COLUNA

Não está mais aqui quem falhou!

Dicas de Mulher

Por que alimentamos o hábito de fugir das situações que não estão indo bem?

Acho um clichê sem tamanho usar a palavra “resiliência”, mas aqui não dá para fugir dela. De acordo com o Dicionário Oxford, resiliência é um termo derivado da física, que significa “a propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica”.

No senso comum, estamos usando como sinônimo de fortaleza, de não sucumbir diante das dificuldades e de insistir naquilo que nos machucou. Os termos que viram um clichê carregam este problema: generalizar soluções para situações e contextos muito diferentes.

Cada caso é um caso!

Há mulheres “resilientes” até demais. Passam anos, décadas, sofrendo em relacionamentos que já não fazem sentido. Quando terminam, entram em outro similar. Isso não é resiliência, é trauma, repetição, alienação, falta de terapia… enfim.

Outras fazem o avesso: está dando certo, bem. Não está, tchau. São aquelas eternas insatisfeitas, que não toleram a falha do outro e, muito menos, de si mesmas. Se você é essa mulher que sempre quer romper com tudo o que te dói, provavelmente também se depara com projetos e relacionamentos que começaram e terminaram mal muito rapidamente. Sente vergonha e culpa de coisas que fez e, com frequência, se põe a pensar: o que eu tinha na cabeça quando me enfiei em cada um desses lugares?!

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Insatisfações e idealizações

Parece óbvio que todas as situações têm seu lado bom e ruim. Parece óbvio, também, que o lado ruim se sobressaia com o tempo. As coisas são assim: no começo, as idealizações nos levam a abraços completos, empregos rentáveis e encontros perfeitos.

Passadas as primeiras impressões, vazios e vãos começam a aparecer. O abraço já não encaixa tanto, o emprego poderia pagar melhor, o encontro não foi tão bom como antes… O momento da falha não está necessariamente quando o outro não corresponde às nossas expectativas, mas quando percebemos que nós não gostamos de quem nós estamos sendo ali.

Será que meu abraço não serve mais? Será que sou realmente boa no que faço? Será que não sou mais suficiente para o outro? E aí, indispostas para lidar com a nossa possível-pior-versão, mudamos o cenário e começamos de novo.

Falando em falha…

Dito isso, é um fato: fugir das situações que não estão indo bem é um ato narcísico. Não narcisista, doentio ou egoísta necessariamente… Mas narcísico no ponto em que é difícil suportarmos o fato de não sermos perfeitas. Nesse jogo, acabamos deixando projetos pela metade que poderiam ser um sucesso.

Empresas de sucesso já quebraram alguma vez. Relacionamentos saudáveis já enfrentaram rompimentos. Amizades duradouras já passaram por brigas feias. Assim, a crise vai formando a base sólida de qualquer vivência. Sermos falhas é justamente o que possibilita nosso crescimento em qualquer área da vida. Porque é o vazio que nos permite o movimento. Não o movimento de sair, mas o movimento de ficar e crescer, enfrentar nossos fantasmas e medos antigos.

Para que algo possa ir bem, é preciso falhar, errar e, é claro, mudar. Ali se encontra a possibilidade de encerrar ciclos, sem abandonar a essência daquilo que um dia desejamos ser, não de forma perfeita, mas da melhor forma que pudermos.

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Fora do dicionário

A definição de resiliência do dicionário é uma grande cilada porque, para a física, um corpo será resiliente se voltar ao seu formato original após uma deformação elástica. Na vida, a ideia é outra: acolher a deformação como uma forma de desejar mudar, para melhor, sem perder a essência de nós.

Assim, será possível aceitar com mais afeto nossas limitações e compreender a diferença entre fugir de uma situação desafiadora e finalizar um ciclo com a paz de quem falha, mas se transforma.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Dicas de Mulher.

Psicanalista e Palestrante, graduada em Psicologia e em Letras, com Mestrado e Doutorado em Linguística e Pós-Graduada em Sexualidade Humana. Dedica sua carreira ao desenvolvimento de mulheres líderes no trabalho, nos relacionamentos e na vida. É autora do livro "A linguagem da loucura" e empresária, ama comunicação, esportes, viagens e celebrações.