Por que é importante termos mais mães na política brasileira?

Coletivo 'Política é a mãe' mostra que ter mães nas políticas públicas é essencial para pautas que contemplem infâncias e maternidades diversas

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Atualizado em 09.06.22

CANVA

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Em 08.06.22 às 14:21

A participação de mães na política é uma forma de abrir espaço para temáticas que antes não estavam presentes nas pautas de políticas públicas. O trabalho da maternagem, vínculo de acolhimento e cuidado durante o crescimento da criança, traz uma perspectiva diferente levantando pautas relacionadas à infância e aos cuidados com as crianças.

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A pesquisadora sobre maternidade política, doutoranda em Estudos Feministas, Renata Senlle, chama atenção para o fato de que “Esse olhar de acolher as crianças no ambiente público é um olhar que a gente tem muito pouco”. No entanto, as mães como “As principais responsáveis por criar e educar as gerações futuras” possuem uma visão mais ampla das temáticas relativas às maternidades e às infâncias.

Dessa forma, a estudiosa destaca que o trabalho de ser mãe já é em si um trabalho político e “Levar isso para o ambiente político partidário, para as instâncias institucionais, dá uma visibilidade para esse trabalho político, que as mães já realizam – o trabalho reprodutivo-, e pode catalizar para políticas públicas que beneficiem toda a sociedade”.

Coletivo ‘Política é a Mãe’

Responsáveis pelo ‘Politica é a mãe’ / Arquivo pessoal

Renata Senlle faz parte do coletivo ‘Política é a Mãe’, que é voltado para a conscientização política da importância da presença de mães na política. Explica que a voz de mães importam, “Movem o mundo cuidando das crianças que vão ser aí as futuras gerações, que vão ser a futura força de trabalho para esse sistema capitalista que a gente vive”.

O coletivo surgiu durante as eleições de 2018 “A partir de um um grupo de mulheres mães que estava trabalhando por uma das candidatas, daquela eleição em questão, e a gente entendeu que a pauta da maternidade precisava ser mais fortalecida dentro das eleições”, recorda.

Hoje, o Política é a Mãe é formado por cinco integrantes e desenvolve ações mais com foco em informar e conscientizar por meio da comunicação as pessoas sobre o trabalho reprodutivo, dando visibilidade a como esse trabalho é o que mantém a sociedade funcionando.

Senlle chama atenção para a importância de “Conscientizar que o trabalho que as mães fazem, no dia a dia, é um trabalho extremamente político. É um trabalho de fato de criar e educar as gerações que vão vir pela frente”.

Assim, o coletivo busca fazer com que esses assuntos cheguem às esferas das políticas públicas, para que seja possível “Trazer informações sobre políticas públicas que valorizem as maternidades e as infâncias e aí de fato conseguir ampliar esse debate até chegar nessas esferas institucionais da política”.

Machismo e a participação de mães na política

A participação de mães na política ainda é baixa, e mesmo a representatividade de mulheres no geral. Mesmo que as mulheres sejam metade da população, Senlle chama atenção para o fato de que em 2019 “as mulheres representavam um pouco mais de 12% dos cargos políticos”, de acordo com os dados do Mapa da Política.

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Explica ainda que essa é uma das formas pelas quais o machismo se manifesta, uma vez que a mulher “acaba sendo muito sobrecarregada por esse trabalho de cuidado, mesmo quando tem um trabalho remunerado, que inviabiliza ter uma participação política, seja como cidadã, mas também como candidata”.

Relegar esse trabalho de cuidado, que é desvalorizado pela sociedade, para as mulheres, sem remuneração, consiste em uma construção social realizada por uma sociedade machista e patriarcal, que entende que os cargos de relevância são considerados trabalhos de homem.

Apesar desses empecilhos para a participação de mães na política, Senlle aponta que entre 2018 e 2020 “Aumentou bem o número de candidatas que o ‘Política é mãe’ conseguiu mapear, as quais tinham isso muito vocalizado no seus sites, nos seus posts, na internet, que se colocavam enquanto mulheres, mães, algumas até feministas. Pontua ainda “todas tinham um compromisso com uma pauta mais progressista”.

De acordo com levantamento feito pelo coletivo, em todo país foram registradas 40 mães candidatas em 2020, que possuíam uma agenda progressista, pró-maternidades e infâncias e laica. Desse total, 33 eram candidatas ao cargo de vereadora e 7 ao de prefeita.

Senlle defende que “Não basta só ter mulheres e mulheres mães na política, se não com um pensamento feminista, um pensamento progressista de compromisso com justiça social”, uma vez que é indispensável para a melhoria das políticas públicas pensar de forma a abarcar toda a diversidade de vivências presente na sociedade.

Sobrecarga materna

Somar esse trabalho político de conscientização à rotina das integrantes do grupo nem sempre é uma tarefa fácil. Senlle explica que “a gente acaba, às vezes, até sofrendo do que a gente também tenta conscientizar, que é a sobrecarga materna”.

Por causa disso, ela ressalta que o coletivo não consegue sempre atuar nas redes com a constância que gostaria e com o que o tema demanda. Para superar esses obstáculos, o grupo está, inclusive, revendo seu plano de atuação para conseguir colocar pautas importantes em debate.

Essa é uma tentativa de não desperdiçar o potencial de comunicação presente nas redes sociais. Destaca que, apesar de todas as suas problemáticas, as redes ainda têm “Potencial de diálogo e de conscientização a respeito de mães na política, de trabalho reprodutivo de direitos, de políticas relacionadas à maternidade de infâncias”.

Sindicato para mães e cuidadoras

Uma das pautas que fazem parte da luta do ‘Política é a Mãe’ é a demanda de um sindicato para mães e cuidadoras, uma das demandas do movimento feminista já há algumas décadas.

Essa pauta dá visibilidade ao “trabalho de nutrir, de vestir, de educar, de construir afeto, de formar cidadãos”, explica Renata Senlle. Um trabalho muito conectado ao amor no senso comum, mas que sobrecarrega as mulheres e é essencial para a manutenção da sociedade.

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A pesquisadora chama atenção para o fato de que esse é um assunto muito difícil por sua conexão com o amor materno, mas a ideia do sindicato é que “As mulheres que trabalham com reprodução social a vida inteira e criaram cidadãos têm que ter direitos mínimos de dignidade”.

Nesse sentido, cita que “a gente teve na Argentina agora o reconhecimento desse trabalho, que trouxe a política de trazer uma aposentadoria pelo trabalho de cuidado, entendendo que essas mulheres contribuíram para a sociedade cuidando de pessoas”.

Além disso, é importante destacar que esse trabalho não deve ser concentrado apenas em mulheres. Senlle chama atenção para a necessidade de desgenerificar o trabalho de cuidado.

A desvalorização do trabalho de cuidado

Renata Senlle recorda que o movimento feminista branco, especialmente nos Estados Unidos, desde a década de sessenta “Estimulou muito as mulheres a irem pro mercado de trabalho como uma forma de emancipação”. Essa compreensão do trabalho remunerado desconsiderou o trabalho de cuidar e formar cidadãos e o trabalho doméstico como formas de trabalho a serem valorizadas.

Para a pesquisadora, essa situação impactou principalmente as mulheres mais pobres, as mulheres negras “porque são essas mulheres que acabam fazendo o trabalho de reprodução social, trabalho doméstico das mulheres brancas que podem sair para empregos melhores e serem melhores remunerados”.

Com isso, ela chama atenção para a pluralidade de maternidades, uma vez que “a maternidade de uma mulher classe média branca não é a mesma maternidade de uma mulher pobre, de periferia, negra, não é a mesma do que a de uma mulher trans”.

Assim, ao pensar no sistema é indispensável apresentar um olhar interseccional, que leve em consideração a pluralidade de existências na sociedade para pensar políticas públicas.

O ‘Política é a Mãe’ é formado majoritariamente por mulheres brancas de classe média “a gente tem essa consciência e a gente traz esse faz essa essa pontuação desse nosso lugar”, esclarece a integrante do coletivo.

As demandas e pautas defendidas pelo coletivo reconhecem esses privilégios das participantes do grupo e buscam sempre levar em consideração essas diversas existências, as quais precisam de mais atenção porque “sofrem muito mais opressões diariamente”, finaliza Snelle.