Sociedade

Entenda o que é machismo e como isso afeta as mulheres na sociedade

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Atualizado em 14.07.22

O machismo é uma forma de preconceito que perpassa diretamente a vivência de toda mulher. A professora de sociologia, que compõe o Néias Laboratório de Feminicídios, a Rede Feminista de Saúde e a Casa das 13 Mulheres, Meire Moreno, explica de forma didática como ele está presente na nossa sociedade e como combatê-lo.

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O que é o machismo?

Moreno informa que o machismo pode ser definido como um “preconceito, que pode ser expresso em comportamentos, ações e opiniões, negando a igualdade entre mulheres e homens e reforçando as desigualdades de gênero”. Ela detalha que “tal preconceito é baseado na ideia de que mulheres e homens são naturalmente diferentes, na qual o gênero masculino é valorizado em detrimento do feminino”.

Essa ideia machista, presente na sociedade, de que as mulheres são naturalmente inferiores, frágeis e delicadas, foi colocada muitas vezes como uma questão biológica e defendida por pensadores como Aristóteles, no entanto, não são verdadeiras.

A professora destaca estereótipos que são criados pelo machismo sobre as mulheres, colocando-as como “naturalmente sensíveis, fracas e destinadas às tarefas do cuidado. Ou seja, atribui-se às mulheres as atividades ligadas à chamada esfera privada e, ao contrário, diz-se que os homens seriam naturalmente racionais, fortes e aptos para participar da vida pública da sociedade”.

A filósofa e escritora Simone de Beauvoir concluiu que essas ideias são criadas socialmente e utilizadas para subjugar a mulher. Assim, via-se as mulheres como mais frágeis e propensas a tarefas domésticas pois isso era ensinado a elas, como forma de manter os homens em seu papel dominante.

Simone escreveu o livro “O Segundo Sexo”, publicado em 1949 e que continua atual ao explicar as opressões de gênero sofridas pelas mulheres. Sua frase “Não se nasce mulher, se torna mulher”, faz referência a essa situação e é uma das citações mais lembradas quando se fala sobre a construção social da mulher.

Essa diferenciação está presente também na forma como a sociedade se refere ao mundo, pois é comum que a humanidade utilize a palavra “homem” para incluir o todo. Sobre isso, a filósofa escreveu “ele é o Sujeito, é o Absoluto: ela é a Alteridade”, explicando a percepção dos gêneros na sociedade, ideia a partir da qual tirou o nome do seu livro.

As causas do machismo

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Quando se fala das causas do machismo, a professora explica que é difícil afirmar que existe uma origem ou uma causa para essa forma de opressão. Nesse sentido, ela detalha que “a ideia preconceituosa que percebe as mulheres como inferiores aos homens, o machismo, é reflexo de construções históricas, sociais e culturais”.

Com isso, essa forma de preconceito “colabora para que as mulheres fiquem em desvantagens em diversos campos da vida social, tal como a participação na vida econômica e na vida política”.

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Apesar dos avanços na luta antimachista, Moreno destaca que ele segue muito presente na sociedade. Nesse sentido, ela chama atenção para o fato de que “a sociedade patriarcal, ou seja, a forma de organização social baseada na subordinação das mulheres em relação aos homens, é muito antiga”.

Ela explica como essa formação social, ainda muito presente na sociedade “baseia-se na ideia de um único modelo familiar (composto por homem, mulher e prole) e divisão das tarefas entre homens e mulheres que colaboram para a criar e reforçar estereótipos de gênero. Isso significa que as expectativas sociais sobre os atributos e comportamentos que mulheres e homens devem expressar anulam todas as possibilidades de expressão das feminilidades e masculinidades que não estejam de acordo com o modelo”.

Mas, afinal, mulheres podem ser machistas?

Um questionamento comum a respeito desse assunto é se mulheres podem ser machistas. A professora esclarece que é difícil afirmar que a parte oprimida tenha atitudes machistas, pois as mulheres não são beneficiadas por esses estereótipos.

No entanto, ela ressalta que “as mulheres reproduzem e colaboram para a perpetuação do machismo”, isso porque reproduzem comportamentos e preconceitos que existem na sociedade e que são ensinados para elas desde a infância.

O machismo é estrutural?

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As ideias do machismo são presentes de forma estrutural na nossa sociedade, “uma vez que tais ideias estruturam as diferentes organizações sociais, definindo expectativas em relação aos comportamentos de homens e mulheres, bem como limitando suas ações”.

Nesse sentido, ela exemplifica que a estruturação econômica continua sendo ligada à divisão sexual do trabalho “e isso reflete na vida das mulheres que acabam, por exemplo, ocupando posições de menor prestígio e recebendo menores salários”.

Esse preconceito também se faz presente na organização da política, pois “não à toa, percebemos a precária participação e representação das mulheres nos espaços de decisões”, destaca a professora. Gerando, ainda, nesses ambientes, a violência política de gênero.

Mesmo em espaços que têm por objetivo colaborar com as lutas feministas, o machismo estrutural continua presente, o que colabora com a reprodução de lógicas machistas que “dificultam a organização e autonomia das mulheres em suas ações e decisões”.

Moreno ainda ressalta a importância de lembrar “que o machismo se intersecciona com vários outros marcadores sociais de diferença e desigualdade, tais como o racismo, o capacitismo, o capitalismo, entre vários outros”. Com isso, algumas mulheres acabam sofrendo mais violências e opressões, ao somar o machismo com outras formas de preconceitos presentes na sociedade.

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Consequências do machismo

Quanto às consequências do machismo para as mulheres, Moreno lista uma série de formas como ele afeta o cotidiano, que incluem a desvalorização da mulher no âmbito social, por causa da “ideia errônea de que somos incapazes, a percepção de que as tarefas domésticas e do cuidado devem ser executadas somente pelas mulheres e não divididas”.

Até sua desvalorização no mercado de trabalho, com “a múltipla jornada de trabalho, as posições menos prestigiosas na vida econômica, os menores salários”. De acordo com estudo feito pelo IBGE, as mulheres ganhavam, em média, 20% a menos do que os homens, em 2018, reforçando como o machismo tem consequências práticas que afetam a vida econômica das mulheres.

As consequências do machismo incluem, ainda, situações de violência direta, como “a violência doméstica, a violência política de gênero, a violência psicológica, patrimonial, sexual, física, entre outras tantas, cuja expressão máxima é o feminicídio”.

Além de serem vítimas dessas formas de violência, o machismo se expressa na culpabilização das vítimas, mulheres, em casos como esses. De acordo com o Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS), de 2014, 58% dos entrevistados ainda concordavam totalmente ou parcialmente que “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros” – o que reflete a cultura do estupro, intensamente conectada com o machismo.

Essa foi a última edição realizada pela pesquisa realizada pelo IPEA, uma pesquisa domiciliar com objetivo de compreender a percepção das famílias brasileiras sobre as políticas públicas que são implementadas pelo Estado, independentemente de serem ou não beneficiários dos programas e ações governamentais.

O estudo ainda apontou a persistência da visão de uma família nuclear patriarcal, entre as famílias brasileiras, mostrando, mesmo que a situação possa ter melhorado nos últimos anos, que estereótipos parte de uma cultura machista continuam presentes na sociedade.

O machismo X feminismo

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Na luta contra o machismo, a professora destaca ser “difícil esperar que homens se movimentem para pôr fim às ideias e práticas que os colocam na posição de privilégios”. Assim, o feminismo aparece como uma força importante para combater essa forma de preconceito, sobre o qual ela ressalta ser “preciso que as mulheres assumam o protagonismo das lutas pela igualdade de gênero e para construção de sua autonomia”.

Nesse sentido, ela explica que as lutas feministas denunciam as consequências do machismo tanto para as mulheres quanto para a sociedade em geral, ao criar estereótipos tóxicos de masculinidade. Para além de agir como denunciador dessas práticas, o feminismo procura encontrar formas de colocar fim a essas opressões.

Na contramão, quem busca a manutenção do machismo, pode argumentar falsamente que o feminismo se trata de uma forma de “machismo reverso”. Sobre isso, a professora explica que “o feminismo não é o reverso do machismo, pois não procura inverter a lógica das opressões”.

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Ela detalha: “Nós, feministas, não lutamos para que as mulheres sejam superiores aos homens. Trata-se de uma luta pelo reconhecimento das diferenças e construção da igualdade ou equidade entre homens e mulheres”.

Machismo x sexismo x misoginia

Machismo, sexismo e misoginia são três conceitos que estão relacionados quando se trata de violência contra mulheres. O sexismo se refere à discriminação ou preconceito baseado no gênero ou no sexo. Logo, o machismo é uma forma de sexismo.

Enquanto isso, “a misoginia é o ódio, a aversão e o desprezo contra as mulheres e se manifesta nas diferentes violências de gênero”, explica a professora. A aversão ao feminino presente na misoginia pode ser expressa por quem carrega esse sentimento, através do machismo e de outras formas de violência de gênero. Sendo, então, o machismo uma manifestação prática da misoginia.

É importante destacar que não só o sexismo e a misoginia, mas todo tipo de violência e preconceito contra a mulher, possui o machismo como base. Isso significa que as formas de opressão podem se expressar de formas diferentes, mas elas partem sempre do mesmo princípio.

Como desconstruir o machismo no seu dia a dia

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Evitar e descontruir o machismo não é uma tarefa que será realizada de um dia para o outro. Esse preconceito está enraizado na sociedade e, por isso, precisa de mais do que ações individuais que podem ser feitas no âmbito pessoal. Dessa forma, veja 5 dicas para combater o machismo no seu dia a dia:

  • Denunciar o machismo: é importante denunciar casos de machismo para não deixar que esses comportamentos continuem naturalizados e se perpetuem na sociedade. É apenas dessa forma que a sociedade vai entender que há punição para esse tipo de comportamento.
  • Evitar vocabulários e expressões machistas: muitas vezes frases machistas estão tão presentes no vocabulário e até mesmo as mulheres podem repeti-las sem pensar. Expressões como “já pode se casar”, para uma mulher que cozinhou um prato gostoso, é um exemplo. Ao ouvir uma declaração de cunho machista que perpetua estereótipos, busque explicar por que é errado utilizar essa expressão. Não repetir essas expressões é uma forma de combater a naturalização do machismo.
  • Desconstruir estereótipos de gênero: contribuir para que as pessoas possam escolher o que querem ser e fazer, independentemente de estereótipos de gênero que foram construídos culturalmente, é outra forma de combate ao machismo. Deixar que as crianças escolham livremente brincadeiras, cores, roupas, sem colocar valor de gênero sobre as coisas, é uma forma de colocar isso em prática.
  • Investir em políticas educacionais: para um problema desse tamanho, ações pessoais não bastam. O combate ao machismo deve ser feito, também, na esfera pública. Para isso, a professora explica que “é preciso investir em políticas educacionais com transversalidade de gênero, raça e classe, incluindo as vivências e perspectivas das mulheres, para superar a lógica masculina da sociedade machista e patriarcal”.
  • Apoiar mulheres que procuram ocupar espaços de poder para combater o machismo na sociedade, Moreno explica que é “necessário apoiar as mulheres feministas que procuram ocupar os espaços de poder e influenciá-los em favor de nossas pautas e demandas por uma sociedade livre no sexismo, do machismo, da misoginia, do racismo, da exploração capitalista, do capacitismo, do etarismo e de todas as formas de opressão e exploração”.

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Jornalista e produtora de conteúdo. Fã de cultura POP com interesse em Estudos Culturais, tentando acumular o maior número possível de hobbies nas horas vagas.