Mais de 2.300 pessoas se tornaram órfãs de vítimas de feminicídio no Brasil, em 2021

Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Público revela que 97,8% das vítimas foram mortas por um companheiro atual, antigo ou parente

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Em 22.04.22 às 14:27

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Em 22.04.22 às 14:27

Os irmãos Gabriel e Igor perderam a mãe, Regiane, em janeiro de 2020. O crime aconteceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, e o acusado pelo assassinato é o ex-namorado, Suetônio. Em entrevista recente ao Fantástico, Igor comentou: “Você nunca vai ser a mesma pessoa depois do acontecido […] Às vezes você próprio não reconhece você mesmo”.

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Ele também conta que ficou sabendo da morte da sua mãe por meio da sua namorada, no entanto, o relacionamento também foi afetado pela morte de Regiane, já que ambas eram próximas e ficou difícil seguir com a relação adiante depois do crime.

Em 2016, a Folha de S. Paulo publicou a história das crianças Alice e Lucas, que na época tinham 6 e 4 anos e presenciaram a mãe de 23 anos ser assassinada. A mãe foi espancada, esfaqueada e asfixiada com um travesseiro pelo marido, Diego Pacheco, que deixou o corpo da esposa no quarto dos filhos embrulhados em um lençol. Esses são casos recorrentes de crianças que são obrigadas a conviver com a falta da mãe devido a crimes de feminicídio.

Pesquisa produzida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Público (FBSP) revela que mulheres de diferentes raças e idade são alvo de crimes de violência de gênero. Segundo a pesquisa, em 2021, o Brasil perdeu mais de 1.300 mulheres por crimes de violência de gênero.

Dados revelam que 97,8% das vítimas foram mortas por um companheiro atual, antigo ou outro parente. 66,7% são mulheres negras. E mais de 70% das mulheres mortas tinham entre 18 e 44 anos. Dessa forma, a partir da taxa de fecundidade do país, estima-se que o feminicídio deixou aproximadamente 2.300 órfãos no Brasil, em 2021. A diretora-executiva do FBSP acrescenta que esse número pode ser ainda maior já que algumas investigações ainda estão em andamento.

Há acompanhamento para esses órfãos?

No Brasil, algumas políticas de combate à violência contra mulher tem avançado nos últimos anos. Medidas protetivas, leis como a Maria da Penha e canais de denúncia são uma forma de auxiliar e socorrer as vítimas. No entanto, no caso dos órfãos, são poucos os acompanhamentos das crianças e jovens. Quem faz esses atendimentos são os centros de referência da mulher em situação de violência.

Em dezembro de 2021, o governo federal instituiu o Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, que tem entre seus objetivos garantir assistência integral aos órfãos decorrente do crime.

Em Recife, o estado sancionou a última PL que estipula uma bolsa de R$606,00 para órfãos do feminicídio. No Amazonas, por sua vez, famílias que se responsabilizam pelos órfãos recebem atendimento social, psicológico e jurídico da Defensoria do Estado.

Na Câmara dos Deputados existem 11 projetos de lei com propostas para oferecer assistência focada em órfãs e feminicídio. Contudo, ainda há um longo caminho a ser percorrido para de fato cuidar desses órfãos.