Bropriating: descubra se você tem um brother não tão brother assim

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Atualizado em 22.06.22

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Atualizado em 22.06.22

O bropriating é um fenômeno muito comum, principalmente em ambientes corporativos ou acadêmicos, apesar de não ser um tema discutido com frequência. Ao lado do mansplaing, ele silencia, agride emocionalmente as mulheres, reproduz e propaga o machismo. A seguir, confira mais informações sobre o assunto.

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Índice do conteúdo:

Você sabe o que é bropriating?

O termo bropriating foi citado pela primeira vez em um artigo, publicado por Jessica Bennet, na revista Time, em 2015. Jessica definiu o termo como o ato de “pegar a ideia de uma mulher e levar o crédito por ela”. Ele é uma junção de “bro” (de brother, mano) e “appropriating” (apropriação). Fatores como o machismo e o sexismo podem contribuir para a perpetuação do bropriating na sociedade.

Como funciona o bropriating?

Como pontuado pela autora, o bropriating é a ação de se apoderar das ideias de uma mulher, sem dar a ela os devidos créditos. À primeira vista, pode parecer algo absurdo, uma coisa que seria bem difícil de acontecer, mas a realidade demonstra o contrário. Muitos homens utilizam essa prática para se beneficiar de diversas maneiras e, assim, acabam causando um apagamento social feminino.

Existem muitas formas de apropriação que, além de serem um desrespeito, representam uma violência contra a mulher. Em outras palavras, esse ato é errado em qualquer contexto, entretanto, na maioria das vezes que envolve uma mulher, a apropriação recebe a bênção do machismo, ou seja, é minimizada ou desprezada.

Uma situação que ilustra muito bem o bropriating é o caso do influenciador João Marques, que plagiou um trabalho de mais de 25 anos da psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello. A ironia da história é que o trabalho era sobre masculinidade tóxica. Alguém esqueceu de fazer o dever de casa.

Exemplos ao longo do tempo

bropriating

Como visto, o bropriating consiste na prática masculina de apropriação de ideias ou iniciativas desenvolvidas por mulheres. Historicamente, já ocorreram diversos casos, entretanto como identificá-los? Para ficar atenta, informada e creditar as verdadeiras donas das ideias, conheça 7 mulheres que sofreram bropriating:

  • Em 1968, Margaret Knight inventou uma máquina que produzia sacos de papel com rapidez e eficiência. No entanto, quando ela foi patentear a ideia, uma baita surpresa! Chales Anan, que examinou a máquina em sua loja, havia patenteado a invenção.
  • A estudante de doutorado Jocelyn Bell Burnell foi a primeira pessoa a observar as pulsões de rádio em 1967. Ela relatou a descoberta ao seu tutor Anthony Hewish, mas não recebeu os devidos créditos. Em 1974, ele recebeu um prêmio Nobel por essa descoberta.
  • Alice Guy foi a primeira diretora de cinema, realizando mais de 100 filmes no início dos anos 1900. No entanto, o seu nome foi esquecido na indústria e o seu marido é quem recebeu os créditos pelo seu trabalho.
  • A cantora e compositora Willie Mae Thornton foi a primeira a interpretar a canção “Hound Dog”. Mais tarde, a música foi gravada por Elvis Presley, sem o consentimento dela. Willie tentou por muito tempo receber os créditos da canção, mas apenas teve algum reconhecimento em 1984, no museu da música “Blues Hall of Fame”.
  • Lee Krasner foi uma importante pintora do movimento Expressionista Abstrato do século XX. Segundo ela, na sua época, havia “os artistas” e haviam “as damas”, ela era considerada a dama, a esposa de Pollock. Sua obra ficou apagada por muito tempo apesar de toda a qualidade artística.
  • Margaret Keane era a verdadeira pintora dos quadros assinados pelo seu marido, Walter Keane. Ele a convenceu que ganhariam mais dinheiro se as pessoas pensassem que os quadros eram pintados por um homem. Após dez anos, ela declarou a autoria dos quadros e disse que Walter a ameaçava de morte, caso revelasse o segredo.
  • Elizabeth Magie foi a inventora do jogo Monopoly, no ano de 1903. Porém, 30 anos depois um homem chamado Charles Darrow reivindicou o trabalho e vendeu o jogo para a empresa Parkers Brothers. Ele ganhou muito dinheiro com o projeto.

Ao longo dos anos, existiram muitas mulheres inteligentes e inovadoras que foram vítimas de apropriação. Porém, somente em 2015 essa prática foi nomeada. O bropriating está estruturado na sociedade, começa na infância, é propagado na adolescência, por exemplo, quando uma menina faz um trabalho escolar e um menino assume os créditos, até se tornar um hábito bastante comum no ambiente profissional e acadêmico.

Por que é importante combater o bropriating em qualquer situação

Repare, se foi um homem quem disse ou fez, então, tem valor! Isso ficou bem ilustrado nos exemplos acima. Entretanto, o valor passa pelo juízo da cultura e do tempo histórico. Assim, o sistema patriarcal reforça e, veladamente, aprova o apagamento das mulheres. Nesse sentido, é como se estivesse incrustada no senso comum a ideia de que é uma mulher inteligente é algo inaceitável e, mais do que isso, é inaceitável que uma mulher tenha uma posição superior ao homem seja no trabalho, na arte ou em casa.

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Com outras palavras, esse é o famoso “passar pano”. Ninguém gosta de ter suas ideias roubadas, porém, quando a ação parte de um homem, a sociedade e a história minimizam o problema e as consequências. Além da frustração, o bropriating desencadeia problemas emocionais, baixa autoestima, bloqueio criativo, estagnação profissional, distorção da realidade, desvalorização da mulher no mercado de trabalho etc. Dessa forma, é essencial encontrar meios para reconhecer e desestruturar a prática, bem como conscientizar outras mulheres.

O combate é trabalho de formiguinha: compartilhe informações, converse com outras mulheres. Se já passou por uma situação assim e está confortável para falar sobre o assunto, fale. Já não há mais espaço para um mercado de trabalho machista, as empresas precisam discutir a igualdade de gênero. As universidades precisam tirar o feminismo da teoria e colocar na prática. A cultura precisa de um rebuliço drástico.

Então, mulher, espalhe suas ideias e ocupe o seu espaço. Para uma resistência consciente, é preciso entender o contexto e seus entremeios. Por isso, leia o glossário feminista e conheça várias outras faces do machismo.