Shibari: conheça o lado artístico dessa técnica de imobilização

Escrito por
Atualizado em 16.02.22

Karllana | Shibari Educator

Toda arte é uma forma de comunicação e expressão. Toda arte também é um ato político, que questiona preconceitos e padrões estabelecidos. Para mostrar o outro lado do shibari, a professora e fundadora do projeto “Shibari Entre Nós” Karllana Cavalcante conta um pouco mais sobre essa técnica, como funciona e dá dicas para a prática.

Publicidade

Índice do conteúdo:

O que é shibari

De acordo com Karllana, shibari é uma técnica japonesa de comunicação e imobilização com cordas. Ele é inspirado no hojojustu, arte japonesa usada por samurais no período feudal para captura e tortura de prisioneiros de guerra.

“Ele surgiu a partir da visão irônica sobre o processo de troca de poder, que é muito ligado à parte sexual dessa troca e da dor”, diz a profissional sobre o shibari. Esse poder se apresenta na relação de dominação e submissão entre os praticantes, que está presente desde o Japão Feudal.

Por causa do seu contexto sexual, a prática é muito confundida com o bondage, que é uma técnica de amarração usada no BDSM. Mas a professora alerta que ambos são diferentes:

“É preciso pontuar que o bondage não é shibari e shibari não é bondage. São duas práticas com raízes, objetivos e funções diferentes. Se assemelham muito pelo fato do bondage também trabalhar a imobilização e ter a possibilidade de usar cordas. Mas um dos grandes diferenciais, para mim, é a intenção”, diz Karllana.

Como funciona o shibari

É a intenção que dita como será a experiência. “O Shibari em si é uma arte fluida, por isso muda de acordo com o olhar de quem está na sessão”, explica a profissional. O praticante pode optar pela vertente artística, sexual e terapêutica que, como explica a professora, tem as mesmas estruturas, ou seja, o mesmo tipo de nó ou região de amarração.

“Existem algumas estruturas que podem ser consideradas mais sexuais, como por exemplo as estruturas que deixam as regiões íntimas mais expostas, mas é possível usar a mesma num processo artístico e estar desconectado do contexto sexual.”

No processo artístico de Karllana, a inspiração é a conexão com a natureza, com o selvagem e principalmente com o cerrado. “Uso muitas torções, exploro as possibilidades dos corpos e principalmente essa sensação de acolhimento, a possibilidade de uma comunicação sem palavras só com o corpo e as cordas”, afirma a profissional. “Busco trazer o shibari para os parques das cidades, para os shoppings, para o cotidiano, mostrando que é algo acessível, lindo e para todos”.

Publicidade

Arte como ato político

Se é para todos, então também é para mulheres. De acordo com fundadora do projeto Shibari Entre Nós, há 8 anos não havia professoras e mulheres que exerciam o papel de amarrar. Hoje o cenário não é mais o mesmo. “Houve uma movimentação em que nos unimos para ensinar umas às outras e criar grupos de acolhimento e auxílio para quem estava começando. Hoje as maiores referências de shibari no Brasil são mulheres”.

A prática tem muitas formas de contestar o status quo, pois ela questiona o papel da mulher na relação de poder, o conceito de arte, beleza e preconceitos. Para ela, viver de arte no Brasil é um ato político.

“O Brasil ainda é um país conservador e qualquer prática que não esteja dentro desse hall de coisas ditas para família não são vistas com bons olhos. O Shibari quebra de muitas formas essa ideia porque ele é uma prática democrática que aceita todos os corpos, todas as sexualidades, identidades e todas as formas de expressão”, afirma Karllana.

Riscos e precauções

O instrumento de imobilização mais usados atualmente pelos profissionais são as cordas de fibra natural. Por isso, tudo que será feito durante a aula deve ser acordado previamente.

“Assim como inserir velas no sexo, inserir cordas precisa de consentimento e uma conversa para negociar o que pode ou não ser feito e, principalmente, falar sobre os riscos da prática, porque não tem como a pessoa consentir se ela não entende do que se trata”, afirma.

Mas praticar o shibari exige conhecimento prévio não só das técnicas de imobilização, mas de anatomia – principalmente de nervos, circulação e articulação –, primeiros socorros e tipo de corda. Isso ajuda a evitar acidentes, desde queimaduras por corda à perda de movimentação dos membros.

Por causa disso, ela alerta para tutoriais de origem duvidosa encontrados na internet. Ela indica procurar um profissional, que ensinará a praticar com segurança, como reagir a um acidente e aplicar os primeiros socorros.

Saiba mais sobre shibari

Se você se interessou pela prática de origem japonesa, veja abaixo alguns vídeos que vão te ajudar a conhecer mais sobre ela. Lembrando que, antes de testar, procure a orientação de um profissional.

Construindo segurança

Neste vídeo, Karllana Calvalcante ensina como estabelecer uma comunicação clara com a pessoa que está sendo amarrada. Aqui, segurança é sinônimo de consentimento.

Publicidade

Introdução ao Shibari: Cordas

Aqui você conhece um pouco sobre cordas e como escolher a melhor para iniciar o shibari.

Como praticar com segurança

Neste vídeo, Karllana explica um pouco de como funciona a anatomia do corpo, mais especificamente sobre os nervos dos membros superiores. Com essas informações, você consegue evitar acidentes e garantir uma prática mais segura.

Se você gostou dessa matéria, talvez você queira saber mais sobre terapia tântrica, que pode ser um complemento a prática de shibari.