Por que é problemática a censura à famosa ‘instapoeta’ Rupi Kaur?

Pesquisadora e professora explica que temas como violência sexual, presente na obra da poeta, precisam ser abordados nas escolas como forma de prevenção

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Atualizado em 22.06.22

Rupi Kaur

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Em 05.06.22 às 14:30

A ‘instapoeta’ Rupi Kaur, de 29 anos, fala de forma franca sobre temas como traumas e violências. Sua franqueza já lhe rendeu cerca de 4,5 milhões de seguidores no Instagram. Seus poemas de cunho feminista servem como acolhimento e inspiração para mulheres de diversas idades no enfrentamento de adversidades.

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No entanto, ela também enfrenta tentativas de censura dentro e fora das redes.
Grupos de vários estados norte-americanos estão tentando buscando proibir o livro ‘Leite e mel’ da poeta em escolas e bibliotecas.

Essa obra, conhecida no Brasil como ‘Outros jeitos de usar a boca’, traz uma série de poemas com temas diversos que vão desde o amor até a violência sexual, focando no abuso infantil e na cura desse trauma.

A tentativa de censura seria motivada pelo fato da obra “explorar a agressão sexual e a violência sofridas por uma jovem”, conta a pesquisadora Fernanda Barroso, especialista na obra da poeta.

Em entrevista à AFP, a escritora Rupi Kaur comentou que essas tentativas de proibição partem seu coração e que ela encara esse comportamento como uma forma de negar encarar “a agressão sexual e a violência sofrida por uma mulher jovem”.

Mas essa não foi a primeira vez que a escritora foi alvo de tentativas de censura. A pesquisadora Fernanda Barroso recorda que “um episódio de censura foi responsável por colocar Rupi no centro das atenções da mídia internacional no começo do ano de 2015”.

Isso ocorreu devido uma foto postada pela poeta no Instagram, mas que foi retirada do ar pela rede social. A imagem, também criticada por leitores brasileiros, mostrava uma mancha de menstruação em sua calça e no colchão onde estava deitada.

Diante dessa censura, Rupi Kaur refez o compartilhamento. Explicou que o registro faz parte de um projeto do curso de retórica visual da Universidade de Waterloo, no Canadá. Além disso, comentou que seu trabalho é feito para criticar práticas como essa.

Esses comportamentos mostram que a repressão e a censura continuam a existir na nossa sociedade. “Porém, acredito que, de alguma forma estranha, essas mesmas práticas evidenciam que o trabalho de Rupi está no caminho certo: está incomodando, está fazendo pensar e está engajando. Como ela mesma apontou, esse é o seu objetivo ao escrever e se colocar diante do mundo”, explica Barroso.

A importância de discutir assuntos como estupro e relacionamentos na escola

A pesquisadora Fernanda Barroso também é professora e destaca a importância de falar dos assuntos abordados por Rupi Kaur nas escolas. Como forma de propor reflexão e meio de explicação, ela propõe que é preciso “estabelecer um paralelo entre a abordagem de temas como esses nas escolas e a vacinação”, por exemplo.

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Barroso descreve que quando não é possível erradicar todas as doenças, optamos pela vacinação, se possível. Assim, ela explica que “essa é uma medida de prevenção que tem o intuito de dar as “informações” necessárias para o nosso corpo para que ele possa lidar com uma possível realidade de doenças”. Seguindo essa mesma lógica, aponta “podemos colocar, no lugar das doenças, as violências; no lugar da vacinação, a educação” como medida preventiva.

Desse modo, ela elucida que falar sobre o assunto é importante para que o conhecimento chegue às pessoas, devendo ser compreendido como uma medida de prevenção, enquanto “não falar sobre um assunto não o elimina da realidade, apenas contribui para deixar as pessoas menos preparadas e mais suscetíveis a sofrer”.

Além disso, destaca que “o conhecimento é responsável por fornecer a essas meninas noções básicas imprescindíveis desde quais comportamentos são aceitáveis ou não”, para que não sofram violências.