Mulheres na Ciência: histórias, exemplos e uma dose de esperança

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Atualizado em 28.04.21

Sabemos que ser mulher implica um preconceito independente da área de atuação. Durante toda a história, vimos mulheres sendo descredibilizadas e ridicularizadas por suas escolhas, explicitando formas de relação sexistas. Mas isso é assunto para outro post. Aqui, vamos conversar sobre mulheres na Ciência, suas lutas, conquistas e desafios. E, claro, inspirações! Afinal, também sabemos que podemos ser o que quisermos.

Por que as mulheres não faziam parte da Ciência?

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Não é segredo para ninguém que, por questões culturais, as mulheres foram afastadas de cargos públicos, locais de estudo e de poder durante toda a história. Grandes estudiosos contribuíram para que isso ocorresse, a exemplo de Aristóteles, filósofo grego que afirmava que a mulher seria incapaz de exercer o poder e deveria ser “controlada” pelo homem.

O artigo “Por que falar do tema da mulher na filosofia?” evidencia o machismo não só de Aristóteles, mas de outros pensadores como Jean-Jacques Rousseau, Immanuel Kant e mais. Mas também cita pensadores que percorreram o caminho contrário, defendendo a posição da mulher como ser social e seus direitos.

Isso nos mostra que o campo de saber científico não nos promove verdades absolutas, podendo todo conhecimento ser questionado ao longo do tempo. Ainda, percebemos a existência de uma dívida histórica em relação à deslegitimação das mulheres como pesquisadoras e estudiosas – e em diversos outros âmbitos.

“Muitos não entendem a importância de ações afirmativas como simplesmente ler mais mulheres e analisar a literatura produzida por elas, e isso vem desse preconceito histórico contra a mulher também.” – Gabriela Fonseca Tofanelo, Professora, Mestra e doutoranda em Estudos Literários.

Quando isso mudou?

Existiram estudiosas em todos os momentos da história, mas pouco lidas e valorizadas. Prova disso é o termo Efeito Matilda, criado pela historiadora da Ciência Margaret Rossiter para os casos de sexismo na Ciência, explicitando trabalhos realizados por mulheres em que homens receberam o reconhecimento.

Com o passar do tempo e com o advento e o crescimento do movimento feminista, a produção de conhecimento por parte das mulheres ganhou mais respeito e notoriedade – mas é claro que, até os dias atuais, sofremos preconceito no meio acadêmico.

O que é fazer Ciência?

Em seu livro “O que é Ciência, afinal?”, Alan Francis Chalmers nos conta sobre a filosofia da Ciência ter uma história, ou seja, diferentes autores tentaram formular uma teoria sobre a natureza da Ciência. É o caso de Francis Bacon, Karl Popper, Imre Lakatos, Thomas Kuhn e outros, o que prova a inexistência de uma unanimidade sobre o método para se definir o que faz e o que não faz parte do empreendimento científico.

“A falta de entendimento dos processos científicos é parte da crise social que vivemos.” – Francine Marcondes, Pedagoga, Mestra em Educação e Doutora em Educação para a Ciência e a Matemática.

Podemos, então, levar em consideração que fazer Ciência é produzir conhecimento. Sendo assim, entramos em outro assunto relevante para a discussão: a pluralidade de áreas de conhecimento. Com frequência, as Ciências Humanas e outras áreas são desvalorizadas em detrimento de assuntos da área de Exatas ou Tecnológicas, sendo vistas como “menos científicas”. Contudo, vale lembrar que pesquisas em todos os setores são relevantes para o universo científico. É a pluralidade de saberes que enriquece a Ciência a cada dia!

“O grande desafio nessa carreira é a desvalorização do profissional biólogo, a falta de incentivo à cultura e à Ciência no Brasil e, nesse contexto, seguir na carreira já é uma grande conquista!” – Dimila Mothe, Bióloga e PhD em Paleontologia.

“Quando você pertence ao campo de Ciências Humanas e Sociais, é preciso muito esforço para fazer alguém acreditar que você realiza pesquisas científicas (rs). Fazer este empreendimento ser reconhecido como trabalho é até mais difícil. Hoje, os/as professores/as temporários/as das Universidades Estaduais do Paraná não podem atuar no regime de dedicação exclusiva. O trabalho destes/as professores/as é essencial para a sustentação do tripé universitário (ensino, pesquisa e extensão), porém não recebe o devido reconhecimento. Talvez possamos dizer que, pouco a pouco, a pergunta ‘você só estuda ou também trabalha?’ foi institucionalizada.” – Francine Marcondes, Pedagoga, Mestra em Educação e Doutora em Educação para a Ciência e a Matemática.

“O que eu mais vejo é o preconceito com as Ciências Humanas num geral. Muitos não consideram Ciência e nem pensam em áreas das Humanas quando falam em cientistas, mesmo havendo muitas pesquisas nessas áreas.” – Gabriela Fonseca Tofanelo, Professora, Mestra e doutoranda em Estudos Literários.

Como é ser uma mulher cientista?

A seguir, você conhece a resposta de 3 mulheres para a breve, mas complexa, pergunta: como é ser uma mulher cientista atualmente?

Dimila Mothe

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“Ser uma mulher cientista atualmente ainda é bastante desafiador porque o senso comum ainda reconhece como representante dessa profissão geralmente um homem, mais velho e branco. Soma-se a isso a questão da profissão de cientista não ser regulamentada no país, então acaba sendo uma atividade ‘extra’ da profissão de professor… Raros são os casos em que os profissionais trabalham só com pesquisa. Mas acredito que a tendência pro futuro é desconstruir a imagem do cientista como uma pessoa ‘diferentona’ e distante da sociedade, mostrando que é possível sim ser cientista, jovem, latino-americana e com muita competência. Ciência também é coisa de mulher!” – Dimila Mothe, Bióloga e PhD em Paleontologia.

Francine Marcondes

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“Acredito que poucas pesquisadoras no atual contexto poderiam responder a esta pergunta sem fazer menção ao desgaste. Qualquer pessoa que escolhe trabalhar no campo acadêmico-científico nota, ‘de cara’, que se trata de uma profissão desafiadora. Contudo, a atual circunstância sócio-política – na qual se amplifica a rejeição a conteúdos complexos e sistematizados – tornou esta atuação profissional peculiarmente difícil. Não bastasse este cenário, a pandemia fez recair, majoritariamente sobre as mulheres (de todas as profissões), um conjunto extra de tarefas ligadas ao cuidado. Hoje, nossas casas constituem contextos distorcidos em que o ‘espaço de vida privada’, a escola (dos/as nossos/as filhos/as) e o trabalho concorrem, freneticamente, pela sobrevivência. O protagonismo feminino na viabilização dessa conjuntura tem afetado nossa produtividade. A pandemia acentuou a desigualdade de gênero em diversas profissões. Entre elas, destaco a atuação acadêmica, embora seja necessária a ressalva de que compomos um grupo privilegiado, em comparação com outras realidades de mulheres brasileiras.”
“Registrados (superficialmente) alguns dos problemas mais relevantes que agora me ocorrem, também é possível dar lugar à esperança. Ainda que o retrocesso se anuncie (gritante), resistimos! Já é indiscutível a relevância da nossa contribuição na Ciência e em todas as outras profissões. Como aluna, nunca pisei em uma escola privada. Sou filha da escola pública, sou mãe e sou pesquisadora. Esta é uma profissão encantadora, e espero que ela acolha muito mais pessoas, muito mais mulheres.” – Francine Marcondes, Pedagoga, Mestra em Educação e Doutora em Educação para a Ciência e a Matemática.

Gabriela Tofanelo

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“Gosto muito de poder contribuir com a pesquisa, embora atualmente veja a grande desvalorização das Ciências Humanas! Acredito que deveria haver mais divulgação para maior conscientização de todos/as sobre a importância da pesquisa em todas as áreas!” – Gabriela Fonseca Tofanelo, Professora, Mestra e doutoranda em Estudos Literários.

Nada como conhecer histórias reais que exalam inspiração e força, não é? Por isso, que sigamos valorizando o trabalho de mulheres a cada dia – sejam elas cientistas ou não.

3 cientistas que fizeram história e devemos enaltecer

Os 3 próximos exemplos são brasileiras que foram muito mais do que cientistas. Elas foram exemplo de resistência e luta por espaços menos poluídos pela desigualdade de gênero.

1. Lélia Gonzalez

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A mineira Lélia Gonzalez se formou em História e Filosofia, Mestra em Comunicação Social e Doutora em Antropologia. Além disso, foi ativista, militante e uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU), além de lutar contra o sexismo e a cultura de dominação masculina, criticando, ainda, aspectos racistas do feminismo hegemônico. Lélia faleceu no ano de 1994, mas nunca deixou de ser um grande exemplo de mulher e cientista brasileira.

2. Nise da Silveira

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A médica psiquiatra, única mulher de sua turma de graduação, trabalhou com terapia ocupacional e revolucionou a psiquiatria de sua época, uma vez que foi contra os movimentos manicomiais de reclusão dos doentes. Foi responsável por muitas mudanças na estigmatização da loucura e até hoje é sinônimo de resistência e luta por uma psiquiatria humanitária. Nise é natural de Maceió, mas faleceu em 1999 no Rio de Janeiro, cidade onde trabalhou por quase toda sua vida.

3. Bertha Lutz

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Brasileira, mas conquistou a formação de zoóloga na Universidade de Paris. De volta ao país de origem, trabalhou no Museu Nacional e ainda se formou em Direito no Rio de Janeiro. Além de toda a trajetória acadêmica e de ser um grande nome da Biologia, a ativista foi líder de movimentos feministas no Brasil e teve enorme importância na luta a favor do voto feminino. Bertha ainda atuou na política e, mesmo após sua morte em 1976, segue recebendo homenagens pela cientista que foi.

É muito importante que busquemos conhecer exemplos de pioneiras da Ciência no Brasil e no mundo para, cada vez mais, valorizar nossa história e nos inspirar em mulheres cientistas!

Por que não desistir?

Diante de tantas adversidades, o que mantém as cientistas em suas carreiras? Deixo que elas te contem:

“Eu acredito muito que só através da educação, Ciência e cultura a gente constrói uma sociedade mais justa, progressista e igualitária, então isso é o que me motiva. As oportunidades têm ficado mais escassas nos últimos anos (como concursos públicos) e, de fato, a Ciência nunca foi muito prioridade no país, mas acredito que é o único caminho para lutar contra a ignorância, negacionismo, retrocesso e obscurantismo que tanto ronda nossa sociedade.” – Dimila Mothe, Bióloga e PhD em Paleontologia.

“O que me faz seguir na Ciência, na pesquisa, é isso, saber que o conhecimento é capaz de libertar e transformar a sociedade, principalmente para que esta seja mais justa e igualitária.” – Gabriela Fonseca Tofanelo, Professora, Mestra e doutoranda em Estudos Literários.

Espero que essa conversa tenha te inspirado a seguir na luta! Cerque-se de mulheres que te apoiam e de grandes exemplos, como os citados aqui. E lembre-se: a Ciência é mais completa, plural e bonita com você!