Bem-estar

Saiba o que é bloqueio emocional e como ele pode afetar a saúde mental

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Atualizado em 05.08.22

Sabe aquela pessoa reservada, que não gosta de falar sobre seus sentimentos e parece estar sempre distante afetivamente? Possivelmente, ela tenha o que os profissionais da saúde mental chamam de bloqueio emocional. Para entender o assunto, confira o que a psicóloga Nathália Honorato (CRP 06/166770) revela sobre o surgimento e as características desse mecanismo de defesa da mente.

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O que é o bloqueio emocional?

O bloqueio emocional pode ser definido como uma barreira de proteção psíquica, cujo objetivo é distanciar-se de possíveis ataques. De acordo com a psicóloga Nathália, ele é um mecanismo de defesa utilizado para evitar algo relacionado aos sentimentos ou às situações já vivenciadas que impactaram de forma negativa.

Ao passar por algo traumático e negativo emocionalmente, “tentamos a todo custo não experimentar de novo essa situação”, esclarece a profissional. Como consequência, isso cria um escudo protetor.

Além disso, a terapeuta revela que o estabelecimento desse tipo de bloqueio nem sempre se dá de forma consciente e intencional. Ela pontua que, na maioria das vezes, ele ocorre no “modo automático de funcionamento pela aprendizagem de experiências passadas negativas”.

Por que ocorre o bloqueio emocional?

Quase tudo na mente humana ocorre por algum motivo e, no caso do bloqueio emocional, isso não é diferente. Segundo Nathália, os principais fatores que desencadeiam essa defesa são as “experiências negativas e vivências traumáticas”. Assim, diante da possibilidade de reviver uma situação que causou sofrimento, surge uma barreira, a instauração do bloqueio emocional. Mas não para por aí.

Ao passar por muitas situações em que as manifestações de sentimentos não são validadas por alguém, com o tempo, a pessoa pode ter dificuldades para diferenciar e nomear emoções. Dessa forma, “busca-se um caminho ‘melhor’ que, muitas vezes, leva a uma última alternativa, o silenciamento, como tentativa de esquecer o que foi sentido”, afirma Nathália.

Características do bloqueio emocional

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A dificuldade de falar sobre os próprios sentimentos ou se abrir emocionalmente não é uma patologia. Contudo, existem algumas características que podem ser identificadas e trabalhadas em um processo de autoconhecimento. De acordo com a terapeuta, são elas:

  • Dificuldade de lidar com sentimentos e emoções negativas: segundo Nathália, essa é uma das principais características. É “a visão que as pessoas têm de si, do que são capazes de sentir, bem como a qualidade do sentimento”. Para a psicóloga, sentir medo, raiva e tristeza ainda é um tabu na sociedade, o que impacta na autopercepção de cada indivíduo e aumenta a dificuldade em estabelecer conexões com outras pessoas.
  • Evitar situações que envolvem a socialização: segundo a profissional, geralmente, uma pessoa que estabelece essa barreira é mais reservada e não gosta muito de socializar. Assim, “estar reunida e confraternizar com outras pessoas não faz muito sentido para ela”. Também há o medo de se tornar o centro das atenções, o que gera um sentimento de ansiedade.
  • Aumento de níveis de ansiedade: pegando o gancho do tópico anterior, quando “a pessoa entende que, a qualquer momento, uma situação nova e indesejada pode acontecer, os níveis de ansiedade aumentam significativamente”, explicou a psicóloga. Cada vez mais, essa tentativa de barrar os afetos, as emoções e não falar sobre o assunto “desencadeia grandes indícios de correlações com diagnósticos de quadros de ansiedade e depressão”.
  • Perda de interesse: para a psicóloga, “a capacidade de algo cativar e manter o interesse da pessoa com bloqueio emocional é muito difícil”. Por outro lado, essa pessoa pode “fixar sua atenção em algo que dê um significado à sua falta de sentido” (sensação provocada pelo bloqueio das emoções), buscando encontrar em músicas, poemas, livros, filmes, personagens etc. a expressão do sentimento que não consegue nomear.

É importante lembrar que, dentro da subjetividade de cada indivíduo, as características podem aparecer de formas diferentes ou, até mesmo, surgirem novos indícios do bloqueio emocional. No geral, é sempre bom refletir sobre o próprio comportamento. A partir disso, é importante buscar auxílio profissional, por exemplo, a psicoterapia, para ressignificar situações já vivenciadas.

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Como lidar com o bloqueio emocional

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Não é uma tarefa fácil desconstruir uma barreira constituída ao longo da sua vida. Entretanto, existem diversas práticas que te ajudarão a olhar para si, conhecer seus sentimentos, praticar o amor-próprio e lidar com as situações difíceis. A psicóloga Nathália listou algumas:

Permita-se sentir os afetos e as emoções negativas

Como primeiro passo, a terapeuta indica a autopermissão para sentir e vivenciar uma emoção negativa, “por mais difícil que seja nomear e pensar nela no momento”. Para muitas pessoas, isso pode parecer simples, entretanto, para quem sofre com essa barreira, permitir-se é um grande e difícil passo.

Segundo Nathália, “se existe a dificuldade e o bloqueio das emoções, é importante trabalhar o ‘não se julgar’. Permita-se sentir e pensar sobre as situações que te causaram sofrimento”.

Busque ajuda profissional

Para quem tem bloqueio emocional, abrir-se com as pessoas, mesmo que sejam próximas, pode ser algo difícil, justamente pelo medo do julgamento. Por isso, a psicóloga aconselha buscar ajuda profissional. Assim, a pessoa terá um “espaço de escuta sobre o bloqueio emocional, livre de estereótipos, sendo um lugar de acolhimento, ressignificação e nomeação dessas barreiras”.

Repense seus hábitos

A psicóloga indica buscar ajuda profissional para uma reeducação dos hábitos: alimentação, exercícios físicos, vida profissional e lazer. “É muito importante trabalhar a relação entre o bloqueio emocional e o modo como você se envolve com a comida, com o seu corpo, suas tarefas e o seu tempo de descanso”.

Experimente vivenciar as coisas de uma nova maneira

Por fim, Nathália sugere experimentar as situações que você deixou de viver por causa do bloqueio. Se em vários momentos “você foi silenciada, afastada ou rejeitada de situações”, essa não é uma tarefa fácil, porém, o autocuidado e buscar ajuda profissional fazem toda a diferença. Com o tempo, “você descobrirá suas capacidades, gostos e potencialidades”.

Não se cobre para desconstruir essa barreira rapidamente, pois o processo de elaboração do bloqueio emocional é longo e demanda paciência. No entanto, com ajuda profissional, reflexões e muito carinho da sua parte, o conflito irá se diluindo no tempo.

Como se relacionar com alguém que tem bloqueio emocional

Segundo a psicóloga Nathália, “uma pessoa com bloqueio emocional tem dificuldade para reconhecer e para transmitir seus sentimentos”. Isso gera impacto nas relações interpessoais, pois passam “a ideia de serem pessoas ‘frias e insensíveis’, desinteressadas em manter amizades e, principalmente, um relacionamento amoroso”.

A profissional também aponta que o “amar e ser amado, é, muitas vezes, sentido pela pessoa como uma vulnerabilidade, o que a faz pensar, duvidar e questionar como alguém pode ser capaz de amá-la”. Esse jogo de incertezas pode acabar gerando conflitos na convivência.

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O bloqueio emocional pode dificultar a relação, entretanto, ele não a impossibilita. A ajuda externa é uma das partes mais importantes nesse processo de mudança e desenvolvimento, pois, segundo a psicóloga, demonstra validação dos sentimentos, apoio e reconhecimento.

Por fim, Nathália ressalta que o bloqueio emocional “não é um transtorno psicológico, mas algo que foi aprendido durante a vida”. Ainda em suas palavras, “precisamos aprender a abraçar as novas formas de vivenciar o que estamos sentindo e repensar a ideia de medir a quantidade de afeto de cada pessoa”, com menos comparações e mais individualidade.

Como você pode ver, o bloqueio emocional é algo que foi aprendido ao longo das suas experiências, mas que pode ser repensado e desconstruído. Para dar o pontapé na mudança, entenda o que é a autoaceitação. Ela pode te ajudar nesse processo.

As informações contidas nesta página têm caráter meramente informativo. Elas não substituem o aconselhamento e acompanhamentos de médicos, nutricionistas, psicólogos, profissionais de educação física e outros especialistas.

Psicóloga apaixonada por literatura e psicanálise. Acredita que as palavras, escritas ou faladas, têm o poder de transformar.