Sociedade

“Mulher não deve ser virgem de ideias”, dizia Antonieta de Barros, primeira mulher negra eleita no Brasil

Antonieta de Barros / Dicas de Mulher

Professora, jornalista e escritora, Antonieta de Barros foi eleita em 1934 como deputada estadual por Santa Catarina

Em 25.07.22

Antonieta de Barros, a primeira mulher negra a ser eleita no Brasil, está prestes a entrar para o ‘Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria’, da Câmara dos Deputados. Defensora do poder revolucionário e libertador do acesso à educação para todos, Barros tem grande relevância histórica, no entanto sua jornada ainda é pouco conhecida.

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As três primeiras mulheres eleitas

Entre as três primeiras mulheres eleitas no Brasil, está Antonieta de Barros, a única negra entre elas. Ela foi eleita deputada estadual por Santa Catarina no ano de 1934 – mesmo ano da eleição de Carlota Pereira de Queirós, por São Paulo.

A primeira mulher eleita havia sido Alzira Soriano, 7 anos antes. Ela se tornou prefeita de um pequeno município do Rio Grande do Norte, que foi o primeiro estado brasileiro a permitir que mulheres disputassem eleições.

Quem foi Antonieta de Barros?

Nascida em 1901 e falecida em 1952, aos 50 anos, em Florianópolis (Santa Catarina), Antonieta de Barros veio de uma família pobre, ficou órfã de pai ainda criança e foi criada pela mãe, que era lavadeira.

Desde a infância, conviveu com preconceitos por causa de sua cor, gênero e classe social. Enfrentou os desafios e se tornou professora. Em 1922, fundou o Curso Particular Antonieta de Barros, destinado a alfabetizar adultos carentes, e o dirigiu até o ano em que veio a falecer.

No ano em que fundou a escola, o analfabetismo em Santa Catarina era de 65% – ainda que fosse um dos estados com melhores índices de escolaridade do país na época. Nesse cenário, Antonieta acreditava no poder da educação como arma capaz de libertar os menos favorecidos.

Antonieta de Barros foi considerada uma das maiores educadoras de seu tempo e, por essa capacidade, também lecionou em escolas voltadas para a elite da época. E não parou por aí: também se tornou escritora, jornalista e representante política. Era a única mulher a escrever e publicar crônicas na imprensa catarinense e criou a revista Vida Ilhoa.

Foi preciso coragem para que fizesse tudo isso, em uma época em que as mulheres não eram encorajadas a expressarem suas ideias. Mas as críticas machistas e de opositores não a pararam. Ela dizia que mulheres não deveriam ser ‘virgens de ideias’, escrevendo sobre a condição da mulher na sociedade, na educação e na política.

Além disso, ainda foi responsável por elaborar dois capítulos da Constituição catarinense, mas foi destituída do cargo pelo golpe de Getúlio Vargas. Publicou o livro Farrapos de Ideias, em 1937, assinado com seu pseudônimo Maria da Ilha. Os lucros da primeira edição foram doados para a construção de uma escola com propósito de abrigar crianças filhas de leprosários internados.

Importância política

Eleita menos de 500 anos após a abolição da escravatura no Brasil, Barros carregou a bandeira política do poder revolucionário da educação, tornando-se pioneira e inspiração para o movimento negro.

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Foi ela quem fez o projeto de lei que deu origem ao Dia do Professor, até então comemorado apenas de maneira informal. A lei oficializava a data e a tornava feriado escolar (Lei Nº 145, de 12 de outubro de 1948) no estado de Santa Catarina. Apenas 20 anos depois, o feriado passou a ser oficial em todo o país, com a sanção do presidente João Goulart.

Além disso, fez outras leis importantes que concediam bolsas de cursos superiores e cursos de magistério para alunos carentes, de forma a aumentar o alcance do ensino público.

Antonieta de Barros sofreu um apagamento de sua história, que vem sendo relembrada nos últimos anos. Com uma grande influência, pode ser considerada como um símbolo do feminismo brasileiro, com o mesmo peso que Frida Kahlo possui na história.

É importante relembrar a luta, a coragem e as bandeiras defendidas por Antonieta, em uma época em que a sociedade conservadora estava contra ela.

Luta que ainda continua: depois de Antonieta de Barros, apenas outras 15 mulheres ocuparam a mesma posição que ela na Assembleia de Santa Catarina, e nenhuma delas era negra. Outro deputado negro só veio a ocupar o cargo pelo estado em 2012: Sandro Silva, do Partido Popular Socialista (PPS), que foi convocado como suplente.

Nesse sentido, é importante destacar que o Brasil tem 11 milhões de analfabetos, o que corresponde a 6,6% da população do país, de acordo com dados divulgados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) sobre Educação. Conforme a mesma pesquisa, essa taxa ainda é expressivamente maior entre a população brasileira que se declara preta ou parda.

Jornalista e produtora de conteúdo. Fã de cultura POP com interesse em Estudos Culturais, tentando acumular o maior número possível de hobbies nas horas vagas.