Outros

Eu não aguento mais!

Dicas de Mulher

Relacionamentos, trabalho, vida social… Saiba como as diversas áreas de nossa vida se contaminam quando não estamos emocionalmente saudáveis.

Psicóloga

No trabalho, demandas intensas. No relacionamento, frustrações cotidianas. Em casa, mais tarefas. Com todas essas exigências, a vida social não existe ou se torna um fardo. Esse é o cenário que muitas mulheres enfrentam na modernidade.

A independência financeira e a reprodutiva foram conquistadas pelos diversos movimentos feministas a partir da década de 1960. Entretanto, ainda hoje, elas tensionam com o atraso cultural das organizações e o comportamental de nossos parceiros, que ainda não compreenderam para que(m) vão as tarefas antes dadas exclusivamente às mulheres, como cuidar dos filhos e da casa.

O avanço da tecnologia e a globalização trouxeram rapidez às conexões, tirando a paz e a concentração que poderíamos ter longe das redes sociais. Trocando em miúdos: estamos abarrotadas de atividades que não deveriam ser só nossas. Já não sabemos o que, de fato, é prioridade em nossa vida.

Libere a histérica que há em você!

No senso comum, dizer que uma mulher é histérica pode soar muito mal. Mas, na Psicanálise, significa que, de alguma forma, transformamos nossas angústias em sintomas, gritos, surtos e dores – e isso não é nada ruim, acredite! O pior inimigo da nossa saúde mental é ‘engolir sapos’ cotidianamente, sem dizer o que desagrada. Todo copo cheio uma hora transborda.

Nos relacionamentos, o copo transborda quando estar com o(a) parceiro(a) já não é sinônimo de descanso, e, sim, de mais estresse. No trabalho, o copo transborda quando aquilo que nos fazia se sentir potentes e capazes, passa a nos pressionar de tal modo que não conseguimos lidar com a ideia de ter de voltar no outro dia. Assim, vamos vazando e passando por tempestades que vão muito além do copo d’água.

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A vida após a morte (em vida)

Ouvindo pacientes em consultório, observando as queixas de amigas e conhecidas e vivendo na pele a dinâmica massacrante do estresse, questiono: o que nos leva a acatar tantas demandas sem ter a potência de dizer “não”?

Fomos educadas para aceitar as (abusivas) tarefas dadas a nós, pelo simples fato de sermos mulheres, sem reclamar. A louça sempre era nossa, as notas escolares deveriam ser excelentes, a roupa estava sempre limpa e comportada… Ao longo dos anos 1980 e 1990, essa forma de ‘educação feminina’, levou muitas de nós a buscar uma vida sacerdotal, em que receberíamos o céu se fôssemos garotas que davam conta de tudo com excelência. O resultado: uma geração de mulheres sobrecarregadas e à beira de um ataque de nervos, com grande dificuldade de impor limites.

Eu gosto muito de uma série chamada “The Good Place” – retrata a vida após a morte de uma mulher que, nos termos bíblicos, não mereceria o paraíso como vida eterna. Os personagens, com diferentes falhas, mostram que, não importa o quão bom você seja, o céu não é uma garantia, porque toda história tem seu lado bom e ruim. Então, me pergunto com frequência: o sentido de mantermos tudo em ordem por fora enquanto tudo por dentro se desmorona é uma forma imaginária de garantirmos um lugarzinho no céu? Assim, vamos morrendo dia após dia no inferno de nossas autoexigências…

Tudo junto e misturado

Quando não dormimos bem, não acordamos bem. Quando não acordamos bem, não trabalhamos bem. Quando não trabalhamos bem, não nos relacionamos bem. Decepcionadas e com o pensamento a mil, não dormimos bem – e assim o ciclo recomeça. Definir nossas prioridades na vida é fundamental para não misturarmos as coisas. Se o corpo está pedindo atenção, priorize uma rotina simples de atividades físicas – coloque na agenda como uma forma de compromisso semanal com você.

Se a mente está ansiosa, coloque também na agenda um momento de autocuidado, seja pela psicoterapia, meditação ou outros processos de autoconhecimento – não abra mão disso! Se ser mãe é sua prioridade, compreenda quais são os elementos indispensáveis (e somente os indispensáveis!) para maternar da maneira como você julga ser a melhor. Marque horários possíveis, siga uma rotina e respeite-a. A organização parece clichê, mas é a chave do compromisso com o seu próprio bem-estar.

Habilidade pra dizer mais “não” do que “sim”

Se o problema foi gerado por uma educação que nos forçou a sempre dizer sim, a solução reside no avesso: “não, não posso fazer hora extra hoje”. “Não, não aceito cuidar disso sozinha”. “Não, não consigo resolver esse problema para você”. “Não, não quero fazer essa viagem”. “Não, não respondo ao WhatsApp após às 18h”. É claro que impor as próprias vontades e delegar suas prioridades trará perdas. Perdas de coisas que você acredita que não pode viver sem. Mas, talvez, seja justamente os buracos abertos que te propiciarão encontrar outras oportunidades e formas de viver, que respeitem os seus limites. Lembre-se: quem permite que o copo transborde é sempre você mesma!

Psicanalista e Palestrante, graduada em Psicologia e em Letras, com Mestrado e Doutorado em Linguística e Pós-Graduada em Sexualidade Humana. Dedica sua carreira ao desenvolvimento de mulheres líderes no trabalho, nos relacionamentos e na vida. É autora do livro "A linguagem da loucura" e empresária, ama comunicação, esportes, viagens e celebrações.