Pré-eclampsia: o que significa, riscos, tratamentos e prevenção

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Em 27.02.20

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A pré-eclampsia é uma doença específica da gestação. É uma das principais causas de mortalidade materna e pode provocar partos prematuros, entre outros problemas para a mãe e o bebê. Saiba como se caracteriza, quais são as causas e fatores de riscos, tratamentos, como prevenir e esclareça as principais dúvidas sobre o assunto.

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O que é pré-eclampsia

Aparecida Monteiro (CRM 52669660), ginecologista com mestrado em saúde materno-infantil, membro da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro, destaca que a pré-eclâmpsia é uma condição específica da gestação, envolve vários sistemas do organismo e vários fatores em sua gênese.

Pré-eclampsia: “é tradicionalmente caracterizada pelo surgimento de hipertensão arterial associada à proteinúria (perda excessiva de proteína pela urina) em gestantes com histórico de pressão arterial normal, após a 20ª semana de gestação. Outras disfunções dos órgãos maternos podem estar presentes, além do crescimento fetal restrito”, explica Aparecida.

Eclampsia: “é a principal complicação neurológica da pré-eclâmpsia, definida como um episódio convulsivo, ou qualquer outro sinal de consciência alterada, ou estado comatoso, e que não pode ser atribuído a nenhuma outra condição neurológica preexistente. A eclampsia pode ocorrer antes, durante ou após o parto”, destaca Aparecida.

Pré-eclampsia pós-parto: a pré-eclampsia pode ocorrer tardiamente, inclusive no pós-parto, principalmente nas 48 horas após, conforme explica Aparecida.

Vale destacar que a pré-eclampsia pode ser classificada entre precoce ou tardia, de acordo com o momento em que se manifesta durante a gravidez. Com menos de 34 semanas de gestação, é precoce; depois disso, tardia.

Causas e fatores de risco

A pré-eclampsia é uma doença bem estudada, embora a fisiopatologia permaneça incerta. “É uma condição multifatorial com um forte componente genético e vários genes foram associados a esse distúrbio. Associa-se várias características-chave no desenvolvimento da pré-eclâmpsia, considerada principalmente como um distúrbio vascular”, destaca Aparecida.

Os principais fatores envolvidos na patogênese da pré-eclâmpsia, de acordo com Aparecida, incluem:

  • Má adaptação imune da mãe ao tecido da placenta;
  • Alterações hemodinâmicas e da função dos vasos;
  • Estresse oxidativo com resposta inflamatória sistêmica;
  • Estado nutricional.

Várias hipóteses procuram explicar a etiologia, incluindo fatores genéticos, ambientais e de estilo de vida. São considerados fatores predisponentes (facilitadores para o surgimento da doença), conforme destaca Aparecida:

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  • Obesidade;
  • Síndromes metabólicas;
  • Hipertensão arterial crônica;
  • Diabetes pré-gestacional;
  • Doenças autoimunes;
  • Idade materna acima de 40 anos ou menor que 20 anos;
  • Primeira gestação;
  • Gestação múltipla;
  • História familiar de pré-eclampsia/eclampsia.

O acompanhamento pré-natal é o grande aliado da gestante pois, sendo a pré-eclampsia multifatorial, o mapeamento de todos as fatores relacionados com a sua ocorrência é essencial para a prevenção da doença, conforme conclui Aparecida.

Sintomas da pré-eclampsia

A pré-eclampsia é assintomática na maioria das vezes, destaca José Moura (CRM 18281), ginecologista-obstetra e coordenador médico do Hospital da Mulher Anchieta. Configura-se quando a pressão arterial começa a aumentar após 20 semanas de gestação. Os sintomas que podem surgir, nos casos mais graves, de acordo com Moura, são:

  • Cefaleia;
  • Náuseas;
  • Vômitos;
  • Dores em região epigástrica e em hipocôndrio direito;
  • Escotomas visuais (presença de pontos cintilantes na visão).

Aparecida ressalta que a apresentação clássica inclui o aumento da pressão arterial (PA > 140/90 mmHg) e, muitas vezes, a perda significativa de proteína pela urina, identificadas após a 20ª semana de gestação.

“A gestante pode se apresentar assintomática ou não, dor de cabeça e edema importante chamam a atenção para investigação. Outras disfunções sistêmicas com alterações dos exames laboratoriais podem ser encontradas, como redução da contagem de plaquetas, disfunção hepática, insuficiência renal, edema agudo de pulmão, alterações visuais e da consciência”, acrescenta Aparecida.

“O obstetra deve estar sempre atento à associação de hipertensão arterial com sinais de comprometimento placentário, como restrição de crescimento fetal”, ressalta a ginecologista.

Riscos para a mãe e o bebê

A pré-eclampsia, destaca Moura, pode evoluir para eclampsia, acidente vascular cerebral hemorrágico, síndrome HELLP, insuficiência renal, edema agudo de pulmão, podendo levar à morte da mãe e do feto.

Aparecida Monteiro acrescenta que estudos clínicos de mulheres com pré-eclampsia mostram um risco aumentado de desenvolverem doenças cardiovasculares mais tarde na vida. “É possível também a relação com o aumento do risco de doença renal e distúrbios metabólicos”, diz.

“Pode ocorrer descolamento prematuro de placenta, assim como situações com maior risco de hemorragia durante o parto ou puerpério. A pré-eclampsia também pode acometer o desenvolvimento fetal, não são raros bebês de baixo peso e prematuros”, destaca Aparecida.

Tratamentos

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A paciente deve ser acompanhada de forma individualizada levando em conta a gravidade de cada caso. Os métodos de tratamento para a pré-eclampsia incluem:

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Tratamentos medicamentosos

Moura explica que a indicação acontece quando a pressão arterial da paciente não se normaliza com as medidas comportamentais e dietéticas. “Pacientes com pressão arterial elevada são orientadas a ter uma alimentação saudável e balanceada, evitar esforços físicos e situações de estresse que possam comprometer os níveis pressóricos, além de um acompanhamento pré-natal bem rigoroso. Existem algumas medicações anti-hipertensivas que são liberadas para uso durante a gestação e que não comprometem o desenvolvimento do feto”, esclarece.

Aparecida ressalta que o acompanhamento regular da gestante pelo obstetra permite a escolha do momento certo e da medicação correta para cada caso. “Vale lembrar que nem todas as medicações anti-hipertensivas são indicadas para o período gestacional, alguns são contraindicados. As linhas de medicações mais utilizadas são anti-hipertensivos, vasodilatadores, bloqueadores dos canais de cálcio e sulfato de magnésio”, diz.

Hospitalização

Pode ser indicada, de acordo com Moura, nos casos em que a hipertensão arterial for de difícil controle ou a paciente apresentar alguma doença de base associada (por exemplo, doença que cause alteração nas plaquetas, insuficiência no fígado). “Pode ser indicada, ainda, para pacientes que não consigam fazer o acompanhamento ambulatorial rigoroso (ou seja, as consultas médicas devem ser feitas com uma frequência maior, onde vai ser avaliado o controle da pressão arterial, o ganho de peso)”, diz.

Aparecida reforça que a hospitalização é decisão da equipe médica e pode ser indicada na presença de pico hipertensivo (pressão arterial maior ou igual a 160/110 mmHg), além disso, na vigência de sinais de complicações de outros sistemas além do cardiovascular, como renal, hematológico, hepático, neurológico e oftalmológico.

“Alterações que coloquem em risco a vida do feto também podem ser indicação de internação hospitalar, por exemplo, alterações da perfusão placentária”, acrescenta Aparecida.

Indução do parto

Moura esclarece que pode ser indicada a indução do parto em pacientes que apresentem pressão arterial de difícil controle e alterações nos exames laboratoriais ou em termos de sintomas, que não consigam ser revertidas com medicações e medidas comportamentais. O intuito é a minimização de danos.

Aparecida destaca que é preciso avaliar sempre risco e benefício em relação ao estado de saúde materno e a viabilidade fetal (idade gestacional). “Toda vez que houver sinal de complicação da pré-eclâmpsia com sinais de agravamento clínico, o parto poderá ser indicado, como por exemplo: alterações laboratoriais progressivas (redução das plaquetas e elevação de enzimas hepáticas); eclampsia; descolamento prematuro de placenta; edema agudo de pulmão e/ou comprometimento cardíaco; insuficiência renal; comprometimento da vitalidade fetal”, explica.

Hábitos que podem ajudar

Aparecida ressalta que o tratamento não farmacológico inclui dieta normal e adequada e o repouso relativo a fim de evitar exercícios e atividades que contribuam para o aumento da pressão arterial.

Como prevenir a pré-eclampsia

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Um bom pré-natal é palavra-chave para evitar esta e outras condições que podem ocorrer juntamente com a gravidez. Confira as principais orientações nesse sentido:

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  • Faça um bom pré-natal: “a paciente deve ser bem orientada sobre os sinais de comprometimento e gravidade da doença. O acompanhamento pré-natal deve ser bem feito, de forma bem criteriosa e de fácil acesso, para que se apresente um bom controle da pressão arterial e o ganho de peso da gestante seja dentro do esperado”, destaca José Moura.
  • Controle o peso: de acordo com Aparecida, estudos apontam que sobrepeso e obesidade são fatores de risco para a pré-eclâmpsia. Assim, uma dieta balanceada e regular é orientação acertada para toda gestante. “Importante também que o aumento do peso corporal não se dê de forma abrupta”, acrescenta.
  • Considere (junto ao seu médico) suplementação: Aparecida explica que estudos clínicos evidenciaram efeito positivo protetor em doses baixas de ácido acetilsalicílico (Aspirina) e a suplementação com cálcio para mulheres com risco de pré-eclâmpsia. Mas vale lembrar que essa orientação deve vir do médico que acompanha a gestação, e a mulher nunca deverá se suplementar por conta ou se automedicar.

José Moura reforça que sempre deve ser feita uma avaliação rigorosa do bem-estar materno e fetal. “É importante que a paciente seja bem informada sobre a presença de sintomas ou alterações que possam acontecer e, assim, possa procurar um atendimento médico se necessário”, acrescenta o ginecologista-obstetra.

5 dúvidas respondidas sobre pré-eclampsia

Por ser uma condição séria, que pode gerar riscos para a mãe e o feto, é comum que a pré-eclampsia gere muitas dúvidas entre as gestantes. Confira o esclarecimento para algumas questões abaixo:

1. A pré-eclampsia sempre começa após 20 semanas de gestação?

“O diagnóstico se faz após 20 semanas de gestação. A etiologia dessa doença é desconhecida, mas sabe-se que ela aparece por uma alteração no desenvolvimento da placenta com insuficientes modificações na circulação sanguínea do útero levando à diminuição da oxigenação do tecido placentário, estresse oxidativo e desenvolvimento de fatores inflamatórios e angiogênicos (formação de novos vasos sanguíneos). Com essa disfunção placentária e os fatores liberados por ela, vai haver uma lesão no endotélio sistematicamente, fazendo com que a hipertensão arterial, comprometimento de órgãos-alvo e perda de proteína na urina possam aparecer”, explica Moura.

2. Quais são as diferenças entre a pré-eclampsia precoce e tardia?

“A pré-eclampsia pode ser considerada precoce quando se manifesta antes das 34 semanas de gestação. Já a tardia, após esse período. Quando ocorre precocemente, pode acarretar mais complicações para a mãe e para o feto, tendo em vista o comprometimento do desenvolvimento placentário, bem como a distância temporal para o parto. Além disso, há complicação também na circulação uteroplacentária e no crescimento do feto. Representa 40% dos casos das doenças no Brasil”, explica Moura.

“Já a tardia (após a 34º semana de gestação), costuma apresentar o compartimento uteroplacentário adequado ou pouco alterado. Apresenta menor comprometimento do crescimento fetal e, portanto, resultados melhores tanto para a gestante quanto para o feto. É a mais frequente”, acrescenta o ginecologista-obstetra.

3. Como é feito o diagnóstico de pré-eclampsia?

“O diagnóstico é feito quando a pressão arterial começa a se elevar (>= 140 x 90 mmHg) em pacientes que apresentam pressão arterial normal, previamente associadas (ou não) à perda de proteína na urina (proteinúria)”, esclarece Moura.

“A pré-eclampsia pode ser diagnosticada em pacientes que apresentem aumento da pressão arterial e ausência de proteinúria, mas que tenham doenças de base, como edema agudo de pulmão, disfunção hepática ou renal, deficiência de plaquetas no sangue (trombocitopenia) e iminência de eclampsia. Nos casos graves, como a síndrome HELLP, pode apresentar alterações laboratoriais, como aumento de enzimas hepáticas, trombocitopenia e alteração na função renal associada à presença de esquizócitos em sangue periférico”, acrescenta o ginecologista-obstetra.

4. Pode ocorrer pré-eclampsia com pressão normal?

“A pré-eclampsia é definida como aumento da pressão arterial, não sendo considerada nas pacientes que apresentem pressão arterial normal”, responde Moura.

5. A gestante com pré-eclampsia precisa ficar em repouso?

Não necessariamente. “A paciente pode ter uma vida normal, com uma alimentação saudável e sem se expor a situações que possam aumentar sua pressão arterial”, esclarece o ginecologista-obstetra.

Quer se aprofundar no assunto?

A pré-eclampsia é uma condição séria e, como sua etiologia é desconhecida, a melhor medida de prevenção é o pré-natal realizado corretamente, que acompanhará todo o desenvolvimento gestacional e realizará o monitoramento da pressão arterial da gestante. Aproveite e esclareça suas dúvidas sobre descolamento de placenta.

As informações contidas nesta página têm caráter meramente informativo. Elas não substituem o aconselhamento e acompanhamentos de médicos, nutricionistas, psicólogos, profissionais de educação física e outros especialistas.

Assuntos: Gravidez