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Glossário feminista: a listinha de termos que todo mundo precisa saber

Dicas de Mulher

Escritora

Atualizado em 04.08.23
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Se você usa internet e redes sociais regularmente, há grandes chances de já ter esbarrado com algum dos conceitos clássicos do feminismo – além de outros mais contemporâneos, incorporados a esse vocabulário mais tarde. Mas você sabe o que cada um deles significa? Neste glossário feminista, você vai entender mais sobre alguns termos para conseguir participar efetivamente do debate.

O que é um glossário feminista?

glossário feminista

Nossa língua é viva. Ela se expande e adapta conforme a evolução da sociedade, bem como as novas invenções e as novas reflexões que fazemos em torno de assuntos já conhecidos. Assim, criam-se outros termos para ampliar e especificar melhor os mais variados assuntos, e com o feminismo não é diferente. Mas, para acompanhar um tema e falar com propriedade sobre ele, é importante se apropriar do vocabulário que já foi construído em torno dele. Assim, é possível se expressar de forma mais clara e completa.

É para isso que serve o glossário. Glossário é uma lista de palavras importantes dentro de um tema, acompanhadas de suas definições. Com ele, é possível conhecer melhor certos conceitos e entender como eles se conectam.

Agora que você já sabe o que vai encontrar aqui, segue o seu glossário feminista!

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Termos que você precisa saber para entender os debates feministas

Para você participar do debate sobre equidade de direitos, conseguir refletir sobre as diferenças que ainda existem entre homens e mulheres na nossa sociedade e se proteger de estratégias de controle e dominação reproduzidas muitas vezes até sem que se perceba, aqui estão 15 conceitos importantes e bastante contemporâneos para você conhecer.

1. Machismo

glossário feminista

Termo fundamental para começar este glossário feminista, o machismo é, de forma bem rasa, um preconceito que valoriza os homens em detrimento das mulheres. De acordo com Mary Pimentel Drumont, professora assistente do Departamento de Ciências Sociais e Filosofia do Instituto de Letras, Ciências Sociais e Educação da UNESP – Araraquara, “o machismo é definido como um sistema de representações simbólicas, que mistifica as relações de exploração, de dominação, de sujeição entre o homem e a mulher”, ou seja, ele faz parecer “natural” um sistema de exploração baseado no sexo biológico com o qual as pessoas nascem.

Esse sistema se manifesta na forma de um preconceito que se opõe à igualdade de direitos entre os gêneros e favorece o gênero masculino em detrimento do feminino. Nesse sentido, a mulher é vista como “inferior” de várias formas, como, por exemplo, física, psicológica e intelectualmente. Por ser um pensamento cultural, ele se manifesta nas mais diversas instituições da sociedade, como a família, religião, mídia, artes, etc.

Micromachismo

Esse termo define alguns comportamentos que, de tão incorporados ao nosso cotidiano, às vezes passam despercebidos. Um exemplo é quando o garçom entrega a bebida mais forte para o homem quando estão um homem e uma mulher numa mesa, sem perguntar quem pediu o quê. Ou então, quando “naturalmente” a mulher assume as tarefas domésticas, enquanto o homem se dispõe apenas a “ajudar”, como se a mulher tivesse uma aptidão natural para a arrumação da casa e isso não fosse também uma responsabilidade masculina.

Nessa mesma direção, é muito mais comum que se aceite desordem na casa de um homem que mora sozinho do que na casa de uma mulher na mesma condição. No caso dela, é desleixo, no caso dele é normal.

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Vale ressaltar que dizer que o termo “micro” não diminui o peso de tais comportamentos – o micro aqui apenas indica que ele não é tão facilmente identificável quanto outras manifestações do machismo aos quais as mulheres são submetidas todos os dias, como a violência física e psicológica, o estupro, entre outras.

2. Patriarcalismo

Segundo o professor Thomas Bonnici, em seu livro Teoria e Crítica Literária Feminista, “o patriarcalismo é definido como o controle e a repressão da mulher pela sociedade masculina e parece constituir a forma histórica mais importante da divisão e opressão social”.

De forma literal, a palavra patriarcado remete à autoridade do homem através da figura do pai, refletindo um modelo de família específico que se teve por muitos anos como o ideal e que era dominado pelos homens. Os “homens da família” estabeleciam as regras, enquanto mulheres, crianças, trabalhadores domésticos e escravos obedeciam.

3. Misoginia

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Outra palavra fundamental em um glossário feminista, misoginia se origina do grego, vindo da junção de μισέω (miseó, “ódio”) e γυνὴ (gyné, “mulher”). Assim, o termo significa, literalmente “ódio à mulher”. Entretanto, quando se fala de misoginia, não necessariamente se trata de um ódio direto à mulher. A misoginia se revela mais frequentemente como um aspecto estrutural da sociedade, algo muito atrelado ao machismo e ao patriarcalismo e que gera diversos tipos de animosidade contra a mulher, sejam eles grandes ou pequenos.

A violência contra a mulher é consequência de uma misoginia incorporada na sociedade, assim como a objetivação, os micromachismos, etc. Curiosamente, até a homofobia, especialmente aquela contra homossexuais homens que sejam “afeminados” também tem diálogo com a misoginia, conforme explica Felipe Adaid, no artigo Homofobia e misoginia na modernidade: genealogia da violência. O homossexual afeminado é odiado por uma certa aproximação do que se vê como a manifestação daquilo que é compreendido como feminino na sociedade.

4. Objetificação

A objetificação acontece sempre que uma pessoa é reduzida, por algum motivo, à condição de objeto. No caso da objetificação feminina, a mulher é desconsiderada enquanto ser humano completo e plural, e tomada apenas por seu corpo físico e atributos sexuais. Além disso, vista um “objeto”, a mulher pode muito facilmente ser vista também como posse.

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Nesse sentido, durante muito tempo a mídia publicitária se “apossou” do corpo feminino com o objetivo de vender os mais variados produtos, desde bebidas a carros, passando por cigarros e mesmo audiência em programas de televisão. Além disso, muitos homens, ao abordarem uma mulher que seja compromissada com um homem, pedem desculpas ao homem – subliminarmente entendido como o “dono” da mulher, em vez de pedir desculpas à mulher.

5. Feminicídio

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O feminicídio é um homicídio praticado contra uma mulher – e centrado nessa especificidade. Ou seja, no feminicídio, a mulher é morta por ser mulher.

Nesse tipo de crime, a mulher frequentemente é vítima de algum homem com quem ela teve algum tipo de relação, seja afetiva, seja de parentesco. Em outras situações, ela pode ser morta justamente por não querer ter uma relação afetiva com determinado homem, que, ao objetificá-la, acredita-se no direito de tirar a vida de uma mulher por ela não fazer o que ele quer

De acordo com uma pesquisa publicada em 2019 pelo jornal Estadão, feita a partir boletins de ocorrência da Secretaria de Segurança Pública (SSP), uma mulher é vítima de feminicídio a cada 60 horas só no estado de São Paulo. A pena de reclusão para esse crime é de 20 a 30 anos de reclusão, mas, mesmo assim, o Brasil ainda está na 5ª posição entre os países com as maiores taxas de feminicídio.

6. Cultura do estupro

Segundo a pesquisadora Rita Segato, estupro não é sobre desejo sexual. É sobre poder. E essa imposição de poder sobre os corpos (principalmente) femininos tem relação direta com outros termos deste glossário – machismo, patriarcalismo, objetificação.

O termo “cultura do estupro”, apesar de antigo, tem se popularizado a partir do entendimento de que o estupro, ou o que leva um homem a cometê-lo, não pode ser considerado como algo “natural” – visto que “cultura” pressupõe algo criado pela sociedade, portanto, algo passível de ser mudado.

Segundo publicação de 2022 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, se dividirmos a quantidade de estupros ocorridos em 2021 pelos dias e horas do ano, o resultado seria equivalente a dizer que uma mulher foi estuprada a cada 10 minutos no país.

Em 2016, por exemplo, uma adolescente foi estuprada por 33 homens no Rio de Janeiro. Crianças e adolescentes são estupradas, inclusive por pessoas que deveriam defendê-las. Ao falar de um estupro, usam-se frequentemente frases que tentam culpabilizar a vítima, como “ela estava bêbada” ou “ela usava roupas curtas”. Tudo isso faz parte da cultura do estupro e precisa ser combatido e modificado como um aspecto cultural da nossa sociedade que precisa ser superado.

7. Slutshaming

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Esse termo vem do inglês e é composto pela palavra “slut” (“vadia”, “vagabunda”) e “shame” (“vergonha”). Ele é usado para identificar um tipo específico de discriminação contra meninas e mulheres que tenham algum comportamento considerado promíscuo a partir do que é imposto pelo machismo como sendo o comportamento ideal para a mulher. Esse preconceito pode vir de homens e mulheres (porque mulheres também podem ser machistas) e geralmente critica roupas curtas ou decotadas, um comportamento mais livre em relação à própria sexualidade, etc.

O slutshaming está atrelado também à cultura do estupro, e se revela em frases como as mencionadas acima: “ela estava bêbada” ou “ela usava roupas curtas”.

8. Gaslighting

O gaslighting não poderia faltar neste glossário feminista. Muito grave, por ser sutil, ele é uma forma de manipulação psicológica, quando a vítima é levada a acreditar que está errada ou louca, mesmo com evidências apontando que ela está certa. Isso pode acontecer entre as mais diversas pessoas, mas frequentemente acontece entre casais – e, na maioria das vezes vindo do homem para a mulher.

Por essa manipulação ser geralmente realizada por alguém em quem a vítima confia e por quem nutre afeto, é difícil de perceber, e frequentemente a pessoa precisa de ajuda psicológica para se libertar.

9. Mansplaining

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Mansplaining também tem origem na língua inglesa e une “man” e “explain”, ou seja, “homem” e “explicar”. Trata-se de uma prática em que um homem implicitamente subestima a inteligência de uma mulher, tentando explicar algo a ela que ele pressupõe que ela não entenda.

Os temas que um homem se julga mais conhecedor e capaz de explicar são os mais variados, mas frequentemente esbarram nos chamados “temas mais masculinos”, como carros, esportes, jogos, tecnologia e ciências, os quais muitos homens se julgam mais profundamente conhecedores do que qualquer mulher.

Uma versão dessa prática é o questionamento do conhecimento da mulher quando ela manifesta gostar de um assunto, por exemplo, quando uma mulher usa uma camiseta de uma banda X e um homem começa a questioná-la sobre os álbuns dessa banda ou qualquer tipo de conhecimento relacionado, como uma espécie de “teste” ou “validação” do conhecimento da mulher sobre aquele assunto.

10. Manterrupting

Essa prática consiste na frequente interrupção da fala de uma mulher por um homem, de modo que ela não consiga concluir seu raciocínio e se desestabilize. O manterrupting aparece frequentemente atrelado ao mansplaining, já que em muitos casos o homem interrompe a mulher por acreditar ser capaz de falar melhor sobre um determinado assunto do que ela.

O manterrupting é muito comum no mundo acadêmico, na política e na esfera profissional – não sendo, porém, exclusivo desses ambientes.

11. Bropriating

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Esse termo surgiu inicialmente como Bropropriating, unindo a gíria “bro”, de “brother” e a palavra “apropriating” (“apropriação”). O termo se refere a situações, geralmente profissionais ou artísticas, em que homens tomam para si os créditos de ideias expressadas por mulheres ou objetos artísticos produzidos por elas.

É comum que essa ação venha ligada ao manterrupting e mansplaining, quando um homem interrompe uma mulher em sua fala e, refraseando o que ela disse, com variação do tom de voz ou nova escolha de palavras, assuma a ideia para si. O bropriating pode acontecer também sem interrupção, quando uma mulher expõe uma ideia, que não é aceita, mas depois, refraseada por um homem, passa a ser aceita pelos pares (em geral, também homens).

12. Manspreading

Mais um termo tomado da língua inglesa, o manspreading une a palavra “man” (“homem”) e a palavra “spread” (“espalhar” ou “esparramar”). Esse termo se refere a uma das maiores queixas das mulheres em transportes públicos: o hábito de os homens abrirem as pernas quando estão sentados, ocupando parte do espaço do assento vizinho com essa ação.

13. Sororidade

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O termo vem do latim “soror”, que significa “irmã”, e significa a união entre as mulheres. Apesar de parecer algo simples, na verdade, esse conceito tem uma importância gigantesca, uma vez que se opõe à cultura de competitividade entre mulheres estimulada pelo machismo de modo a enfraquecer as mulheres enquanto coletividade.

Assim, a sororidade é uma aliança entre as mulheres baseada em confiança, reconhecimento mútuo, apoio e empatia. Além disso, também está ligada à tentativa de enfrentar os obstáculos impostos pelo machismo e o patriarcado às mulheres pela via da união. Assim, a sororidade defende que as mulheres podem conquistar muito mais a partir do apoio mútuo em vez do julgamento e rivalidade. É justamente por isso que esse termo não pode faltar neste glossário feminista.

Empoderamento

Apesar de a palavra já ter sido cooptada pelo mercado e incorporada em milhares de campanhas publicitárias que esvaziaram um pouco seu sentido, o empoderamento se mantém importante por tirar das mulheres o papel de fragilidade imposto por séculos pelo patriarcalismo. Assim, o termo se relaciona à tomada de poder que o conhecimento e a luta feminista possibilita a todas as mulheres. Depois de empoderadas, as mulheres não se deixam inferiorizar por diferenças de gênero e se impõem constantemente contra o machismo.

14. Teste de Bechdel

Figura importante deste glossário feminista, esse teste deve seu nome à roteirista e quadrinista Alison Bechdel, que o incluiu na obra Dykes to Watch Out For (“Sapatas a observar”). Em uma tirinha chamada The Rule, de 1985, e presente nessa obra, uma mulher diz a outra que só assistirá filmes que cumpram três requisitos:

  1. Tenham no mínimo duas personagens mulheres;
  2. Essas duas personagens precisam conversar entre elas em algum momento do filme;
  3. Quando isso ocorrer, elas não podem estar falando sobre um homem.

Curiosamente, muitos filmes não passavam (alguns ainda não passam) nessa regra, revelando a proeminência do discurso masculino e mostrando que, em muitos filmes, as personagens femininas só existem como escada do protagonista homem. Apesar de aparecer na tirinha como uma forma de avaliar filmes, esse método pode ser aplicado em outros produtos artístico-culturais, como livros, séries, HQs, etc.

15. Interseccionalidade

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O último termo do nosso glossário feminista ainda não é tão popular, mas vem ganhando força. Trata-se de uma palavra usada para definir a intenção de pensar o feminismo em conjunto com outras questões sociais importantes, como o movimento LGBTQIA+ e a luta antirracista, ou pensá-lo levando em consideração outras dificuldades específicas que as mulheres podem ter na sociedade e que adicionam uma camada a mais de preconceito, como a desigualdade social, a gordofobia, o etarismo ou o capacitismo.

É importante entender que mulher não é um conceito uniforme: há diversos elementos se interseccionando e atuando em torno da existência de cada mulher, e é importante levar isso em consideração para que todas as individualidades sejam respeitadas e possam ter vidas dignas.

Apesar de nosso glossário feminista ser longo, ele certamente não cobre tudo o que é importante saber sobre o feminismo para atuar cada vez melhor na sociedade. Então, que tal se aprofundar um pouco mais lendo alguns livros feministas que possam mudar a sua forma de pensar o mundo?

Escritora, autora de "A mulher que ri", "Efêmeras" e "Do Silêncio". Apaixonada por Clarice Lispector, clubes de leitura e pessoas. Gosta de listar coisas de três em três. Escrevo a newsletter Versilibrista.