada para todo o Brasil com a coleção Equals. A Warren Shop não tem fins lucrativos. Todo o valor das vendas é revertido para instituições ligadas a causas de mulheres em situação de vulnerabilidade. A Warren Progresso – Interseccionalidade: nossas ações precisam trazer para perto também as mulheres negras e mulheres negras trans. Lançamos, em fevereiro de 2022, uma edição exclusiva do Warren Progresso para mulheres negras. Recebemos 584 inscrições em um mês! As seis selecionadas entraram no time no dia 11 de abril de 2022 e tiveram sua carga horária dividida entre períodos de treinamento e de muita prática. Mulheres gestantes são muito bem-vindas, em 2021, contratamos uma colaboradora no sexto mês de gestação. Ah, e todos os nossos escritórios estão abertos para acolher colaboradoras com filhos não só durante o período de amamentação, mas sempre que quiserem. Além dessas iniciativas, no dia a dia, temos uma troca muito rica e interessante entre mulheres. Temos um grupo exclusivo com mais de 250 mulheres para conversar sobre tudo, trocar informações, marcamos encontro. Percebo que a gente é muito unida, vejo mulheres se elogiando, se apoiando, pedindo dicas, sinto que estamos construindo um time de mulheres empoderadas, que são e dão suporte umas para as outras — e isso tem muita força. Juntas somos uma potência.

A sociedade ainda é muito patriarcal e muitas mulheres ainda sofrem com o machismo. Como você lida com essas questões no dia a dia e no ambiente corporativo?

Eu sou o tipo de pessoa que sempre tenta enxergar o lado bom e positivo das coisas, mas contra fatos não há argumento. Existe, sim, todo um contexto histórico e atual, marcado com muitas ações revolucionárias e muitas mulheres que foram e ainda são marcadas por dor, preconceito e assédio, e jamais esqueceremos isso. Mas, hoje, as empresas estão cada vez mais conscientes, as mulheres estão mais unidas. Por esses e outros motivos, nós mulheres precisamos estar cada vez mais unidas no mundo corporativo. Essa é uma pauta das empresas e de todas as pessoas.

Embora seja crescente o número de mulheres empreendendo e conquistando a liberdade financeira, há muitos obstáculos. Como enfrentá-los e começar a jornada rumo à liberdade e organização das finanças?

Através da educação financeira – e essa é outra vertical que nasceu com a Warren em 2017. Falar sobre dinheiro ainda é tabu para a maioria dos brasileiros. A importância de se aprofundar no assunto e trazê-lo às rodas de conversa, no entanto, é comprovada em números. A plataforma se diferencia por oferecer trilhas de conteúdo personalizadas, sugeridas para cada pessoa de acordo com cinco perfis de aprendizagem. O principal produto de conteúdo da Warren Edu é a websérie Desenrola, protagonizada por Duda e Afonso. Além da websérie, a Warren Edu disponibiliza outros cinco cursos — agora, também gratuitos: Papo de Grana, Desintoxicação Financeira, Mercado em Análise, Warren Life e Como Investir na Bolsa. A partir do perfil de aprendizagem do estudante, a plataforma sugere a trilha com os conteúdos mais alinhados ao momento de vida do aluno. Essa personalização se soma à vantagem de o aluno poder escolher quando e onde assistir às aulas, o que dá a ele mais autonomia e liberdade — ou, mesmo, ele pode abrir mão da trilha recomendada e escolher os conteúdos por conta própria.

Ao longo dos anos, as mulheres tiveram conquistas em relação à independência financeira. Como isso reflete na nossa realidade, pode influenciar e encorajar outras mulheres?

Ter mulheres em cargos importantes e ocupando lugar de destaque em empresas e instituições faz com que muitas jovens consigam se ver nesse local no futuro. Por todos os dados que citei, precisamos ocupar, sim, o lugar que nos é de direito e juntas ajudarmos outras mulheres.

Quais as dicas que você dá para promover a independência financeira para mulheres?

Descobrir como alcançar a independência financeira é o sonho de muitos investidores, porque isso significa liberdade absoluta para não precisar trabalhar para sustentar os próprios gastos. Hoje muitas mulheres precisam trabalhar para garantir o seu sustento e de suas famílias sozinhas. Um planejamento financeiro pode ajudar nesse processo. Criar metas de curto, médio e longo prazo, além de estipular um cronograma factível para suas próximas ações, trará mais organização para você viver de renda no futuro. Dentre os objetivos, podemos citar a criação da reserva de emergência, a escolha de corretoras e fundos de investimento compatíveis com seu perfil e necessidades, dentre outras ações que devem estar discriminadas. É necessário também fazer ajustes de percurso. A busca da liberdade, da realização de um sonho, a busca por encontrar o significado da vida – e, para isso, precisamos de objetivos. Cada uma tem suas motivações, desejos e devem ir em busca disso.

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Formada em Letras e pós-graduada em Jornalismo Digital. Apaixonada por livros, plantas e animais. Ama viajar e pesquisar sobre outras culturas. Escreve sobre diversos assuntos, especialmente sobre saúde, bem-estar, beleza e comportamento.