“Veganismo é sinônimo de sustentabilidade”, pontua médica Monalisa Nunes

Mulher negra e nordestina, a fundadora da clínica Derma Vegan fala sobre veganismo, beleza natural e sua carreira

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Em 23.06.22 às 12:11

Monalisa Nunes

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Em 23.06.22 às 12:11

Os produtos para a pele, cabelo e maquiagem durante muito tempo foram pensados exclusivamente para os consumidores brancos e sem preocupação com o meio ambiente. Entretanto, esse cenário está mudando e há muita discussão sobre sustentabilidade, veganismo, representatividade e inclusão étnico-racial também no setor de beleza.

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O empoderamento feminino está encorajando as mulheres a assumirem a beleza natural e a buscarem por produtos para peles diversas e diferentes tipos de texturas de cabelo. Com isso, a indústria de cosméticos está abraçando a beleza que há na pluralidade criando produtos específicos.

Outra mudança gradual é que marcas famosas estão produzindo cada vez mais produtos sustentáveis pensando no futuro do planeta. Além disso, existem pessoas engajadas com a causa que ajudam a promover o veganismo e a beleza natural.

Um bom exemplo, é a médica vegana Monalisa Nunes, fundadora da Clínica Derman Vegan, especializada em pacientes veganos, vegetarianos e naturalistas. Além do mais, o espaço conta com uma equipe formada por mulheres cisgênero e trans. Em entrevista ao Dicas de Mulher, ela fala sobre a sua história e a relação com o veganismo, sustentabilidade e a beleza natural. Confira!

Dicas de Mulher – Você é uma grande especialista em uma área com poucos profissionais negros e adeptos do veganismo. Conte um pouco sobre a sua trajetória e o que motivou a se tornar uma dermatologista focada em beleza natural e vegana?

Monalisa Nunes – Eu sou baiana, tenho 30 anos, sai da Bahia para fazer faculdade de medicina na UFAL, federal de Alagoas, e lá, durante a faculdade, eu me tornei vegana. Nesse processo de me tornar adepta ao veganismo, eu ainda tinha metade da faculdade para concluir… E a dermatologia foi algo que foi me tocando, fui me apaixonando com o tempo, a medida que os semestres iam passando. Eu percebi que, apesar de ser uma área que eu gostava e me interessava muito, havia muita crueldade animal envolvida, principalmente pelo mundo dos cosméticos. Então eu comecei a questionar essa indústria cosmética, o uso e consumo excessivo de produtos. Na faculdade, eu passei a falar sobre beleza vegana, sobre cuidados com a pele e cabelo vegano. No início, ainda não tinha o natural no meio, minha principal bandeira sempre foi o veganismo, mas com o tempo comecei a ver que, em relação à sustentabilidade, só o veganismo ainda era muito pouco, então comecei a sair do mundo só da beleza vegana e avancei no processo de me especializar também no mundo da beleza natural, que agrega também a questão da sustentabilidade e da saúde.

A Clínica Derma Vegan é especializada em pacientes veganos, vegetarianos e naturalistas. Como foi criar uma clínica humanizada que acolhe esse público?

Foi um processo extremamente natural, já que eu produzia conteúdo voltado para esse tema e esse público desde bem cedo, desde a faculdade. Então, quando terminei a especialização em dermatologia, já foi um caminho natural que eu tratasse e atendesse esse público. Então desde que comecei a atender na prática clínica, era esse público que vinha até mim. O que me deixava muito feliz, porque é com quem me identifico, porque sou a persona do meu trabalho. Eu atendo pessoas muito parecidas comigo, em ideais, em formas de ver a vida, formas de se comportar em relação à sociedade, então foi um processo superprogressivo, mas natural nesse sentido. Vi que era essa minha missão no mundo mesmo. Difundir esse cuidado para pele com respeito ao planeta. Então, meu sonho sempre foi ter uma clínica, um consultório, onde pessoas com ideais semelhantes aos meus se sentissem contempladas, pertencentes. Foi natural que meu consultório fosse especializado nesse público que ainda tem um atendimento, um acolhimento muito deficiente no sistema de saúde.

Como mulher negra e nordestina, quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou para se tornar médica em um área dominada por brancos?

Há ambientes em que a população negra ainda é muito excluída. Não posso falar por todos, mas o meu sentimento era de solidão. Então, por mais que eu tivesse amizades, por mais que eu tivesse relacionamentos saudáveis com as minhas colegas, o sentimento de não ter ninguém que te entenda completamente é um sentimento que causa uma solidão. Eu não tinha ninguém com quem eu pudesse compartilhar minhas dores e que essa pessoa fosse entender realmente, entender na profundidade o que eu sentia. Mas eu tentava não focar tanto nisso, sabe? Foi uma forma de eu me proteger psicologicamente, bloquear um pouco isso, entender que sim, vivemos em um país racista, sim, a dermatologia é ainda uma especialidade muito excludente pros pacientes negros. Então eu foquei que eu estava ali para ser uma das pioneiras nesse sentido, de melhorar esse cenário, foquei que era essa minha missão, o que eu tinha que fazer. Então eu não ficava remoendo muito a parte do sofrimento, para não me enfraquecer. Fiz um combustível daquele sentimento, um potencializador das minhas habilidades, também das minhas ambições, até mesmo da minha forma de estudar. Então, me dava uma garra para estudar mais, para me superar, ser uma boa médica, para ter uma formação excelente, porque eu sabia ser uma das únicas que ia poder ter essa habilidade hoje de tratar esse público.

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Os negros e pardos representam a maioria da população brasileira. Apesar disso, atualmente, ainda há poucos especialistas em pele negra. Por que ainda há poucos especialistas no assunto? Qual a sua opinião?

Sim, ainda há pouquíssimos especialistas em pele negra. E é um motivo bem claro, porque ainda a medicina é uma profissão muito elitizada, predominantemente branca. Não temos muito estudantes de medicina negros, ainda hoje recebo mensagens nas redes sociais de negros que querem seguir por esse caminho e se inspiram em mim, mas ainda enfrentam vários obstáculos. Mesmo com o sistema de cotas, e mesmo em faculdades públicas no nordeste, por exemplo, os estudantes negros ainda são minoria. Foi o caso da minha formação. Estudei em uma cidade nordestina sendo a única negra da turma.

É perceptível que ainda faltam muitas informações sobre a pele negra, cabelo crespo e cacheado. Você acredita que o racismo ainda é muito presente na medicina ou isso está mudando?

O racismo é muito presente em todos os âmbitos da vida, da sociedade, está enraizado. Na medicina não é diferente. Tem muito menos estudos e referências bibliográficas, no meio acadêmico. Muito menos tratamentos. Os atlas de dermatologia praticamente só citam pele negra em doenças que são mais típicas da pele negra mesmo, a gente tem muita dificuldade até mesmo quando buscamos mais estudos sobre. Desde a faculdade, dificuldade de estudar sem o paciente, estudar pela literatura tratamentos e doenças em pele negra. É bastante falho, excludente. Mas, por outro lado, isso tem mudado. Hoje eu vejo nos congressos, em alguns novos artigos, já um pouco mais de pesquisas, tenho visto uma necessidade maior de cuidar da pele negra com equivalência ao que já existe de cuidados com a pele branca.

Para você, qual a importância de ter profissionais que preguem o veganismo e a beleza natural?

Em um mundo em que a sustentabilidade é algo vigente, e urgente, falar sobre o veganismo, propagar o veganismo, é por um bem maior. Pelo bem do planeta. Incentivar que as pessoas tenham uma vida mais alinhada com o planeta. Veganismo é sinônimo de sustentabilidade. Não tem como desassociar o cuidado com o planeta, as ações sustentáveis, do veganismo. Então como isso é uma bandeira muito forte para mim, é extremamente importante que outros profissionais aprendam também a tratar dos pacientes veganos, a falar mais sobre o veganismo, a acolher essas pessoas e incentivar que, mesmo quando não-veganos no âmbito alimentar, as pessoas podem usar produtos livres de crueldade animal, sem matéria-prima de origem animal, sem testes em animais. Produtos que não poluam o planeta, indo além na questão da beleza natural. Produtos que não causem mal algum, nem ao meio ambiente, nem ao próprio paciente, ao próprio usuário, por meio de ativos nocivos que a indústria insiste em colocar nas fórmulas dos produtos por serem mais baratos. Então essa é uma questão que vejo como urgente.

Como incentivar as pessoas sobre o consumo consciente e a usarem produtos que não impactam no meio ambiente?

Não tem uma maneira, uma forma única de incentivar as pessoas sobre consumo consciente. Cada pessoa que tem isso como pauta importante na vida, acha a sua linguagem própria para propagar isso. A minha forma sempre foi por meio de uma abordagem muito carinhosa, acolhedora, humanizada. Então, ao invés de excluir a pessoa que não está com o mesmo comportamento ou pensamento que eu, ao invés de apontá-la como errada ou fora de um movimento do bem, eu prefiro ir me aproximando, mostrando, informando de formas bem leves, fáceis e práticas, como incluir ações sustentáveis no seu dia a dia. Minha forma de fazer isso é por meio da beleza, desse mundo de wellness, o autocuidado, a saúde preventiva, tudo está interligado para mim, sabe? Então mostrar que você não precisa aderir 100% da noite pro dia o veganismo, para ter práticas alinhadas a ele no seu dia a dia. Trocar aquele batom que testa em animal e tem plástico na composição, por um batom que faz bem tanto para você quanto pro planeta. Hoje temos no mercado maquiagens nessa linha da beleza natural, desenvolvidas de forma que já cuidam também. Então, são essas as informações que eu busco passar adiante, sabe. Ensinar mesmo. Na alimentação, informar como incluir um pouco mais de produtos, alimentos de origem vegetal, que vão ser bons para sua saúde, pro seu corpo e também pro planeta. Mostrar para as pessoas que cada ação importa, cada ação faz diferença. É através da informação que a gente vai contagiando, propagando e aos poucos mudando essa indústria. É uma corrente. Que leva cada vez mais pessoas a se alinharem a esses comportamentos mais conscientes, ecologicamente responsáveis.

Além de médica e empreendedora vegana, você também é produtora de conteúdo digital. Qual foi o principal objetivo para criar um canal no YouTube?

Fui produzindo conteúdo desde a faculdade, tenho quase 10 anos de produção de conteúdo para internet. E nesse tempo, as minhas motivações e objetivos foram mudando. Lá no início, comecei a produzir conteúdo para falar sobre questões raciais, sobre aceitação do cabelo crespo, sobre beleza voltada às pessoas pretas. Mas os objetivos principais foram mudando com o tempo. Hoje eu ainda falo sobre beleza preta, aceitação, cabelo crespo, empoderamento, enquanto mulher negra nesse mundo racista. Mas hoje meu objetivo principal é difundir o veganismo, a sustentabilidade, e a beleza natural. Na verdade, é uma forma da minha mensagem, da minha missão ser propagada, levada ao máximo de pessoas possível por meio das redes sociais. E eu tenho essa aptidão natural a ensinar, é um prazer, eu gosto muito de lecionar, acredito que um dia vou até ser professora. Ensinar de pouquinho em pouquinho, compartilhar o conhecimento que fui adquirindo com o tempo, de forma bem simples para todas as pessoas, é um modo de expressar que eu amo. Adoro fazer, adoro produzir conteúdo. Foi algo natural para mim, produzir conteúdo para internet, me apaixonar por isso e ir avançando ao longo dos anos, somando minhas fases, maturidade, estudos, evolução.

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Você é uma mulher engajada com causas feministas e incentiva a beleza natural, qual a mensagem que você passa para as mulheres valorizarem a própria beleza sem seguir os padrões?

Uma coisa que para mim é uma grande verdade e um objetivo que tenho de passar às mulheres é dizer que a beleza, a forma como você se veste, como você se cuida, como você se mostra de um ponto de vista estético, exterior para o mundo, é uma forma de expressão. Nada mais bonito do que se expressar, se vestir, se cuidar, cuidar do seu corpo de um forma que esteja alinhada a você mesma, às suas questões, crenças, escolhas, gostos. Minha missão é passar às mulheres o quão empoderadora é a beleza, a forma como a gente se vê e se mostra pro mundo. O autocuidado, a estética e a autoestima não são fatores fúteis, estão completamente ligados à saúde, ao bem-estar e ao empoderamento. Os padrões estéticos machucam, limitam e causam traumas, muitas vezes irreversíveis na vida das mulheres. Lutar contra esses padrões, fazer com que esses padrões deixem de serem tidos como padrões, é com o objetivo de fazer um bem para todas. Faz bem para toda a sociedade.