“Não queremos flores, queremos voz, reconhecimento e liberdade”

                 
Escrito por
Atualizado em 21.06.22

GIOVANA FERNANDES / DICAS DE MULHER

Oito de março de dois mil e vinte e dois. Quisemos escrever assim por extenso para registrar o peso dessa data que marca, mais uma vez, o Dia da Mulher.

Publicidade

Apesar desse peso, ou, pelo menos, do peso que tem para nós, o que vemos nas redes sociais durante essa data são parabéns genéricos pretendendo leveza. Boa parte deles são rodeados de flores e de outras imagens que representam delicadeza. E, claro, a presença delas: as palavras “guerreira”, “forte” e “resiliente”, entre outras.

Não queremos trazer uma visão pessimista, mas está longe de nós sermos superpositivas nesta data, neste ano, quando até temos acesso a certos direitos, mas com tão pouco suporte legal, político, econômico e social. Nossas conquistas seguem parciais por quase não termos representatividade e participação política, equidade de gênero em diversas áreas, como esporte e tecnologia, bem como igualdade salarial. Esse é o cenário atual.

Ser mulher é cansativo – o que lembra uma fala da cineasta Agnès Varda: “Eu tentei ser uma feminista alegre, mas estava com muita raiva”. Há dias em que, ao lado de mulheres que nos dão suporte, nos sentimos as pessoas mais poderosas do mundo, capazes de realizar qualquer tarefa e superar qualquer obstáculo que surgir em nosso caminho. É como se estivéssemos andando na rua ao som de “Felling good”, da Nina Simone, com cabelos ao vento e sorrindo sozinhas. Mas em outros… a raiva toma conta de cada parte do nosso corpo quando falas e atos misóginos de governantes, famosos ou “influencers” se espalham pela mídia, porque representam não só o que eles pensam individualmente, mas o que a sociedade brasileira pensa na totalidade. O grupo das exceções é muito pequeno.

É odioso saber que o Presidente do país diz a uma mulher que não a estupraria porque ela não merece, como aconteceu com a deputada federal Maria do Rosário. Merecemos ser estupradas? E há, ainda, uma curadoria para isso?

Causa náusea saber que um representante político como o deputado estadual Arthur do Val (Mamãe Falei), em meio a uma guerra, é capaz de dizer que mulheres ucranianas são fáceis porque são pobres. E depois se desculpar na internet se apresentando como um moleque. Um homem de mais de trinta anos deve ser responsabilizado pelo que pensa e fala.

É revoltante ter suas ideias apropriadas, como ocorreu no caso de Valeska Zanello, que teve suas pesquisar usadas por João Marques sem um crédito sequer. Vivemos em um país no qual há pouquíssima valorização do trabalho científico, sobretudo na área de humanas – e isso fica mais difícil para mulheres, já que o meio acadêmico ainda é bastante machista e excludente.

Gera muito incômodo ter sua sexualidade vigiada e julgada, seja devido ao número de parceiras e/ou parceiros, ou pelas roupas vestidas. Ser enxergada como puta por falar abertamente sobre sexo – situações vivenciadas inclusive por mulheres poderosas, como Anitta, Luísa Sonza e Bruna Marquezine.

É repugnante viver em um país com altos índices de feminicídio, no qual a frase “em briga de marido e mulher não se mete a colher” ainda impera. Onde mulheres negras morrem quase diariamente por racismo, aborto inseguro ou violência física. Onde mulheres indígenas nem sequer são vistas como protagonistas e donas de uma identidade própria. Que Marielle Franco e Daiane Kaingang vivam em cada uma de nós!

Também causa exaustão ver Lina, conhecida como Linn da Quebrada, sofrendo transfobia em rede nacional, no BBB 22. Sua identidade tem sido negada e desrespeitada ao ser chamada pelo pronome masculino “ele” em diversos momentos, mesmo tendo a palavra “ela” literalmente tatuada na testa.

Publicidade

E vindo à esfera cotidiana: é revoltante sair para caminhar e sentir medo quando passa por uma esquina escura. Ter de avisar aos amigos que chegou em casa quando pegou um Uber, para deixar claro que nada de errado aconteceu no trajeto para casa.

Dói saber que as mulheres de nossas famílias são constantemente desvalorizadas como profissionais por ter um pano de chão e uma vassoura na mão, e não um diploma universitário na parede, quando tê-lo não era uma possibilidade para mulheres pobres.

Vivemos em um país sufocante para as mulheres, e é difícil ser uma feminista sempre alegre. Enquanto mulheres, neste oito de março de dois e vinte e dois, e em tantas outras datas, não queremos flores, queremos respeito, voz, reconhecimento e liberdade para sermos quem somos em qualquer espaço.

***

Estela Lacerda é editora-chefe do Dicas de Mulher, mediadora do clube de leitura #LeiaMulheres, escritora e feminista.