As mulheres têm motivos para comemorar o Dia do Orgulho Geek?

Com mais protagonismo, diversidade e complexidade, as personagens femininas têm se destacado na cultura geek

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Atualizado em 22.06.22

Divulgação 'Thor: Amor e Trovão' / Marvel Studios

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Em 25.05.22 às 7:30

O Dia do Orgulho Geek surgiu como uma comemoração aos “esquisitos” e excluídos, quando os nerds e geeks faziam parte de uma subcultura de interesses fora do comum. Atualmente, a cultura nerd é um dos mercados mais lucrativos do mundo, as obras desse nicho se tornaram as mais assistidas, com bilheterias bilionárias e legiões de fãs. O que acontece quando os excluídos tornam-se mainstream?

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Os gêneros preferidos dos geeks, a fantasia e a ficção científica, são muito sobre usar a imaginação para explorar as possibilidades do mundo para além do óbvio, utilizando metáforas e alegorias. Mas, como toda ficção, ainda que seja sobre o futuro, acaba falando sobre o presente, muitos dos problemas atuais são refletidos nessa cultura.

Apesar de as mulheres representarem uma fatia expressiva desse público, chegando a ser maioria em alguns casos, como nos games, o machismo é um dos problemas mais sérios e presentes nessa cultura.

As mulheres têm motivos para comemorar o Dia do Orgulho Geek? Sim, e vários, mas também têm tantos outros que demonstram que a jornada ainda está longe de ser concluída. Confira uma lista dos motivos para celebrar e para seguir lutando:

5 Motivos para comemorar o Dia do Orgulho Geek

Divulgação ‘Star Trek: Strange New Worlds’ / Paramount Studios


“Eu não tenho nada a provar para você.” – Capitã Marvel

Primeiramente, é preciso destacar que reconhecimento é diferente de contribuição. As mulheres sempre estiveram presentes nas criações geeks e nerds, apenas não eram apreciadas o suficiente, mas elas têm recebido mais destaque, confira o que melhorou:

Protagonismo

Muitas vezes, as personagens femininas eram colocadas majoritariamente como interesse romântico do protagonista, e ficavam à sua espera enquanto ele ia viver suas aventuras e isso tem mudado: Mulher Maravilha, Viúva Negra e a Capitã Marvel, por exemplo, ganharam seus próprios filmes nos universos de super-heróis, a Capitã Michael Burnham se tornou a primeira mulher negra a protagonizar uma série de ‘Star Trek’ e Rey (Daisy Ridley) assumiu o lugar de Jedi na franquia ‘Star Wars’, algumas das maiores franquias do mundo e com grande sucesso comercial.

Mais diversidade

As mulheres que têm aparecido nas obras também são mais diversas em suas aparências, interesses e personalidades. A série ‘The Expanse’, por exemplo, tem uma extensa lista de personagens mulheres de diferentes origens e que cumprem papéis centrais na trama e têm amizade umas com as outras, longe do Complexo de Smurfette – que critica várias histórias que têm uma única mulher como personagem principal – que afetava a Princesa Leia Organa, por exemplo.

Personagens complexas

Por algum tempo, a representação de personagens femininas mais divulgada era a de “personagens fortes”, aquelas que não se deixavam dominar pela emoção e podiam ganhar de homens em lutas, o que também criava uma pressão e expectativas sobre as mulheres. Agora há mais personagens complexas, que são muito mais interessantes que as fortes, são pessoas complexas e que são fortes, sim, mas essa não é sua única característica, elas podem ter fragilidades, dúvidas, qualidades e defeitos, de modo que as mulheres em geral possam se identificar e não sentir a necessidade de ser fortes o tempo todo.

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Mulheres tomando decisões

É importante, também, destacar que há mais mulheres tomando decisões nos bastidores, ditando rumos das histórias e fazendo escolhas. Esse fenômeno não é exatamente recente, ao destacar as mulheres agora é sempre importante não apagar outras que foram essenciais, como por exemplo Karen Berger no selo Vertigo da DC Comics ou D.C. Fontana em ‘Star Trek’. Mas ter mais filmes dirigidos por mulheres ajuda a fazer com que as obras não tenham o “male gaze”, ou olhar masculino, e enquadra as personagens por uma visão feminina. Essa diferença fica muito clara numa comparação do filme ‘Mulher Maravilha’, dirigido por Patty Jenkins e ‘Liga da Justiça’, dirigido por Joss Whedon e Zack Snyder. A mesma personagem, interpretada pela mesma atriz, é apresentada de maneiras bastante diferentes, sendo mais decidida, complexa e guerreira quando filmada por Jenkins e o estereótipo da mulher forte, impassível e sensual quando vista por homens.

Valorização de autoras

Na maioria das listas obras que “todo geek deveria ler”, predominam autores homens, ignorando-se que algumas das mais importantes obras do gênero foram escritas por mulheres. ‘Frankenstein’, uma das primeiras obras de ficção científica (considerada por alguns A primeira) foi escrito por Mary Shelley em 1818. Mas algumas editoras têm feito um resgate e publicação de obras de autoras consagradas, como Octavia Butler, considerada a grande dama da ficção científica, Ursula K. Le Guin e N.K. Jemisin ao mesmo tempo que há abertura para novas autoras, como Nnedi Okorafor, Gail Simone e Emil Ferris.

Há que se destacar também os coletivos formados para incentivar a produção e consumo de obras feitas por mulheres, como a Mina de HQ para histórias em quadrinhos, a Sakuras eSports para mulheres gamers, o Canal Garotas Geeks entre outros, o apoio e encorajamento é muito importante.

5 Razões para seguir ocupando espaços

Divulgação ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’ / Marvel Studios


“Se não há nada de errado comigo, talvez tenha algo de errado com o universo.” – Dra. Beverly Crusher (‘Star Trek’)

Mesmo com vários avanços, muitas mulheres não se sentem confortáveis em ambientes nerds e, como disse a Dra. Crusher em ‘Star Trek’, o problema não são elas, mas seu ambiente. A representatividade completa e positiva está longe de ser atingida. O cenário ainda é bastante masculino e atende, em grande parte, aos anseios desse público, a luta ainda está longe de ser ganha. Confira alguns pontos que precisam de muita discussão e atenção:

Ambientes tóxicos

Há uma parte expressiva do público nerd/geek masculino que tem atitudes extremamente misóginas que vão de micromachismos a agressões reais de bullying e doxxing (divulgação de dados pessoais na internet). A forte e violenta reação desse segmento do público à personagem Rose Tico, de Star Wars Episódio VIII: Os últimos Jedi, fez com que a atriz Kelly Marie Tran precisasse abandonar todas as suas redes sociais e tivesse seu papel extremamente reduzido no filme seguinte da franquia. Essas ondas de ódio são bastante comuns a cada vez que se anunciam personagens mulheres ou pertencentes a outras minorias sociais. E também pessoalmente, em encontros ou convenções, muitas mulheres ainda relatam casos de assédio, especialmente contra as cosplayers, uma vez que os homens vêm seus corpos como públicos.

Cultura do consumo

Infelizmente a cultura nerd cada vez mais se associa ao consumismo, são edições especiais e de luxo de publicações, infinitos itens de decoração e colecionáveis que geram uma sensação de não pertencimento àqueles que não tem as condições financeiras para acompanhar o ritmo frenético de lançamentos . O uso de itens associados a essa cultura torna-se parte da identidade do nerd, uma forma de autoafirmação social que chega a ir contra o que muitas das obras admiradas por esse público dizem.

Colonização cultural

É preciso dar mais abertura a produções fora do eixo Estados Unidos – Europa Ocidental. Os animes japoneses de certa forma furam esse domínio, mas são a exceção que confirma a regra, poucas, ou quase nenhuma, são as obras muito divulgadas e com sucesso comercial que chegam ao grande público que têm origens diversas e fora do domínio dos grandes estúdios. Essa produção existe, é preciso que ela chegue ao público.

Falta de interpretação de texto

Você provavelmente já ouviu dizer que “é preciso separar a obra do artista”, no mundo geek, muitas vezes é necessário separar a obra dos fãs. As já citadas reações negativas à presença de diversidade nas obras se apresentam também nos temas. A cada vez que uma obra é vista como apresentando problemas sociais ou questionando o status quo, há uma reação de pessoas que se dizem fãs mas que parecem não entender as mensagens das próprias obras que admiram. É completamente contraditório, por exemplo, ser fã de X-Men e preconceituosa ao mesmo tempo, mas existem muitos desses sujeitos emitindo opinião na internet.

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Comercialização do feminismo

O movimento feminista é importante e serviu muitos avanços e vitórias às mulheres, mas também é muitas vezes cooptado pelo capitalismo para uma versão superficial e inócua que serve simplesmente para uso de marketing, e as mulheres são usadas simplesmente como ponto de venda. Há, ainda, personagens hipersexualizadas ou com tramas estereotipadas, uma das mais frequentes é a da mulher que fica muito poderosa e enlouquece, vista mais recentemente com a Feiticeira Escarlate em ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’, mas que apareceu também em ‘X-Men: Fênix Negra’ e com Daenerys Targaryen em ‘Game of Thrones’.

Enfim, as mulheres têm se reafirmado em espaços que sempre foram seus, mas que tentaram sufocar, e como essa é uma cultura que tem se popularizado cada vez mais, é essencial que os incentivos e grupos se fortaleçam e que as pessoas procurem e valorizem obras fora do óbvio, dando abertura o que deve ser a verdadeira cultura geek: infinita diversidade em infinitas combinações!