Escritoras recriam foto histórica em nome da representatividade da mulher na literatura

Evento reuniu mais de 400 escritoras em São Paulo e ocorreu também em diversas cidades do país

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Atualizado em 22.06.22

Giovana Madalosso | Reprodução / Mariana Vieira Elek

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Em 15.06.22 às 16:58

O mercado literário já foi um local exclusivamente masculino, tanto que para divulgar seus trabalhos muitas mulheres adotavam pseudônimos neutros e se passavam por homens. Com o tempo, isso mudou, e escritoras contemporâneas já têm espaço para publicar e vender seus livros. Além da opção de publicar de forma independente, lidando como todo o processo sozinha, por meio da Amazon ou outras plataformas, existem também as editoras voltadas exclusivamente para as publicações feitas por mulheres.

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Os eventos literários também deram abertura para apresentar escritoras que já tinham livros prontos, mas ainda faltava a coragem para se publicar e divulgar. Muito além da Bienal do Livro de São Paulo, são os pequenos encontros, organizados muitas vezes pelo Instagram e outras redes sociais, que ganham espaço.

Um bom exemplo disso foi a Feira do Livro de São Paulo que aconteceu entre 8 e 12 de junho e reuniu escritoras, no último dia do evento, no Pacaembu, para recriar uma foto histórica. Inclusive essa ação não se restringiu a São Paulo e a foto foi tirada em outras regiões brasileiras, mostrando a enorme quantidade de mulheres escritoras que vivem no país.

A inspiração dessa ideia foi ‘Um Grande Dia no Harlem’, de Art Kane. Em 1958, jazzistas se reuniram em um bairro de Nova Iorque e tomaram até as escadas das casas. O clique foi feito e a foto chamou a atenção. Veja a seguir:

Giovana Madalosso | Reprodução / Armando Prado

No Brasil, o objetivo era mostrar a quantidade de escritoras vivas existentes e, só em São Paulo, mais de 400 autoras participaram do clique. Ainda assim, mais de 20 cidades embarcaram na ideia. Em Vitória, compareceram 60 escritoras e em Curitiba, mais de 100. Dentre as outras cidades participantes, estavam também Londrina, Recife, Rio de Janeiro, São José do Rio Preto e Santa Isabel.

A responsabilidade de organizar a foto na capital paulista, chamada ‘Um Grande Dia em São Paulo’, ficou com as escritoras Natália Timerman, Paula Carvalho e Giovana Madalosso, e foi um grande marco para a representatividade feminina na literatura.

Relatos de quem esteve presente na foto histórica

Em conversa com o Dicas de Mulher, a escritora e uma das organizadoras Giovana Madalosso comenta sobre o evento: “não imaginei que a adesão seria tão grande. Existem mais mulheres escrevendo no Brasil e no mundo do que imaginamos. Apesar de vivermos numa sociedade desigual, apesar de cuidarem mais dos filhos e das tarefas domésticas, elas estão escrevendo. Tudo o que precisam é de espaço e visibilidade. A iniciativa das fotos foi um sucesso porque soltou esse grito coletivo preso na garganta”.

Ana Costa, autora de ‘Volta, se houver motivo para voltar’ e ‘Razão para ser louca’, relata que “a primeira edição da Feira do Livro em São Paulo foi um marco para a cultura e a arte brasileira. A participação das mulheres escritoras foi um grande passo para a valorização e visibilidade da escrita feminina. Eu amei. Foi histórico e emocionante”.

Suzana dos Anjos Pereira, autora independente dos títulos ‘Uma receita para minha sorte’ e ‘(Quase) tudo que uma fã quer’ ficou sabendo do evento no noticiário. “Achei a ideia muito bacana e tive vontade de participar. Foi uma experiência interessante ver um grupo reunido por algo em comum que é a escrita. Eu sou uma autora independente e senti como uma homenagem não só para as mulheres que estavam lá, mas para todas que fazem parte desse nosso universo dos livros”, conta.

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Carla Guerson, escritora capixaba, autora de ‘O som do tapa’, também esteve presente. Ela falou que já estava programando ir para São Paulo, para a Feira do Livro, ao ver a convocação da autora Giovana Madalosso. “Eu não tinha ideia do quanto especial seria. A foto estava programada para ser feita na escadaria Patrícia Galvão, que fica na lateral do estádio. Mas logo que chegamos, percebemos que não caberia: éramos muitas e lotamos rapidamente a lateral da feira, entre conversas, abraços, fotos e trocas de livros”, relata.

Ela também cita os cartazes segurados pelas autoras presentes: “manifestações políticas e dizeres de luta com relação à falta de reconhecimento das escritoras. ‘O primeiro romance do Brasil foi escrito por uma mulher negra’, nos lembrava o cartaz confeccionado pelo coletivo Flores de Baobá”.

Guerson ainda comenta sobre a tentativa de uma breve manifestação política. No entanto, as autoras foram alertadas sobre a impossibilidade de continuar, devido ao local no qual estavam. E finaliza dizendo que, apesar disso, “o brilho do evento se manteve pelo registro de tantas de nós (mesmo que não todas, certamente), em um momento que a literatura produzida por mulheres se impõe, sem pedir licença”.