Os efeitos da empatia e a arte de olhar para o outro

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Atualizado em 21.06.22

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Atualizado em 21.06.22

Certamente você já ouviu alguém falar sobre a empatia e seus benefícios para a responsabilidade afetiva. Embora muito ligada ao altruísmo, a empatia representa muito mais que isso. Assim, veja o que a psicóloga, doula e educadora perinatal Dara Levy Bariani fala sobre o assunto.

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O que é empatia

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Segundo Dara, a “empatia é definida como a capacidade e habilidade psicológica de se colocar no lugar de outra pessoa, ou seja, a capacidade de compreender um sujeito que vive em uma realidade e contexto distinto, com seus pensamentos, vontades, personalidade, entre outras diferenças humanas”.

A psicóloga explicou que a empatia é uma habilidade instintiva já inserida pela evolução dos circuitos cerebrais. Em 2012, o pesquisador Philip Low, por meio de uma publicação em Cambridge, declarou que “os humanos não são os únicos a possuir os substratos neurológicos que geram a consciência”.

Ter consciência envolve inteligência, sensibilidade, percepção de si, bem como do meio. Isso significa que todos os seres humanos e não humanos possuem a capacidade da empatia. Porém, segundo Dara, “possuir a capacidade é diferente de colocá-la em prática, pois o desenvolvimento da habilidade exige prática e treino”.

Por exemplo, “nascemos, em maioria, com a capacidade evolutiva de andar sobre duas pernas, mas, para andar de fato, é preciso treino e desenvolvimento profundo da habilidade, o mesmo vale para a empatia”.

Além disso, Dara explica que o “traço empático é diferente do ato da empatia”, pois, mesmo tendo a capacidade, “é necessário desenvolver flexibilidade psicológica para agir frente ao estímulo que desencadeia o pensamento empático, mantendo presente no dia a dia uma habilidade que, além de ser essencial para a vida humana, pode tornar o mundo melhor”.

3 exemplos para ilustrar a empatia na prática

O conceito de empatia parece algo muito subjetivo. Para exemplificar, Dara selecionou três situações cotidianas. Veja:

  • Ambiente de trabalho: você trabalha há alguns anos na mesma empresa, então, nota a chegada de uma estagiária muito boa e prestativa. Entretanto, ela fica nervosa com as situações novas, sempre pesquisando muito e até demonstrando certa ansiedade. Para você, a função da estagiária é fácil e automática, pois faz parte da sua vivência. No entanto, por meio da reflexão, percebe que, para ela, está sendo difícil, pois é algo novo, que gera inquietações e preocupações. Ainda, você observa que ela tem de pesquisar mais para fazer processos simples e, além de trabalhar, precisa manter a faculdade. Em um ato de empatia, você decide ajudar a estagiária e, carinhosamente, pontua que é normal sentir dificuldade no início e que, com o tempo, ela poderá se desenvolver e tudo se tornará mais fluido.
  • Ambiente doméstico: Luiz é pai há 4 dias. Depois de uma gestação de 41 semanas, sua esposa deu à luz a primeira filha do casal. Desde o parto, ele nota que a esposa está cansada, não consegue dormir direito e aparenta estar irritadiça. Então, Luiz para e reflete: apesar de viver ao lado da mulher e acompanhar a gestação como companheiro, ele não sentiu todas as alterações corporais e hormonais, afinal, não passou pelo parto e não teve dores na amamentação. Assim, ele reconhece que a situação é cansativa, difícil e que é compreensível as alterações de sua esposa. Pensando em meios para diminuir o cansaço dela, Luiz cuida do bebê durante a madrugada, faz as tarefas domésticas e tenta sempre deixar comida e água ao alcance da esposa para que ela não precise se deslocar com o neném.
  • Ambiente social: Laila sempre utiliza aplicativos de corrida para ir ao seu escritório. Observadora, ela costuma conversar com os motoristas. Em um dia bem quente, Laila sai para ir ao trabalho e, como de hábito, entra no carro. Durante a corrida, Laila percebe que o motorista está cansado e pergunta há quanto tempo ele está ativo no aplicativo. O motorista relata que trabalhou durante a madrugada. Laila pensa que teve uma ótima noite de sono, está bem alimentada e hidratada. Ela reflete sobre como estaria se sentindo se estivesse trabalhando há horas sem parar, provavelmente, com sede e com fome. Ao parar no escritório, Laila pede para o motorista esperar, busca uma garrafa de água e um pedaço de bolo, esperando deixar o dia do trabalhador um pouco mais bonito. Antes de partir, ele sorri e agradece.

Com os três exemplos, é possível perceber que a empatia é um gesto simples, atencioso e carinhoso. É estar à disposição, reconhecer a realidade do outro, observar, escutar e compartilhar. A seguir, entenda o impacto da empatia e o que a sua falta pode causar.

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Os efeitos da empatia

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Seja nas relações pessoais ou interpessoais, a empatia é a arte da sensibilidade. Um “oi” pode mudar o dia de alguém. Um abraço pode amenizar uma grande dor. Um “eu te entendo” pode aliviar muitos pesos. A empatia humaniza e recupera o senso de coletividade, por outro lado, sua falta é preocupante. Veja o que a pesquisadora pontua sobre o assunto:

O impacto da empatia

De acordo com a pesquisadora, a empatia “fornece meios para o ser humano agir de maneira cooperativa, pensando não só no impacto da sua própria história, mas considerando o outro, sua realidade, cultura e contexto distinto”.

Desenvolver a empatia traz benefícios tanto para o nível pessoal quanto social, pois o “sujeito pode se adaptar melhor e desenvolver outras habilidades, ajudando na sua cognição, uma vez que exercer empatia faz parte do próprio desenvolvimento neuropsicológico humano”. Além disso, a empatia é a base para o desenvolvimento de outras habilidades, como a sororidade, o autocuidado e a inteligência emocional.

No nível social, “o ato de ser empático mantém a engrenagem do cotidiano funcionando, priorizando o respeito e desenvolvendo meios que ofereçam qualidade de vida para todos”, afinal de contas, “a vida é feita de altos e baixos”. Enfim, já diz o ditado: uma mão lava a outra. Um dia você precisa de ajuda, no outro, você ajuda.

O diferencial de uma sociedade empática é que, “mesmo em situações ruins, você não precisa ser solitário. Contar com pessoas que mostram compreensão da situação pode ajudar alguém a sair de um poço que antes parecia não ter fundo”.

O que a falta de empatia pode causar

Certamente você já passou por uma situação em que precisou de empatia, porém as pessoas não perceberam o seu lado. Foi bem ruim, não é mesmo? Pois é, às vezes, a falta de empatia pode magoar e deixar a vida mais pesada.

Entretanto, as consequências vão muito além disso. Segundo Dara, “evolutivamente, a perda dessa habilidade seria catastrófica, já que milhares de anos da evolução do nosso cérebro seriam perdidos”. Ela complementa, “psicologicamente, haveria menor flexibilidade cognitiva para lidar com realidades diferentes, o que poderia ocasionar conflitos maiores, além da diminuição da cognição em geral”.

Ao exercitar a empatia, você expande a sua visão de mundo, conhece outras realidades, cria laços e uma teia de boas ações. Por exemplo, retornando ao motorista de aplicativo citado anteriormente, ao parar em um sinaleiro, ele viu uma criança com fome, então, dividiu seu pedaço de bolo e sua garrafa de água. A situação é hipotética, porém deveria ser real. A seguir, entenda como exercitar a empatia.

8 dicas para exercitar a empatia

Você já sabe que a empatia se desenvolve a partir do treino, então, que tal exercitar seu olhar? Abaixo, veja as dicas da psicóloga para desenvolver seu lado empático:

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1. Saia da bolha

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O primeiro passo é sair da sua zona de conforto. Dara explica que “olhar para fora e conviver com realidades diferentes são formas de entender as culturas do planeta e exercitar a compreensão.

2. Pratique a escuta

A escuta é a melhor forma de adentrar em uma realidade diferente da sua. Para isso, “procure ouvir as pessoas de verdade, não apenas um emaranhado de sons estranhos, seja curiosa, observe a vivência, o caminho e a evolução que a outra pessoa trilhou”, pontuou Dara.

3. Assista filmes e séries fora da sua zona de conforto

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Todo estímulo que te convide a observar diferentes pontos de vista é válido. Assim, vá além do universo hollywoodiano, “explore produções estrangeiras e nacionais, leia diferentes autores, consuma diversos tipos de arte. Com isso, tente entender a realidade da mente de outra pessoa e transfira sua consciência”, convidou Dara.

4. Seja mais tolerante com ideias cotidianas distintas das suas

Não é porque você não sente como o outro que a realidade dele não é válida. Em vez disso, “procure compreender os caminhos que moldaram essa pessoa, questione-se sobre as situações da vida que direcionam pessoas para diferentes pontos e opiniões”.

5. Observe atentamente

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A comunicação vai muito além da palavra escrita ou oral. Por isso, foque no “que pode ser visto mesmo que não falado, o que aquela pessoa representa nos movimentos corporais”, pois todo comportamento é uma forma de expressão.

6. Demonstre interesse

Não adianta apenas ouvir e observar. É necessário se interessar de verdade, então, “durante as conversas, mantenha-se ativo e mostre interesse na história que está sendo contada. Ao prestar atenção aos detalhes, você descobre muitas coisas e, até mesmo, compreende a personalidade das pessoas”.

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7. O pensamento não está pronto

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Dara explica que “é fácil julgar rotineiramente, pois, ouvindo conversas, o pensamento vem à mente, logo se vai, você julga a situação superficialmente e continua a vida”. Para evitar que isso aconteça, é muito importante ter um momento de reflexão. Sendo assim, “pare e abra a caixinha, olhe outra vez para a situação e para o pensamento, entenda o porquê pensou aquilo e note se poderia refletir sob outra ótica”.

8. Pense em você

“Apesar de parecer estranho, desenvolver empatia pela própria história também pode ajudar a exercitar a mesma habilidade com outras pessoas, pense em como você gostaria que as pessoas te ouvissem e em como você merece ser considerada”, afinal de contas, é muito importante tratar os outros da forma que você gostaria de ser tratada.

Gostou da matéria? Além da empatia, você consegue desenvolver diversas habilidades psicológicas com a psicoterapia. Acesse a matéria e entenda como funciona.

As informações contidas nesta página têm caráter meramente informativo. Elas não substituem o aconselhamento e acompanhamentos de médicos, nutricionistas, psicólogos, profissionais de educação física e outros especialistas.