Gaslighting médico: mulheres têm maior probabilidade de ter sintomas ignorados

Estudos apontam que mulheres, sobretudo não brancas, têm duas vezes mais chances de serem diagnosticadas com doença mental.

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Atualizado em 19.04.22

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Em 11.04.22 às 16:34

Jenneh Rishe, 35 anos, relata ao The New Yorker Times sobre um momento que precisou de ajuda médica e teve seus sintomas menosprezados. Após ser diagnosticada com dois problemas cardíacos congênitos, médicos disseram que eles não afetariam suas atividades cotidianas. Isso até ela começar a sentir fortes dores no peito e ter de usar cadeiras de rodas depois de desmaiar diversas vezes. Quando procurou por outro atendimento, descobriu que suas artérias estavam tendo espasmos por falta de oxigênio e que estava sofrendo de mini-infartos. Dois meses depois, fez uma cirurgia que salvou a sua vida.

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Também há o caso da médica pediatra Márcia Gondim, 66 anos, apresentado pela Revista Veja. Ao acordar pálida, suando e sentindo os ombros pesados, preferiu não ir ao médico, pois sabia que os mesmos sintomas seriam tratados pelos médicos como DNV (piripaque, no jargão médico). No entanto, acabou descobrindo que não estava tendo um DNV, e sim um infarto.

Casos em que mulheres têm os seus sintomas e relatos menosprezados dentro do consultório médico são chamados de gaslighting médico. O termo é usado para a deslegitimação dos relatos da vítima, em que seu posicionamento é visto como loucura ou exagero. Os casos costumam acontecer principalmente entre mulheres e não brancas.

O gaslighting é, ainda, uma forma de abuso psicológico que atinge principalmente as mulheres. Anular e não dar crédito ao que dizem, pode gerar traumas psicológicos e causar sequelas físicas quando a doença não é tratada de forma correta.

Demora no diagnóstico

A pesquisadora Karen Lutfey Spencer, que estuda a tomada de decisões médicas na Universidade do Colorado em Denver, aponta que as mulheres têm duas vezes mais chances de serem diagnosticadas com doença mental quando seus sintomas são compatíveis com doença cardíaca. Além disso, frequentemente, médicos atribuem problemas de saúde da mulher a problemas de saúde mental, excesso de peso ou falta de cuidados.

“Sabemos que as mulheres, especialmente as não brancas, muitas vezes são diagnosticadas e tratadas pelos médicos de modo diferente que os homens, mesmo quando têm as mesmas condições de saúde”, relata a estudiosa em entrevista ao The New York Times.

Seus estudos mostram que as mulheres também levam mais tempo para serem diagnosticadas com câncer e doenças cardíacas. Além de terem menor probabilidade de receber medicação contra a dor.

No caso de mulheres negras, o atendimento costuma ter menor qualidade quando atendidas por médicos brancos que também descrevem-nas como pacientes reticentes, ou seja, indecisos e pouco confiáveis, o que afeta e prejudica na hora de descrever o tratamento.

O que fazer para reduzir o risco de abuso?

A gravidade do problema é maior quando as mulheres têm dificuldade para identificar esse tipo de abuso e preferem recusar socorro do que passar por situações constrangedoras.

Para evitar e diminuir as chances desse tipo de agressão, procure anotar os seus sintomas. Em seguida, é importante conhecer o histórico de saúde da sua família, pois isso pode afetar seu estado.

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No ato da consulta, apresente em detalhes as informações sobre sintomas e histórico. Caso necessário, questione o profissional se ele/ela insistir que os sintomas são resultados de estresse e/ou de origem psicológica. Além disso, levar um acompanhante para as consultas médicas também pode diminuir as chances de abuso.

Se após o atendimento você considerar que foi vítima e seu problema não foi resolvido, procure outro profissional até que seu caso seja esclarecido. Outro ato importante é fazer uma queixa contra o profissional nos conselhos regionais de medicina.