Sociedade

“Vi o quanto sou linda e o tamanho da mulher que me tornei”, conta Adriana Carvalho, ex-bailarina amputada

Adriana Carvalho / Foto: Ale Monteiro

Carvalho conta sua trajetória e afirma que, apesar das dificuldades, é possível reestabelecer a autoestima após ter um membro amputado

Em 01.07.22

A autoestima é uma grande influenciadora de comportamentos voltados para o desenvolvimento pessoal, social e profissional, além de gerar impactos em sentimentos como autoaceitação e autoconfiança. A essa definição, pode-se atribuir ainda o conceito de imagem corporal, que diz respeito a um conglomerado de representações, sensoriais, sociais, afetivas e cognitivas, que um indivíduo tem de seu próprio corpo. Ambos os conceitos podem ser impactados durante a vida, frente à acontecimentos e situações, como é no caso de uma amputação adquirida.

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A pesquisa ‘A imagem corporal na amputação’, da psicóloga Marisa Santos Silva, pontua, por exemplo, que “a perda de um membro parece surgir fortemente associada à diminuição da autoestima”, sendo a percepção da imagem corporal o fator central dessa condição. Contudo, a pesquisadora também afirma que apesar do grande impacto negativo ao psicológico das vítimas dessa ocorrência, “as reações à perda de um membro podem ser minimizadas ao longo do tempo com a elaboração eficaz da perda e a reorganização da sua vivência corporal”.

Diante disso, o Dicas de Mulher, conversou com a ex-bailarina, Adriana Carvalho, de 57 anos, mãe de dois filhos e artesã, que conta quais foram as mudanças em sua vida e os impactos em sua autoestima diante da perda de um membro devido a um trágico acidente em sua juventude.

Infância e início no ballet

Adriana conta que sempre teve uma infância ativa e quando criança realizava diversas tarefas e esportes, o que levou sua mãe a matriculá-la em uma escola de ballet próxima a sua casa, que pertencia a um casal de vizinhos.

Segundo a entrevistada, a paixão pela prática surgiu desde a primeira aula, e seu esforço e desempenho com o passar do tempo eram constantemente elogiados pelos professores, Mourão, Lia e Djalma Brasil, que viam grande potencial em sua performance.

Durante o tempo de prática, Adriana conta que chegou a se apresentar em alguns lugares como o teatro da Eubiose, o clube São Lourenço e no palco de um cinema. “No meu último ano nos apresentamos no clube São Lourenço, com O Lago dos Cisnes”, ela relembra.

Pelo seu desenvolvimento na dança, a ex-bailarina foi convidada a dar início à carreira, recebendo a proposta de ir estudar em outra cidade, contudo, como ela conta: “quando ia me inscrever para estudar no municipal no Rio de Janeiro, sofri um acidente de moto que mudou toda a minha história”.

O acidente e a adaptação a uma nova realidade

Adriana Carvalho / Foto: Ale Monteiro

Sobre o acidente, a entrevistada relata que tudo ocorreu devido a uma colisão quando estava andando de moto com seu namorado. O acidente, que resultou na perda de parte seu membro inferior esquerdo, infelizmente também levou a óbito seu parceiro e um amigo.

Sobre a amputação, Adriana conta que num primeiro momento os pais foram contra e chegaram se recusar a assinar a liberação. Entretanto, ela esclarece que devido ao seu estado de saúde, não havia o que fazer: “ou era isso, ou minha vida estaria em jogo”.

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Foram 40 dias internada, entre realizações de cirurgias e passagem pela UTI. Segundo ela, nesse meio tempo, os médicos que acompanhavam o caso, não permitiram que ela soubesse o que havia ocorrido enquanto ainda estava internada, em prol de sua saúde. Dessa forma, a notícia sobre a amputação foi dada apenas quando seu quadro estava mais estável. “Assim que fui para o quarto, ainda sem saber o que tinha acontecido, e achando que o pior já havia passado o médico me contou sobre a perna. Eu fiquei sem chão, não entendia nada”, conta.

“Eu ainda sentia a perna e, como estava com a bacia quebrada, não podia me mexer, não a via, mas a sentia. Fiquei sem saber como seria dali em diante. O médico explicou tudo, porém, eu continuava perplexa pensado o que seria de mim”, relembra, acrescentando que tudo o que estava programado para o seu futuro pessoal e profissional, tomou um rumo diferente a partir de então.

Para Adriana, a volta para a vida fora do hospital foi um período difícil para assimilar todas as informações e perdas, e sobre a adaptação ela pontua: “era tudo estranho, eu acordava e tentava andar, às vezes esquecia [da amputação] e caía”, o que ocorreu até que conseguisse sua primeira prótese e começasse a fisioterapia para auxiliar em sua mobilidade.

Passado a recuperação, a ex-bailarina narra que retornou para a escola para terminar seus estudos, aprendeu a dirigir, e, como ela mesma pontua, foi viver a vida dentro de suas limitações. Nesse percurso, ela relembra que passou por um problema de saúde em que precisou novamente se afastar dos estudos.

Maternidade e relacionamento

Ao dar início a um novo ano letivo, ela conheceu o ex-marido, com quem teve três filhos. Sobre a primeira gestação, Adriana relembra que precisou fazer uma cesárea com 5 meses devido algumas complicações. “Descobrimos que eu tinha placenta envelhecida. O médico não sabia, achava o feto pequeno, segurou e ele não resistiu”, relata a entrevistada, afirmando que foi uma perda difícil.

A segunda gestação ocorreu em menos de um ano e trouxe ao mundo seu filho Thiago, e seis anos depois, nasceu Rodrigo. Sobre ambos os filhos, Adriana afirma carinhosamente, “eles são meu maior orgulho”.

Já em relação ao seu relacionamento, a entrevistada conta que viveu 25 anos ao lado do parceiro, até que o relacionamento chegou ao fim.

Autoestima em meio aos desafios

Sobre a autoestima diante de uma amputação, a ex-bailarina afirma: “eu sempre fui muito vaidosa, foi difícil ficar sem uma perna”. No entanto, revelou que seu pensamento quando soube da perda do membro foi de que não adiantava se martirizar. “Foquei no meu restabelecimento”, pontua.

“Ser amputado não é fácil, confesso, mas quem foi que disse que a vida é fácil? Não, a vida não é fácil e a vida de um amputado é igual à vida de cada um de nós, só que com um pouco mais de dificuldade, mas que sabemos superar”, ressalta a entrevistada sobre o assunto.

Contudo, há 7 anos, Adriana conta que vivenciou alguns problemas na coluna que a fizeram se desanimar e ir perdendo sua autoestima. “Comecei a usar muletas, pois estava caindo muito com a prótese. O SUS me deu uma nova [prótese], até achei que deixaria as muletas de lado, mas infelizmente não consegui. Veio a pandemia e eu desisti de andar, fiquei sem prótese, desanimei”.

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Foi então que descobriu um concurso da Össur, uma empresa que desenvolve e produz equipamentos ortopédicos, que de acordo com ela, “focava na beleza das mulheres amputadas e presentearia a ganhadora com uma prótese nova e um ensaio fotográfico”.

Adriana relembra que se inscreveu no concurso sem muita esperança, e que se chocou ao receber a ligação do coordenador de marketing da empresa dizendo que ela havia ganhado por unanimidade. A partir disso, ela foi para São Paulo, fez a nova prótese, realizou o ensaio fotográfico e se viu como uma nova mulher, afirmando que esse acontecimento lhe devolveu a vida.

“Eu voltei a andar bem, estou mais confiante e feliz! Voltei a ter vida normal, eu não tinha esperanças de que voltaria a andar normalmente e o concurso me proporcionou uma das maiores alegrias da minha vida […] Minha autoestima foi lá no alto e ainda está. Vi o quanto eu sou linda e o tamanho da mulher que me tornei com tudo isso”, confessa animada.

Adriana, que hoje realiza pinturas aquarelas e faz parte de uma ONG que objetiva auxiliar pessoas que precisam de cadeira de rodas e muletas, além de ajudar na proteção de animais desamparados, conta que deseja se desenvolver ainda mais nas áreas que atua, pois, de acordo com ela, “a vida não para! A vida só para quando não estamos mais aqui”.

E para finalizar, ela deixa uma mensagem: “para cada um que hoje está passando por uma amputação, não desanime nunca. Caiu? Levanta! Não desista nunca! A vida é maravilhosa, a vida é para ser vivida”.

Psicóloga apaixonada por literatura e psicanálise. Acredita que as palavras, escritas ou faladas, têm o poder de transformar.