Liderança feminina sob a ótica da razão

Saiba como as mudanças culturais ajudaram as mulheres a lidar com o desafio de assumir vários papéis ao mesmo tempo

Escrito por Monica Hauck

Não gosto de movimentos sexistas, não acredito em igualdade (segundo o senso comum de igualdade) e não gosto de leis ou atos que favoreçam gêneros no mercado de trabalho. Não me sinto confortável em comemorar o dia das mulheres, porque penso que sou injusta com os homens por não retribuir a gentileza. Acho que vivemos um processo dinâmico onde cada um ocupa seu próprio lugar; e no mundo há lugar para todos.

Pensemos em três variáveis evolutivas sobre essa questão:

Primeiro: Um dos motivos para que o homem ainda se destaque no mercado de trabalho é que, historicamente as mulheres entraram no cenário há pouco tempo. Na medida em que o tempo passa, creio que a importância de distinção de gêneros tende a diminuir.

Façamos a conta: Há quanto tempo os homens saíram de seus lares e foram ao “mercado” buscar a “provisão”? Desde quando foram treinados para isso? – Desde os primórdios quando saíam à caça para trazer o alimento.

E as mulheres? Elas cuidavam da colheita e do espaço familiar e doméstico. Resultado: Há milhares de anos os homens são culturalmente programados para o mercado de trabalho e historicamente este é um advento novo para a mulher.

Embora pontualmente as mulheres sempre tenham contribuído para o sustento familiar (vide Revolução industrial quando saíam com as crianças para o trabalho e em culturas onde a tradição designa funções específicas para ela), efetivamente e de maneira global esse é um advento muito recente.

Falando de Brasil, não temos nem 100 anos de preparação feminina para o mercado. Portanto, com o passar dos anos essa presença, inclusive em cargos de liderança, tende a atingir estatísticas mais igualitárias.

Segunda variável: A mudança cultural está acontecendo tanto no papel feminino quanto no masculino. O homem não é mais apenas o provedor material assim como a mulher não é apenas provedora de afeto e presença na vida dos filhos e da família. Assim como as mulheres, os homens privilegiam novos valores.

É cada dia mais comum homens levarem seus filhos ao médico enquanto suas mulheres estão em reuniões de trabalho. Nesta nova dinâmica, os papéis domésticos e de provisão material são divididos e reinventados o tempo inteiro.

Essa geração entende que tanto o pai quanto a mãe devem comparecer às reuniões escolares, ao pediatra ou o que for necessário. De certa forma, essa mudança cultural alivia a dupla jornada da mulher e proporciona uma maior dedicação ao trabalho, o que consequentemente aumenta suas chances de ascensão profissional.

A concepção masculina de paternidade também mudou. As meninas são criadas tendo a liberdade de jogar futebol, bem como os meninos de brincar de casinha. Os homens cada vez mais querem estar com seus filhos e isto auxilia as mulheres com suas carreiras.

Finalmente a sociedade está introjetando alguns fatos óbvios: Homem também tem uma vida familiar, filhos precisam da presença masculina em suas vidas e reunião de pais termina com s no plural (e vejam bem, esse evento não se chama reunião de mães), o que elimina a falsa sensação de que apenas a mulher pode ter como ponto limitador da carreira o fato de ter família e filhos; simplesmente porque os homens também os têm!

Terceira variável: Ainda que as mulheres gastem mais tempo com sua “carreira doméstica e familiar” (inclusive no papel biológico da concepção), e que 80% das empresas avaliem este item na hora de contratar, a tecnologia ajuda a suprir a necessidades da mulher de conciliar sua carreira profissional com suas aspirações familiares.

É inegável que a maioria das mulheres engravidam, tem filhos e constituem família. Mas com a tecnologia disponível hoje, cada vez mais se torna possível que a mulher exerça a liderança mesmo estando fisicamente distante da empresa. Aliás, o bom líder é aquele que cria uma equipe que consegue produzir sem a sua presença.

Além disso, notebooks, smartphones e outras tecnologias criam uma nova dinâmica em que as pessoas levam o trabalho para seus lares e quando necessário, inserem sua vida pessoal no horário comercial sem causar prejuízos para a empresa e para a carreira.

Sou executiva, mãe, esposa, irmã, filha, esportista, vizinha, amiga e assim como você (seja homem ou mulher) assumo vários papéis. Sei que não é uma jornada fácil, mas essa foi a escolha que fiz. Toda liderança requer renúncia, assim como toda escolha.

Eu sabia que teria obstáculos, mas me preparo a cada dia para eliminá-los (prefiro eliminar à transpor, caso eu tenha que percorrer o caminho de volta). E acredito num futuro onde o mérito e os perfis de liderança sejam discutidos com maior relevância, sem ignorar que homens e mulheres são realidades do mundo corporativo seja em qual posição for e com seus neurônios, emoções, testosteronas ou estrogênios têm muito a contribuir para o futuro da gestão no mundo.

No próximo artigo pensaremos a liderança feminina sob a ótica da emoção, numa perspectiva existencialista. E não se esqueça de comparar os dois artigos para que juntas (os) criemos a identidade da nossa coluna. Até a próxima!

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