Mulheres inspiradoras: Rachel Maia

Mulher, negra e presidente de uma joalheria de luxo: inspire-se na história de ousadia e coragem de Rachel Maia

Escrito por Raquel Praconi Pinzon

Foto: Reprodução / Rachel Maia

Ela dividia um frango com mais 10 pessoas no almoço de domingo, mas hoje é a CEO da joalheira Pandora no Brasil. Estamos falando de Rachel Maia, uma paulistana de 47 anos que hoje faz parte do 0,4% de mulheres negras que ocupam cargos de presidência em grandes empresas no país.

Com um caminho marcado pela coragem e pelo empoderamento, Rachel é uma grande inspiração para outras mulheres que almejam mostrar sua capacidade em ambientes ainda dominados pelos homens.

A trajetória de Rachel

Foto: Reprodução / Rachel Maia

Criada na Cidade Dutra, na zona Sul de São Paulo, Rachel Maia era a mais nova de sete filhos. Com o pai, a mãe, os irmãos e mais dois primos, ela estava acostumada a dividir um frango nos almoços de fim de semana. E ainda havia uma regra: num mês, a pessoa comia a coxa da ave; no mês seguinte, comeria o peito. Afinal, segundo sua mãe, era necessário “passar primeiro pela parte mais dura”. Foi a partir disso que Rachel tirou uma lição: “Sempre há algo bom para esperar”.

Isso, porém, não significa que Rachel simplesmente esperou que seu destino caísse do céu: na verdade, ela mostrou ter boas doses de coragem desde o começo de sua trajetória profissional.

Em 1991, formada em Ciências Contábeis, Rachel trabalhava na rede de conveniências 7- Eleven, a qual encerrou suas atividades do Brasil e finalizou o vínculo empregatício com a contadora. Na ocasião, Rachel tomou uma decisão um tanto ousada e comunicou a seu pai que, em vez de destinar toda a rescisão às contas da família, que ela ajudava a pagar desde cedo, uma parte desse dinheiro seria investido em si própria.

Leia também: 25 coisas que mulheres precisam parar de dizer umas para as outras

Entre o Brasil e o exterior

Foto: Reprodução / Rachel Maia

A partir dessa decisão que contrariava aquilo que se esperava dela, Rachel bancou dois anos de aulas de inglês e administração em Vancouver, no Canadá. Por ter estudado a vida toda em escola pública, ela conta que seus conhecimentos da língua inglesa se resumiam ao verbo “to be” – e, por isso, ela passou semanas dizendo apenas “oh, it’s so beautiful!”.

Quando voltou ao Brasil, Rachel conseguiu o cargo de gerente financeira na indústria farmacêutica Novartis, onde permaneceu por quatro anos – um deles trabalhando nos Estados Unidos.

Além de seu interesse nas indústrias farmacêutica e automobilística, Rachel era apaixonada por arte, principalmente por Pablo Picasso. Por isso, em 2000, quando estava trabalhando em Nova York e ficou sabendo que Paloma Picasso, filha do pintor espanhol, estaria no Brasil, ela imediatamente voltou ao país.

No lugar certo e na hora certa

Foto: Reprodução / Rachel Maia

Paloma Picasso estava em terras brasileiras para lançar uma coleção de joias com a luxuosíssima Tiffany & Co., e nessa ocasião Rachel foi abordada por um headhunter da empresa. A joalheria estava em busca de um novo diretor financeiro, cujos requisitos eram falar inglês e, obviamente, ter conhecimentos sólidos de contabilidade.

Por exigência do RH Global, pelo menos uma mulher deveria participar do processo seletivo – embora fossem raras as mulheres que atendessem aos requisitos do cargo naquela época. Mesmo sem interesse no mercado de joias, Rachel decidiu se candidatar ao cargo.

Leia também: 10 mulheres empreendedoras para te inspirar

O resultado foi que ela ocupou a posição de CFO (“chief financial officer”) da Tiffany & Co. no Brasil por oito anos, até ser procurada pela dinamarquesa Pandora, que queria se instalar no país. Desta vez, a proposta era ainda mais tentadora: ocupar o cargo de CEO (“chief executive officer”), que equivale à presidência da empresa.

Na época, a Pandora tinha apenas dois pontos de venda do país. Sob o comando de Rachel Maia, este número subiu para 98 lojas nos dias atuais.

Liderança e empoderamento feminino

Foto: Reprodução / Rachel Maia

Muitas vezes, Rachel Maia é a única mulher em uma reunião – e não precisamos nem dizer que é a única mulher negra. “Faltam mulheres nas mesas de decisão, falta diversidade. É uma mudança de cultura, mas alguém tem que começar a fazê-la”, declarou ela.

Justamente por isso, Rachel faz parte de um grupo de WhatsApp com altas executivas que buscam abrir caminho para que cada vez mais mulheres ocupem cargos de liderança no país. Além disso, ela atua na ONU Mulheres, participa da HeForShe (campanha lançada em 2014 com um discurso da atriz Emma Watson) e está elaborando um projeto com foco na capacitação de mulheres jovens da periferia para o trabalho no varejo.

O que você pode aprender com Rachel Maia

Foto: Reprodução / Rachel Maia

O exemplo de uma mulher negra e de origem humilde que chegou à presidência de uma empresa que faturou US$ 800 milhões em 2016 já é uma grande lição sobre a capacidade feminina, mas ainda podemos aprender muito mais com Rachel Maia:

Leia também: 8 coisas que você pode fazer para lutar pelo direito de igualdade entre os gêneros

1. Ser pioneira nem sempre é glamoroso

Abrir caminho não significa que você será aplaudida e recompensada. “Sabe aquele pessoal da parte da frente? Eu faço parte desse grupo, que luta para derrubar as barreiras. E quem fica na parte da frente é quem fica mais empoeirado, não é tão glamoroso assim”, declarou Maia à Revista Donna. Ou seja: o reconhecimento não vem de graça.

2. Vale a pena investir em você

Rachel Maia teve a coragem de usar o dinheiro de sua rescisão para estudar no exterior e, mesmo sendo uma alta executiva, nunca deixa de investir em sua formação. Dessa forma, todos os anos ela separa pelo menos um mês para fazer cursos de especialização em liderança e negócios.

3. Não existe equilíbrio perfeito entre maternidade e a carreira – e tudo bem

Além de seus planos para expandir os negócios da Pandora, Rachel tem planos para aumentar sua família: a executiva tem uma filha de 8 anos e está na fila para adotar um menino. Quando perguntada sobre como consegue equilibrar a rotina de mãe com a de executiva, ela afirma que, na verdade, não consegue. O que podemos fazer, porém, é nos dedicar ao máximo ao papel que estamos exercendo naquele momento.

“Não existe balanço para quem decide ser um executivo, mas há recompensas. O que você decidir ser, seja de forma plena. Quando sou mãe, sou de forma plena e quando sou a presidente, também é assim”, afirmou ela.

4. Empodere-se para inspirar as mulheres ao seu redor

Para Rachel, ser empoderada é uma forma de inspirar outras mulheres a perceber o que somos capazes de fazer. A executiva afirma que, ao ser protagonista de sua própria história, ela se torna sua heroína e a de outras pessoas também.

Leia também: 10 coisas que toda mulher deveria fazer antes de chegar aos 30

Rachel tem plena consciência de que ocupa um lugar onde raríssimas pessoas com as mesmas condições costumam estar. Justamente por saber que representa a diversidade, ela afirma que procura estar bem para continuar inspirando outras mulheres a sonhar e agir para chegar ao topo.

Pois, então, que assim seja: olhemos para Rachel Maia como uma mulher que teve a ousadia de se colocar em primeiro lugar em determinados momentos e a coragem de desbravar ambientes que poderiam não parecer assim tão acolhedores, seja porque ela tem origem humilde, é negra ou, simplesmente, é mulher.

Assuntos: Mês da Mulher, Poder

Para você