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Ansiedade: até que ponto é aceitável?

É preciso ter vários sintomas associados e por um tempo considerável para que se comece a suspeitar de algum tipo de transtorno de ansiedade

em 16/05/2016

Foto: Getty Images

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Não são poucas as pessoas que relatam se sentirem ansiosas diante de uma entrevista de emprego, de um novo serviço ou até de um encontro com uma pessoa especial ou uma viagem.

Celia Lima, especialista em psicoterapia holística do Personare, comenta que é absolutamente normal ficar ansioso em determinadas situações. “O medo, a expectativa e a dúvida são sentimentos que desencadeiam ansiedade. Ela surge em momentos ou até mesmo alguns dias que antecedem acontecimentos importantes.”

“Uma pessoa pode ficar ansiosa aguardando o resultado de um teste, de exames de saúde, antes de um encontro amoroso ou profissional, na fila da montanha russa, aguardando o início de um show de sua banda predileta, ao caminhar por uma rua escura e muitos outros fatos da vida que ela julga importantes ou que sejam ameaçadores. Ou seja, a ansiedade pode estar presente diante de fatos que promovam excitação”, exemplifica Celia.

Mas, conforme destaca a especialista, existem outros tipos de ansiedade que acabam por comprometer a vida do indivíduo, inviabilizando um convívio social e familiar saudável, e tornando sua vida uma maratona de altos e baixos emocionais, que causam sofrimento constante.

De acordo com a psicóloga clínica Cristiane Maluhy Gebara, os transtornos de ansiedade acometem por volta de 25% da população, sendo que a incidência maior é nas mulheres.

Sintomas que praticamente toda pessoa ansiosa sente

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A psicóloga clínica Cristiane reforça que sentir ansiedade ou medo quando se está frente a uma situação estressora é normal. No entanto, a ansiedade se torna patológica quando traz alguns sintomas típicos, emocionais e físicos, acarretando prejuízo nas diversas áreas da vida.

Entre os sintomas mais comumente encontrados nos distúrbios de ansiedade, as profissionais Celia e Cristiane destacam:

Os principais sintomas emocionais:

  • Preocupação excessiva;
  • Nervosismo;
  • Insegurança;
  • Irritabilidade;
  • Falta de concentração;
  • Insônia;
  • Medos;
  • Angústias;
  • Isolamento.

Os principais sintomas físicos:

  • Tontura;
  • Taquicardia;
  • Sudorese;
  • Falta de ar;
  • Tremor;
  • Tensão muscular;
  • Dores de cabeça;
  • Dores no corpo;
  • Gases;
  • Cólicas intestinais.

Algumas perguntas que você pode fazer a si mesma, para avaliar se, de fato, a ansiedade prejudica sua qualidade de vida, de uma forma ou de outra, são:

  • Você está constantemente tensa e preocupada com alguma(s) coisa(s)?
  • Sua ansiedade já chegou a atrapalhar algo que fosse de sua responsabilidade? Como, por exemplo, apresentar um trabalho na escola ou na faculdade?
  • Você sente-se constantemente atormentada por medos que a maioria das pessoas te explica que são irracionais?
  • Você acredita que algo ruim vai acontecer se certas coisas não forem feitas de uma determinada maneira?
  • Você evita algumas situações ou atividades cotidianas porque elas lhe causam ansiedade?
  • Você sente que situações perigosas e catastróficas estão a cada esquina e/ou podem acontecer a qualquer momento?
  • Você, com frequência, sente dificuldade de pegar no sono pois se vê pensando em tudo o que tem que fazer no dia seguinte?
  • Você tem dificuldade de colocar foco em uma única atividade?
  • Você se precipita diante de situações? Por exemplo, quando vai ter uma conversa séria com alguém, já fica pensando no que vai falar e no que, provavelmente, ele vai responder?

Se você respondeu “sim” para várias dessas questões, pode estar sofrendo de um transtorno de ansiedade. Mas, é claro, isso não é motivo de desespero, afinal, somente um profissional poderá avaliar o seu caso e, se necessário, indicar o melhor tratamento.

Os tipos de ansiedade e como se diferenciam

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Abaixo você entende um pouco mais sobre os diferentes tipos/quadros de ansiedade:

Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

Celia explica que a pessoa não consegue manter o controle sobre seu estado de ânimo, está constantemente preocupada e apreensiva e passa a apresentar sintomas como dificuldade de concentração, cansaço, tensão muscular, irritabilidade, sono agitado e entrecortado. “Outros sintomas podem incluir falta de ar, náusea, aperto no peito, distúrbios intestinais, dores de cabeça, sudorese excessiva, alteração na pressão arterial e taquicardia. A isso chamamos de Transtorno de Ansiedade Generalizada, que acomete pessoas de todas as idades, inclusive crianças”, diz.

“É natural que tenhamos dúvidas em certas situações da vida sobre nosso desempenho em determinadas tarefas, tanto quanto é normal ficarmos preocupados quando perdemos o emprego. Algumas vezes podemos perder o sono porque estamos apreensivos aguardando a chegada de um filho da balada ou porque precisamos acordar cedo e temos medo de perder a hora. São inúmeros os eventos cotidianos que podem desencadear ansiedade, todavia eles cessam quando a questão se resolve. Mas, quando a preocupação é desproporcional ao acontecimento, quando começamos a fantasiar catástrofes, acidentes ou situações irreversíveis e esses sentimentos perduram por mais de seis meses sem cessar, pode-se dizer que o TAG está instalado e é o momento de procurar ajuda profissional”, destaca a especialista.

“É fundamental que uma avaliação clínica seja feita, já que alguns sintomas isoladamente não apontam necessariamente para um transtorno de ansiedade”, ressalta Celia.

Mas quais são as condições para o surgimento desse tipo de transtorno? “Além de distúrbios físicos/hormonais, como a chegada da menopausa, problemas de tireoide ou problemas cardíacos, questões psicológicas traumáticas podem desencadear o TAG. Ter presenciado ou mesmo ter sido vítima de eventos violentos ou ser dependente de substâncias como álcool, cigarro e drogas em geral podem levar o indivíduo a desenvolver a doença”, explica a especialista.

Não é incomum, de acordo com Celia, que o TAG esteja presente juntamente com outros problemas, como as fobias, pânico, depressão, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno obsessivo compulsivo, transtorno de ansiedade social ou fobia social, e muitos outros.

Fobia social

Pode ser resumida como uma preocupação esmagadora com situações sociais cotidianas, quando a pessoa sente que poderá ser observada/analisada pelos outros. Ela sente-se, então, insegura, preocupada com o que poderão pensar dela.

“Podemos falar sobre o medo de falar em público que caracteriza uma ansiedade com relação ao próprio desempenho. Se é natural que todos se sintam um pouco ansiosos quando precisam fazer uma explanação ou dar uma palestra, nos fóbicos sociais isso ocorre com uma intensidade incontrolável, gerando sofrimento. O medo de ser julgado é muitas paralisante e, como consequência, incapacitante”, destaca Celia.

“Da mesma forma, a timidez excessiva, que faz com que a pessoa se recolha, não queira participar de atividades sociais comuns, não tenha amigos e não se relacione afetivamente. São casos que pedem investigação e tratamento, assim como outros tipos de fobia”, acrescenta a especialista.

Agorafobia

A agorafobia pode ser resumida como o medo de lugares repletos de pessoas. A pessoa pode sentir ainda medo de andar nas ruas, dificuldade de sair sozinha de casa, de ir a certos lugares (como mercados ou cinema), pois inexplicavelmente sente a necessidade de ter alguém ao lado para lhe dar segurança.

Alguns medos mais comuns são: estar longe de casa ou de pessoas que deem segurança; andar de carro, ônibus ou avião sozinha; situações nas quais a saída seja difícil como congestionamentos, estádios; elevadores etc.

Fobias específicas

São aquelas relacionadas a medos intensos de um objeto ou situação específica, como, por exemplo, cobras, insetos, altura, avião, trovões etc. O detalhe é que o nível deste medo é geralmente inadequado e pode levar a pessoa a evitar situações cotidianas, interferindo na sua qualidade de vida.

Celia destaca que as causas das fobias podem estar relacionadas a eventos traumáticos, mas nem sempre existe uma causa aparente. “O que faz pensar que pode haver fatores genéticos que levem ao medo intenso e persistente sem motivo racional”, diz.

Transtorno de pânico

É um tipo de transtorno de ansiedade no qual ocorrem crises inesperadas de desespero e um medo intenso de que algo ruim aconteça (mesmo que não haja motivo/ sinais de perigo).

Pode ser acompanhado, por exemplo, de agorafobia, que é o medo de estar em lugares onde a ajuda seria difícil em caso de um ataque de pânico.

Transtorno Obsessivo Compulsivo

De acordo com Celia, o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) caracteriza-se pela crença de que, se não realizarem algo de determinada forma, alguma coisa terrível pode acontecer. “E, até que o ritual de checagem (verificar várias vezes se a porta está trancada, por exemplo), higiene (lavar as mãos a cada vez que toca em algo), simetria (ocupar-se com a exata posição de determinados objetos) seja cumprido, o estado de ansiedade não cessa”, diz.

“Embora o perfeccionismo seja muitas vezes confundido com TOC, ele está associado a um distúrbio neurótico e não a um transtorno de ansiedade. O perfeccionista não tolera erros, nem os dele (perfeccionismo introspectivo) nem os dos outros (perfeccionismo extrospectivo). Ele faz e refaz um trabalho porque busca a perfeição, diferente do portador de TOC que rege seu comportamento em função de uma crença”, destaca a especialista.

Transtorno de Estresse Pós-Traumático

“Caracteriza-se por uma série de sintomas que surgem após dias, meses ou mesmo anos depois da vivência de um evento que tenha envolvido violência ou todo episódio que tenha colocado em risco a vida da vítima ou de outra pessoas, como numa catástrofe natural”, destaca Celia.

“Podem surgir flashbacks da situação, pesadelos e lembranças tão intensas que a pessoa revive a situação como se estivesse passando por tudo de novo naquele momento, provocando todos os sintomas físicos e emocionais como taquicardia, sudorese e tontura. Com o tempo a pessoa pode querer evitar situações sociais que podem reavivar o trauma”, explica a especialista.

Insegurança

A insegurança também gera ansiedade, conforme explica Celia. “Não saber ao certo o que fazer na maioria das circunstâncias, depender excessivamente da opinião dos outros para tomar uma decisão, duvidar constantemente da própria capacidade em resolver problemas, ter medo de desapontar as pessoas, ter medo de se decepcionar, são alguns fatores que promovem o isolamento da pessoa.”

“Muitas vezes, como um mecanismo de defesa contra a insegurança, pode-se desenvolver um comportamento controlador ou agressivo. A pessoa excessivamente insegura tem dúvidas sobre estar ou não fazendo a coisa certa e, por nunca obter uma resposta satisfatória, acaba se paralisando ou agindo por impulso apenas para se livrar da angústia gerada pela ansiedade”, destaca a especialista.

Como a ansiedade é diagnosticada?

Foto: Getty Images

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Cristiane destaca que um transtorno de ansiedade é diagnosticado por um psiquiatra e é feito clinicamente. Não há exame laboratorial que diagnostique o problema.

Celia explica que é importante lembrar que todo mundo vivencia episódios normais e saudáveis de medo, ansiedade e apreensão. “E todos estamos sujeitos a, vez por outra, ter uma noite mal dormida. Sentir medo faz com que possamos nos proteger de perigos do dia-a-dia, a ansiedade ante alguns fatos é natural, como é normal ficar nervoso antes ou durante uma entrevista, e que todos esses sentimentos podem desencadear sintomas físicos, como tonturas ou dores de cabeça. É preciso ter vários sintomas associados e por um tempo considerável para que se comece a suspeitar de algum tipo de transtorno de ansiedade. Consultar um profissional é fundamental para que o diagnóstico seja preciso e para que se defina um tratamento adequado que devolva o indivíduo a uma vida produtiva e emocionalmente saudável”, diz.

Tratamentos para os transtornos de ansiedade

Cada caso é único e deverá ser avaliado por um profissional habilitado para isso. “Os tratamentos corretos, com terapia cognitivo comportamental e, muitas vezes, com medicação, podem ajudar a pessoa a ficar em remissão dos sintomas”, destaca Cristiane.

A terapia cognitivo comportamental, basicamente, tem como objetivo propor mudanças nos comportamentos da pessoa através da reestruturação cognitiva, ou seja, modificando crenças, formas de interpretar as situações negativas por outras mais baseadas na realidade.

O ideal é que, ao notar a presença frequente de sintomas associados à ansiedade, a pessoa procure um profissional, que indicará o melhor tratamento (seja medicamentoso ou não).

7 medidas para diminuir a ansiedade

Cristiane explica que, para prevenir as crises de ansiedade, é importante buscar um equilíbrio de diversas formas:

  1. Fazer atividade física.
  2. Ter uma boa alimentação.
  3. Adquirir hobbies.
  4. Conviver com a família e amigos.
  5. Procurar fazer coisas prazerosas nas horas vagas.
  6. Relaxar.
  7. Trabalhar com os pensamentos.

Perguntas e respostas sobre ansiedade

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Confira o esclarecimento para as principais dúvidas relacionadas ao transtorno de ansiedade:

1. A ansiedade pode levar à depressão?

“Não necessariamente. Mas a depressão pode estar associada a algum transtorno de ansiedade”, diz Cristiane.

Há, sim, sintomas similares na depressão e na ansiedade, como por exemplo, os medos, dificuldade de concentração, insegurança, irritabilidade, entre outros. Porém, são quadros diferentes. O que é importante ressaltar é que ambas são doenças e devem ser diagnosticas e tratadas corretamente, cada uma a seu modo, por profissionais especializados.

2. O que devo fazer durante uma crise de ansiedade?

“Frente a uma crise de ansiedade é importante não negar o que está sentindo. Respirar profundamente e soltar o ar devagar e trazer pensamentos do tipo ‘vou me acalmar e irei encontrar uma solução para o problema’ é de suma importância. Trazer pensamentos mais funcionais ameniza a ansiedade. Técnicas de relaxamento e meditação também podem ser adotadas, mas vale o lembrete de que é preciso haver constância e treino”, destaca Cristiane.

3. O que não dizer a uma pessoa que tem ansiedade?

A psicóloga clínica explica que é muito ruim dizer para a pessoa que ela não está sentindo nada ou que isto é “fricote”. Os sintomas irão piorar.

4. É verdade que alguns antidepressivos causam dependência?

Não é verdade, de acordo com Cristiane. Esse tipo de medicamento, é claro, só deverá ser tomado se houver indicação médica e sempre seguindo as orientações do profissional (ou seja, seguindo o tratamento corretamente).

5. Como ajudar uma pessoa que tem sinais de ansiedade?

“Em primeiro lugar é preciso ouvi-la e ser continente. Outro passo seria pedir para que inspire o ar e solte lentamente pela boca por algumas vezes e prestar atenção no caminho que o ar faz. Esta é a respiração diafragmática. Com o treino, é possível atingir um equilíbrio físico e mental”, destaca Cristiane.

“Outro passo importante é ajudá-la a trazer pensamentos mais funcionais e mais realistas, pois quando a ansiedade é intensa, é comum os pensamentos serem catastróficos”, explica a psicóloga.

6. Posso fazer tratamento para ansiedade mesmo estando grávida?

Sim, de acordo com Cristiane. “A terapia cognitivo comportamental é bastante eficaz para os transtornos de ansiedade”, diz.

7. Crianças também podem sofrer com o transtorno?

“Sim. Elas podem se beneficiar muito com a terapia cognitivo comportamental”, explica Cristiane.

8. Quais são os prós e contras dos medicamentos antidepressivos?

“Quando há um diagnóstico de um transtorno mental e é preciso tomar alguma medicação, é comum que em alguns casos os efeitos colaterais apareçam no início, no entanto, passados alguns dias, a tendência é que estes efeitos colaterais desapareçam e os sintomas vão sendo sanados”, diz Cristiane.

“Costumo dizer aos meus pacientes: ‘por que é mais fácil quando temos um diagnóstico de hipotireoidismo, por exemplo, aceitarmos que temos que tomar uma medicação diariamente? Por que não aceitarmos este fato quando se trata de um transtorno mental?’”, acrescenta a psicóloga.

Agora você já sabe: sentir certa ansiedade e até mesmo medo diante de algumas situações é extremamente normal. O problema acontece quando a pessoa passa o dia cheia de preocupações e tensões exageradas, ainda que tenha pouca coisa ou nada provocando isso. Quando antecipa desastres, problemas etc. Esses, entre outros sintomas, podem estar indicando, de fato, um transtorno de ansiedade, que deverá ser diagnosticado e tratado por profissionais habilitados para isso.

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