“Mulheres autistas sequer são cogitadas no feminismo”, defende professora Ariane Fabreti

Em uma sociedade neurotípica, as mulheres autistas enfrentam a exclusão até mesmo no movimento feminista, relata Ariane Fabreti

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Atualizado em 27.04.22

Ariane Fabreti / Arquivo Pessoal

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Em 07.04.22 às 11:11

Ser mulher e neurodivergente é um desafio a mais enfrentado na luta feminina. O sujeito não neurotípico, ou seja, que possui o cérebro organizado de maneira diferente, encara um mundo que não o acolhe. Debater questões como o feminismo e neurodiversidade mostra-se essencial para abrir espaço para a diversidade florescer e distintas maneiras de ser.

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Diante disso, neste Mês de Conscientização do Autismo, o Dicas de Mulher conversou com Ariane Fabreti, 38 anos, mulher no espectro autista e, portanto, neurodivergente. Para além do diagnóstico, ela é professora e revisora de textos. Formada em Publicidade e em Letras, tem mestrado em Literatura e nos revelou que a leitura é uma de suas paixões, assim como tirar fotografias, assistir filmes e séries. Utiliza o humor como saída para muitas situações. Confira!

Dicas de Mulher – Antes do diagnóstico, como foi se entender no mundo e buscar por algum tratamento?

Ariane Fabreti – Foi bastante difícil, pois, desde criança, tinha a consciência de que era diferente das pessoas da minha idade, sentimento que se agravou na adolescência, o que me levou a uma crise depressiva aos 15 anos. A minha família, mais especificamente, a minha mãe, sempre buscou respostas a algumas das minhas dificuldades, como a socialização fora das regras, por exemplo. Eu socializava, mas me cansava, rapidamente, então, me isolava, preferia ficar sozinha. Tinha muita dificuldade em cumprimentar pessoas e falar ao telefone, por exemplo. Sempre falei muito, sou bastante verbal, porém levava (e ainda levo, muitas vezes) as conversas para qualquer rumo, sem saber se estou sendo adequada ou não, sou meio sem filtro.

Como foi o processo de receber o diagnóstico do transtorno do espectro autista? Quantos anos você tinha?

Recebi o diagnóstico aos 18 anos, em São Paulo, mas a busca pelo meu diagnóstico começou aos 12 ou 13 anos. Já na infância, eu fazia terapia, porém não encontravam respostas claras para as minhas dificuldades, se falava pouquíssimo sobre autismo, então, recebi uma série de diagnósticos errados, inclusive de esquizofrenia. Os meus pais começaram a procurar psiquiatras em outras cidades, o que nem sempre era fácil, porque o plano de saúde, frequentemente, não cobria os gastos. Finalmente, fui diagnosticada em São Paulo por um profissional excelente, o Dr. Francisco Assumpção, que é especializado em autismo (não sabíamos disso na época, apenas que ele era psiquiatra de crianças e adolescentes).

Como foi pra você o processo de autoaceitação do diagnóstico?

Apesar de ter o diagnóstico há tempos, nem sempre o aceitei. A sociedade também não ajudava muito neste quesito. Ao falar de autismo, muita gente pensa que ele é como retratado nos filmes, por exemplo, daí, sou invalidada, questionada. Portanto, precisei mascarar, me esconder, como tática de sobrevivência.

Sendo mulher e tendo o diagnóstico do transtorno do espectro autista, você se vê representada nos movimentos sociais e feministas?

Esta é uma questão delicada, porque só recentemente descobriram que o espectro autista se manifesta de forma diferente nos homens e nas mulheres. Há pouco tempo, se acreditava que o autismo era mais frequente no sexo masculino, mas vários estudos perceberam que os estudos sobre autismo se basearam nas características masculinas, pois os sintomas são marcantes entre os meninos e os homens, enquanto as meninas e as mulheres costumam mascarar, com mais facilidade, os sintomas. A pressão social sobre as mulheres, desde a infância, faz com que elas tenham a tendência de imitar os outros, para serem, socialmente, aceitas. Então, se isso tudo está sendo discutido só agora, imagine se é discutido nos movimentos sociais e feministas? Muitas vezes, as mulheres autistas sequer são cogitadas. Se considerarmos as mulheres autistas da periferia, por exemplo, a questão se complica muito mais, afinal, elas, muitas vezes, nem são diagnosticadas.

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No âmbito profissional, você encontra algum desafio diariamente? Como é a sua relação com as pessoas do seu círculo de trabalho?

Hoje, consegui um trabalho que me deixa bastante confortável, que é trabalhar, diretamente, com o texto, com algo mais introspectivo, mas nem sempre foi assim. Não consegui trabalhar muito tempo com Publicidade por causa da demanda social. Até consigo lidar com pessoas, lecionei por um bom tempo, só que ficava muito desgastada com as expectativas sociais. Gosto muito dos meus colegas de trabalho, alguns sabem sobre o meu diagnóstico e me respeitam, o home office exige menos em termos sociais, o que me ajuda. Os meus maiores desafios são as mudanças, por exemplo, a troca de funcionários. Tenho dificuldade em ter de conhecer a pessoa, me adaptar a ela, memorizar o seu rosto (este problema com distinção de rostos é comum no autismo).

A vivência de mulheres como Ariane Fabreti deve ser ecoada e relembrada. Conheça também a história de outra personalidade potente, a Sara Araújo, mulher negra, sommelière de cervejas e ativista dos direitos humanos e sociais.

Assuntos: Entrevistas