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Entenda o que é transexualidade e contribua com o combate a transfobia

Frit

Atualizado em 01.07.22

Você sabia que 0,60% da população brasileira é formada por transgêneros e 1,19% por não binários? Uma pesquisa feita pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) mostra que a diversidade de gênero representa quase 4 milhões brasileiros. Essa parcela da população precisa de políticas públicas e direitos. Saiba mais sobre transexualidade e entenda a luta de pessoas trans e não binárias.

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O que é transexualidade?

De acordo com Milena Sophia Marques, formada em Psicologia e Gestão de Recursos Humanos e pós-graduanda em neuropsicologia, para entender o que é transexualidade, antes é preciso entender que “existe o órgão sexual (sexo biológico), o gênero (identidade de gênero) e a sexualidade (orientação sexual)”. Esses três conceitos não são a mesma coisa.

Segundo a psicóloga, “muitos confundem os três entre si, mas são conceitos totalmente distintos. Nossa sociedade associa o gênero ao órgão com o qual a pessoa nasceu. Ou seja, se nasceu com vulva, é mulher e se nasceu com pênis, é homem. A transexualidade vai além disso.”

Após essa explicação, Milena fala que “uma pessoa CIS se identifica com o gênero que lhe foi imposto no nascimento, por causa de seu órgão sexual”. Por exemplo, se uma pessoa nasceu com vulva e se identifica como mulher, e ela é cisgênero.

Uma pessoa transgênero “não se identifica com o gênero que lhe foi imposto no nascimento, devido ao seu órgão sexual”. Por exemplo, uma pessoa nasceu com pênis mas não se identifica como homem. Ou seja, as pessoas trans não se identificam com o gênero que lhe foi imposto por causa do seu sexo biológico.

Entretanto, é importante lembrar que “a transexualidade não engloba apenas homens e mulheres trans. Sendo assim, não-binários, travestis, crossdressers, gênero fluído e agêneros também fazem parte”. Note que a homossexualidade e a bissexualidade não fazem parte, porque se trata da sexualidade e não da relação entre sexo e gênero.

A bandeira trans

A bandeira do Orgulho Transgênero foi criada por Monica Helms, uma mulher trans nascida nos Estados Unidos. Ela foi exibida pela primeira vez nos anos 2000, em uma parada de orgulho LGBTQIAP+ em Phoenix, Arizona, nos Estados Unidos.

Esta bandeira representa a comunidade trans. Ela é formada por cinco faixas horizontais: duas azuis claras, duas rosas e uma branca no meio. A cor azul é utilizada para representar os homens trans, a cor rosa para representar as mulheres trans, já a cor branca é usada para representar os não-binários.

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A despatologização da transexualidade

Milena explica que apesar de muitas pessoas pensarem que a transexualidade é um transtorno, ela foi retirada do CID 11 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas de Saúde).

A psicóloga ainda destaca que algumas pessoas trans sofrem de incongruência de gênero (disforia), sendo “o sofrimento devido ao corpo físico não corresponder com as características de gênero que a sociedade espera”. Todavia, é importante compreender que essas características são totalmente sociais.

Ela ainda complementa, dizendo que “é preciso entender que existem homens com vulva e existem mulheres com pênis. Por exemplo, muitas mulheres trans se sentem confortáveis com seus corpos e não sentem vontade de fazer uma cirurgia de redesignação de sexo para terem uma vulva. Uma coisa é ser trans, outra coisa é sofrer de disforia de gênero”.

Além disso, “muitas pessoas CIS também experienciam transtornos relacionados a própria imagem corporal, como o TDC (Transtorno Dismórfico Corporal). Nem por isso as identidades CIS são patologizadas. A despatologização trans é um movimento de espalhar informação para acabar com os estigmas e discriminações que cercam a transexualidade”.

Como se referir a uma pessoa trans

Uma “mulher trans” simboliza uma pessoa designada homem no seu nascimento, mas se identifica como mulher, logo, deve ser tratada pelos pronomes femininos. Já o “homem trans” simboliza uma pessoa designada mulher no seu nascimento, mas se identifica como homem, então, deve ser tratado pelos pronomes masculinos.

Já as pessoas não-binárias podem preferir um ou outro tratamento, ou optar pelo uso do pronome neutro. O mais importante é: se você sente alguma dúvida, é melhor perguntar antes com qual forma a pessoa melhor se identifica e como prefere ser tratada. Isso evita constrangimentos das duas partes, demonstra respeito e ninguém vai se sentir ofendido.

Como combater a transfobia

De acordo com a pesquisa feita por Maria Cristina Pereira Lima, entre 2008 e 2018, a América Latina teve as maiores incidências de violência contra pessoas trans no mundo. Mais precisamente, 78% de todos os assassinatos contra essa população ocorreram na América Latina, sendo que a maioria deles aconteceu no Brasil.

Para falar mais sobre esse assunto, Agnes Reitz, uma mulher trans, ensina o que é necessário para combater a transfobia e lutar por respeito pela transexualidade:

  1. Apoiar leis: “o que temos mais urgência é a criação de leis e políticas públicas específicas para a comunidade trans”, explica Agnes. “Infelizmente a transfobia não vai deixar de existir somente com métodos paliativos, já que é intrinsecamente ligada ao machismo e consequentemente com o feminicídio, que também ainda acontece em números alarmantes no Brasil”, acrescenta;
  2. Abrir a mente: Agnes ressalta que “estamos cercados por informações, mas a mente das pessoas se permanece fechada. Boa parte da população sabe o que são pessoas trans, porém isso esbarra em muitas questões pessoais, religiosas e preconceitos. Por estes motivos, elas optam de espontânea vontade continuar inviabilizando”;
  3. Respeitar: parece óbvio, mas muitas pessoas se recusam a respeitar o outro. “Se não está dentro da norma ou fora de um padrão imposto pela sociedade, muitas pessoas deixam de respeitar”;
  4. Despatologizar: é muito importante reforçar a ideia de que ser trans não se trata de uma doença. “A despatologização é importante, porque respeitar as identidades e as subjetividades das pessoas ajuda a trabalhar a equidade, chegando na igualdade de fato”;
  5. Educar: o conhecimento é uma das ferramentas para destravar seus preconceitos. Ao ler pesquisas e se informar em boas fontes, você pode mudar seu pensamento e aprender a enxergar o mundo de uma forma mais empática.

Ainda assim, o Brasil está no topo do ranking de países que mais mata pessoas trans, de acordo com relatório da Trangender Europe. A transfobia é um grave problema na sociedade e precisa ser combatida.

7 Pessoas trans famosas que você deve conhecer para entender sobre transexualidade

Você conhece algum famoso que é trans? Por muito tempo, essas pessoas foram excluídas das mídias, mas o cenário atual é de esperança. Se inspire nos exemplos abaixo:

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Elliot Page

Elliot Page, estrela do filme “Juno” e da série “The Umbrella Academy” anunciou ser transgênero em Dezembro de 2020. O ator compartilhou que se sentia sortudo de poder dizer ser trans e ter conseguido chegar até onde chegou.

Linn da Quebrada

A brasileira Linn da Quebrada é cantora e atriz. Na participação do BBB 2022, a artista mostrou que as pessoas ainda têm muito a aprender sobre pessoas trans. Ela teve que explicar o que é trans e travesti inúmeras vezes no programa.

Laverne Cox

Laverne Cox é atriz e produtora, ela ficou conhecida por sua personagem em Orange is the New Black, Sophia Burset. A atriz já compartilhou que sua descoberta como mulher trans aconteceu bem cedo, durante sua puberdade, em que ela rezava para não se tornar um homem. Ela afirma que “sabia, em meu coração, minha alma e meu espírito que eu era uma menina”.

Tarso Brant

Tarso Brant, ator, influencer e modelo, foi o primeiro transgênero a participar do programa “De férias com o ex”. Ele explica que, antes da transição, estava procurando algo que não sabia muito bem o que era, até se entender como Tarso. Segundo ele, “temos que saber lidar com nossos incômodos para buscarmos o nosso tesouro. Foi gostoso esse momento da ascensão do Tarso dentro de mim. Eu buscava por ele desde criança, mas não sabia quem era. Foi um momento de conforto, aceitação e de querer saber sobre o meu lugar na sociedade como Tarso”.

Valentina Sampaio

A modelo e atriz Valentina Sampaio se tornou conhecida mundialmente por ser a primeira mulher trans a sair na capa da revista Vogue Brasil, destaque na revista Vogue Alemanha, além de ser a primeira trans a estar na Victoria ‘s Secret. Apesar do sucesso atual, a modelo conta que o início de sua carreira não foi fácil. Segundo ela, “foi inicialmente muito desafiador conseguir um trabalho como modelo. Mesmo quando as pessoas queriam trabalhar comigo, elas ficavam com medo de contratar uma mulher trans. Enfrentei muita ignorância e medo”.

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Michaela Jaé (MJ) Rodriguez

MJ Rodriguez, Blanca Rodriguez em Pose, foi a primeira mulher trans a ganhar um Globo de Ouro. Ela levou o prêmio na categoria de melhor atriz em série de drama. Após o prêmio, MJ postou em seu instagram que “esta é uma porta que está se abrindo para muitos jovens talentosos. Eles verão que isso é mais que possível. Eles verão que a jovem garota negra latina de Newark, que tinha um sonho, um sonho de mudar a mente dos outros com amor. O amor vence. Para meus jovens bebês LGBTQAI, estamos aqui! A porta está aberta. Agora, alcancem as estrelas”.

Nicole Maines

Nicole Maines, atriz e ativista pela transexualidade, se tornou a primeira super-heroína trans na televisão após interpretar a heroína Sonhadora na série Supergirl. Em um post no instagram, a atriz conta que “fui muito sortuda de não ter ficado muito tempo no armário, mas o tempo que eu fiquei, foi um inferno. Nada mais que respeito para aqueles que ainda não conseguiram sair do armário ainda. Eu vejo vocês, eu estou orgulhosa de vocês e o momento de vocês está chegando. Isso não vai durar para sempre. Eu espero que representatividades, como a Sonhadora, esteja fazendo com que vocês se sintam vistos e validados, mesmo em um ambiente que você deve estar silenciado”.

E os talentos trans não estão resumidos a apenas 7 famosos. Devemos ver, através destes poucos exemplos, que o talento não escolhe gênero. Quanto mais as mídias inviabilizam pessoas trans e não-binárias, mais elas perdem a oportunidade de trabalhar com pessoas competentes e geniais.

Relatos sobre a transexualidade

Para compartilhar experiências e até mesmo ajudar outras pessoas trans, várias pessoas criam conteúdos na internet. Por isso, acompanhe as histórias e relatos dos vídeos selecionados:

Como é se descobrir trans e entender sobre transexualidade

Nesse vídeo, Thiessa conta sobre sua experiência de como se descobriu trans. Mais do que isso, ela explica quais foram os seus próximos passos depois dessa descoberta e quais foram as suas principais dificuldades.

Como é o período escolar para uma pessoa trans

Neste vídeo do canal Manda Crioula, Manda conta sua experiência sobre ser trans no ensino médio. Ela relata como as pessoas da escola se posicionavam e como os outros estudantes tratavam ela.

Relacionamentos: contar ou não sobre a transexualidade?

No canal Claranjada, Clara conta um pouco sobre suas experiências de relacionamentos e levanta o questionamento sobre contar ou não se é trans já logo de cara.

Experiências e conquistas da transexualidade

De forma bem poética, Lucca Najar conta um pouco sobre sua experiência de ser trans. Ele fala um pouco sobre sua transição e também sobre suas conquistas.

Afrontar

Este vídeo mostra como várias pessoas trans afrontaram as normas cisgênero da sociedade para conquistar seus sonhos. Até porque, só com a luta é possível conquistar visibilidade e respeito.

Infelizmente, os dados que estão presentes no texto são preocupantes, o preconceito e a violência existem e estão presentes em todas as instituições. Por isso, compartilhe essa matéria e entenda um pouco mais sobre o que é transfobia. O primeiro passo para combater o preconceito é se informar.

Jornalista, escritora e aspirante a artista. Facinada por abelhas, plantas e artesanato. Naturalmente curiosa e investigativa. Se aventura nos mais diversos filmes e séries disponíveis online.