Teste de Bechdel: dos quadrinhos para um assunto sério

Escrito por                    
Atualizado em 22.06.22

Envato

Por
Atualizado em 22.06.22

Por muito tempo, as mulheres foram estereotipadas em obras de ficção. O Teste de Bechdel foi a primeira ferramenta a questionar a falta de representatividade feminina e a discutir a participação de mulheres na cultura. Continue a leitura para conhecer a origem, a criadora e outras informações sobre o teste.

Publicidade

O que é o teste de Bechdel

O Teste de Bechdel é um sistema que utiliza três regras básicas para avaliar a participação feminina em obras de ficção. Ele nasceu de uma conversa simples entre duas amigas, mas possui grande importância para a representatividade do público feminino. As regras são:

  • A obra de ficção precisa ter pelo menos uma cena com duas mulheres;
  • Essas mulheres precisam conversar entre si;
  • O assunto da conversa não pode ser um homem.

Em um contexto de indústria cultural, o teste coloca em pauta a importância dos filmes, livros e séries com protagonistas mulheres.

Origem do teste de Bechdel

The Rule

O teste surgiu a partir da tirinha “The Rule” (A Regra), da cartunista Alison Bechdel, publicada em 1985. Na tirinha, uma personagem feminina diz que só assiste filmes se eles se encaixarem nas três já citadas regras.

Com uma afiada ironia, Alison critica as produções hollywoodianas que propagam esteriótipos e clichês por meio da representação da mulher. Em 2013, a diretora sueca de uma sala de cinema, Ellen Tejle, começou a marcar os filmes que passavam nas regras de Bechdel. Assim, o teste viralizou na internet e se espalhou pelo mundo.

Quem é Alison Bechdel

Alison Bechdel é uma famosa cartunista americana que nasceu na Pensilvânia em 1960. Apesar de ter ficado muito famosa por criar a tirinha que deu origem ao teste de Bechdel, Alison não se considera a dona original da ideia. “Confesso que roubei tudo isso de uma amiga minha na época porque não tinha ideia para a minha tira”. Contou ela ao NPR em 2015.

“Minha amiga Liz Wallace disse: ‘Só vou ver um filme se tiver pelo menos duas mulheres que conversem entre si sobre algo além de um homem’. Com isso, restaram poucos filmes para ver em 1985. O único filme que minha amiga pôde ver foi Alien, porque há duas mulheres que conversam entre si sobre o monstro”. Para Alison, o teste de Bechdel deveria se chamar Teste de Bechdel-Wallace, com os devidos créditos para a sua amiga.

Publicidade

Limitações do teste de Bechdel

O teste questiona se existe a participação feminina não estereotipada nas produções artísticas. Entretanto, ele não é suficiente para determinar se um filme é ou não feminista. Há muitas variantes que não são consideradas, além disso, suas regras são simples para medir a representatividade feminina. Questões como a diversidade feminina e o papel das mulheres na história não são consideradas pelos seus critérios.

Alison não tinha a intenção de criar um teste analítico sobre o cinema. Completamente surpresa, ela afirma que, “de alguma forma, jovens estudantes de cinema feminista encontraram esse desenho antigo, ressuscitaram-no na era da internet e agora é uma situação estranha. As pessoas realmente o usam para analisar filmes, para ver se eles passam ou não. Ainda assim, surpreendentemente poucos filmes realmente passam no teste.

Há alguns testes que são derivados do teste de Bechdel, como o Teste de Tauriel e o Teste de Vito Russo. O Teste de Tauriel busca entender se as mulheres representadas nas obras de ficção são competentes e boas no que fazem. Já o Teste de Vito Russo analisa se há representatividade LGBT nos filmes.

Filmes que passam no Teste de Bechdel

Em 1985, poucos filmes passavam no teste de Bechdel. Felizmente, essa é uma realidade que está mudando gradativamente. A seguir, confira alguns exemplos de filmes que se enquadram nas regras do teste ao retratar personagens femininas.

Frozen (2013)

Frozen é um filme com duas protagonistas femininas. Em diversos momentos, elas conversam sobre assuntos variados, como o reino onde elas vivem, brincadeiras e os poderes de Elsa. Um príncipe também aparece nos assuntos, mas ele não é o foco principal da trama.

Crepúsculo (2008)

Apesar de ser um filme de romance, com uma protagonista que passa muito tempo com o mocinho e quase não tem amigas, Crepúsculo foi aprovado no Teste de Bechdel. O longa não apresenta representatividade feminina, porém uma conversa entre Bella e sua mãe se enquadra nos critérios do filme.

Adoráveis Mulheres (2019)

Inspirado na obra literária de Louisa May Scott, o filme Adoráveis Mulheres conta a história de quatro irmãs que precisam enfrentar diversos desafios. Com personalidades bem diferentes, elas passam pelas dificuldades da adolescência enquanto uma guerra civil acontece nos Estados Unidos. A história é bem centrada nas irmãs e isso acaba rendendo bons diálogos entre elas.

Publicidade

Que Horas ela volta? (2015)

Com Regina Casé no papel principal, esse é um dos filmes brasileiros mais aclamados pela crítica. A história é centrada na rotina difícil de uma empregada doméstica com poucas condições para criar sua filha. A trama é bem realista e não deixa muito espaço para falar sobre relacionamentos amorosos.

Meninas Malvadas (2004)

Meninas Malvadas é um filme focado completamente no público feminino. Ele retrata a rivalidade feminina como algo negativo, mas com uma grande dose de humor. Existem muitos estereótipos na história, porém a obra passou no Teste de Bechdel.

Matilda (1996)

O filme Matilda é um clássico que conta a história de uma menina apaixonada pela leitura e extremamente negligenciada por seus pais. Ela constrói uma relação de confiança com a sua professora e, juntas, lidam com os problemas e obstáculos da trama. É um filme que possui alguns diálogos entre personagens femininas e pouquíssimas menções ao universo masculino.

Jogos Vorazes (2012)

Um filme recheado de diálogos femininos que não estão baseados em homens. Logo em uma das primeiras cenas, a protagonista conversa com sua irmã. No decorrer do filme, também acontecem outros diálogos entre mulheres. Jogos Vorazes é uma obra que passa de primeira no Teste de Bechdel.

Esses são filmes bem conhecidos pelo público. Em alguns casos, a representação da mulher cai nos clichês midiáticos, porém eles conseguiram passar nos três critérios simples do Teste de Bechdel.

Filmes que não passam no teste de Bechdel

Não é novidade que a maioria da produção cultural de massa retrata a mulher esteriotipada: bela, boazinha, delicada, suspirando de amores, frágil, entre outras. Confira a seguir alguns filmes bem conhecidos pelo público que, por alguma razão, não passam no teste de Bechdel.

Publicidade

Nasce uma Estrela (2018)

O filme protagonizado por Lady Gaga e Bradley Cooper não passa nos critérios de avaliação do teste de Bechdel. Em alguns momentos, a protagonista conversa com outras mulheres, entretanto, elas sequer são nomeadas. Além disso, o assunto da conversa muitas vezes é Jackson, o mocinho da história.

Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005)

Apesar de trazer personagens femininas de grande relevância para a história, o quarto filme da saga Harry Potter não apresenta uma interação entre elas. Hermione, personagem feminina principal, parece ter uma participação menor nesse longa. Ela até aparece interagindo com Harry e Rony, mas não é mostrada conversando com outras mulheres sobre assuntos diversos.

Os Vingadores (2012)

Produzido pela Marvel, o filme apresenta um grupo de super-heróis com a missão de impedir um ataque à terra. No grupo, há três heroínas muito importantes para o desenvolvimento da trama. Mas em nenhum momento elas são vistas conversando sozinhas e, por isso, o longa não passa no teste de Bechdel.

Avatar (2009)

O filme Avatar possui personagens femininas relevantes que até conversam entre si em alguns momentos. Mas o problema é que acontecem apenas breves comentários, não existe a formação de um diálogo entre elas.

Quem quer ser um Milionário? (2008)

Esse é mais um filme de sucesso que não passa nos critérios do teste de Bechdel. A trama possui apenas duas personagens femininas que se destacam em algum momento da história. Entretanto, em nenhum momento, essas personagens se encontram ou conversam. Uma delas, a mãe do protagonista, morre no início do filme.

Apesar de ter apenas três regras simples, são muitas as obras de ficção que não passam no teste. Com isso, surge o questionamento sobre o motivo pelo qual as mulheres ainda não tem um real protagonismo na indústria.

Livros que passam no teste de Bechdel

Existem diversos exemplos de obras literárias que passam no teste de Bechdel. Confira abaixo alguns exemplos:

Orgulho e Preconceito

A obra clássica da escritora Jane Austen não é considerada o melhor exemplo de obra feminista. Mesmo assim, o livro passa nos critérios do teste de Bechdel. A trama é desenvolvida no início do século XIX e conta com várias personagens femininas que interagem entre si.

Cidade das Garotas

Cidade das Garotas conta a história de Vivian, uma garota de 19 anos que acabou de ser expulsa da faculdade e precisa ir morar com a tia. Ao se mudar, Vivian conhece muitas pessoas novas e, entre elas, o amor da sua vida. O livro não explora apenas o romance, mas sim diversos pontos importantes sobre a vida da protagonista.

Divergente

O livro Divergente apresenta Beatrice, uma mocinha tímida que vive em uma Chicago distópica. Com o tempo, Beatrice começa a mostrar sua força, enfrentando grandes desafios ao longo da trama. Ela se torna alguém que questiona as principais regras da sociedade e que luta pelo lugar que quer ocupar. Um ponto positivo do livro é que ele não é tão focado no romance da história.

Anne de Green Gables

Anne de Green Gables conta a história de uma menina órfã, cheia de imaginação e energia, adotada por um casal de irmãos. A trama tem um ar inocente e explora situações do cotidiano de Anne, de sua família e de suas amigas.

O Conto da Aia

O Conto de Aia aborda um futuro distópico onde os cidadãos perderam grande parte de seus direitos básicos. As mulheres são divididas em categorias e cada uma delas possui uma função diferente de acordo com as necessidades do Estado. A história promove uma reflexão sobre diversos temas sociais e atuais.

Questionar a representatividade na literatura também é importante. Aumente a diversidade da sua instante com livros escritos por mulheres, ainda, leia obras lgbt que, geralmente, possuem um protagonismo mais plural.

Mais informações sobre o Teste de Bechdel e a sua importância para a representatividade feminina

A seguir, veja abaixo alguns vídeos que apresentam mais detalhes sobre o Teste de Bechdel:

Teste de Bechdel

Será que o teste tem alguma influência na decisão dos filmes vencedores do Oscar? A Doutora em Linguística comenta sobre a simplicidade do Teste de Bechdel e sobre a representatividade nas produções cinematográficas de forma geral.

O Teste de Bechdel pode ser aplicado na vida real?

Será que é comum encontrar mulheres que não conseguem conversar sobre assuntos além de relacionamentos amorosos? Confira um breve relato sobre a possibilidade de aplicar esse teste em situações da vida real.

Uma análise da participação feminina no cinema

Com esse vídeo, entenda a representação feminina no cinema. Ao mesmo tempo, você vai entender como as mulheres poderiam ser representadas de uma maneira mais condizente com a realidade.

Você consegue lembrar de algum filme que se enquadra nos critérios do teste? O questionamento e a reflexão são importantes para a construção de um mundo mais igualitário. Por isso, leia um glossário feminista e entenda o significado de alguns termos que precisam ser colocados em debate.