Mulheres inspiradoras: Karen Jonz

Veterana no skate, Karen é uma das maiores referências de um esporte ainda dominado pelos homens

Escrito por Beatriz Castells

Foto: Reprodução / Karen Jonz

Tetracampeã mundial de skate, uma prática majoritariamente dominada por homens, Karen Jonz mostra que é possível ter destaque no esporte e não cumprir com tudo o que esperam de uma mulher.

Sempre remou contra a maré do que se idealizava de uma menina, sendo que era uma das únicas garotas na escola que participava ativamente das aulas de educação física e principalmente dos esportes “de menino”, como por exemplo o futebol.

Trajetória de Karen Jonz

Foto: Reprodução / Karen Jonz

Karen nasceu em Santos, no litoral de São paulo, no ano de 1985. Cresceu em Santo André, no ABC paulista, em uma família de classe média.

Diferente de muitos competidores homens, ela iniciou sua carreira relativamente tarde. Somente aos 17 anos ela conseguiu ter seu sonhado skate, quando juntou uns trocados e conseguiu comprar um. Ela conta que pediu um skate de presente aos seus pais por muitos anos, mas nunca o ganhou.

Nessa fase, Karen tinha dificuldades de encarar o skate como profissão, pela falta de representatividade feminina nesse meio. Isso fez com que ela tivesse medo de não ser aceita e enquadrasse o esporte apenas como um hobby. Foi assim que Karen começou a cogitar outras profissões, o que a levou a conquistar dois diplomas, de Rádio e TV e de Design Gráfico.

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Falta de apoio e referências

Foto: Reprodução / Karen Jonz

Quando começou a se interessar pelo skate, suas únicas referências eram masculinas. Não porque ela admirasse somente o trabalho dos homens, mas porque não existiam mulheres no skate com o mesmo destaque recebido pelos homens. Se hoje já é difícil encontrar mulheres em alguns esportes, imagina há mais de 15 anos quando o acesso à informação era ainda mais difícil.

A paixão pelo skate nunca foi embora, apesar das dificuldades. No início, por falta de espaço e de categorias exclusivamente femininas, Karen competia com os homens. Conquistou inúmeros prêmios, entre eles a medalha de ouro no X Games, considerado as olimpíadas dos esportes radicais. Outras conquistas também vieram com o tempo, como o Campeonato Europeu e quatro vezes o Campeonato Mundial, sendo o mais recente no ano de 2014, um ano antes de engravidar de sua filha.

Aos poucos, com a maturidade e a paixão pelo esporte, ela foi incentivando outras meninas a encararem o skate de frente, o que mudou algumas coisas nas principais competições de skate. No ano de 2000, em mais uma tentativa de levar o esporte às mulheres, Karen participou da fundação da Associação Brasileira de Skate Feminino.

A falta de referências refletiu em todos os aspectos de sua vida, até mesmo na forma como ela se vestia. Karen já afirmou que para ser minimamente aceita dentro do esporte, ela precisava usar as mesmas roupas dos meninos, porque se fosse feminina ninguém a levaria a sério. Depois que passou a questionar isso, a skatista criou uma marca de roupas femininas de skate style e também uma linha de tênis femininos com um de seus patrocinadores. Engana-se quem pensa que essas roupas eram vestidos rodados. A preocupação da Karen sempre foi criar roupas confortáveis para a prática do esporte mas que se adaptassem à anatomia feminina.

Luta pela igualdade no esporte

Foto: Reprodução / Karen Jonz

Em janeiro deste ano (2018), aconteceu uma competição com dimensões enormes e que teve categorias femininas. Isso pode até ser motivo de comemoração em uma sociedade que dá tão pouco espaço para as mulheres. Deveria ser normal, o que infelizmente ainda não é. Mas a comemoração parou por aí, quando o prêmio em dinheiro dado a mulher vencedora da competição era três vezes menor que o prêmio recebido pelo homem ganhador em sua categoria.

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Karen se pronunciou e mostrou sua indignação com o ocorrido: “É esse ecossistema de desigualdade que faz com que muita gente do nosso meio ache que ‘tudo bem’ uma premiação pagar três vezes mais para o campeão masculino. Nós, mulheres, que somos as filhas de homens, irmãs, amigas, esposas, mães de homens, valemos tão menos assim?”

A skatista deixa claro que a igualdade dentro do esporte já está em um nível mais avançado, mas ela ainda não existe por completo. “Nossa luta é para que metade das pessoas que habitam desse planeta (mulheres) sintam-se tão capazes de seguirem seus sonhos quanto a outra metade (homens)!”, afirma a esportista.

Maternidade sem idealização

Foto: Reprodução / Karen Jonz

Além da sua carreira como skatista, Karen mantém um canal no YouTube, o “Garagem de Unicórnio”. Nele ela fala constantemente sobre maternidade de uma forma desromantizada. Casada com Lucas Silveira, vocalista da banda Fresno, Karen compartilha o dia a dia da família em vídeos bem humorados, mas que ao mesmo tempo quebram paradigmas.

Ela é um exemplo vivo de que se tornar mãe não significa perder a individualidade e que é possível se dedicar a outras tarefas. Karen incentiva muitas mulheres a retomarem suas atividades após virarem mães, mas deixa claro que está tudo bem se a mulher quiser se dedicar exclusivamente à maternidade. Na verdade, o que importa é fazer suas próprias escolhas.

O que você pode aprender com Karen Jonz

Foto: Reprodução / Karen Jonz

1. Se você não tem uma referência, seja uma

Nós não escolhemos do que vamos gostar e querer dedicar nossa vida e nossa história, mas nessa caminhada muitas pedras podem aparecer. No caminho de Karen, ela não achou referências logo de cara e nem por isso desistiu. Aos poucos ela foi encontrando outras mulheres com quem se identificava e hoje ela é um dos maiores nomes do skate no mundo. Imagina como é gratificante saber que você é referência e inspiração para alguém?

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2. Padrões não são para pessoas

Ela sempre gostou de “coisas de meninos”, o que fez com que muitos começassem a colocar até mesmo sua sexualidade em questão. Em seu canal no YouTube, ela diz que o processo de se aceitar pode ser doloroso, mas que isso pode encorajar outras pessoas também, criando uma rede de apoio mútuo. “Você não precisa abrir mão do que você é para ser feliz” – conselho preciosíssimo para anotar em um caderninho e ler todos os dias!

3. Acredite em você

A partir do momento que você decide fazer qualquer coisa que seja um ponto fora da curva, você vai passar por dificuldades. Ser a única menina no meio de um monte de meninos já fez a Karen passar por momentos duros e inesquecíveis – não no melhor sentido da palavra. Se ela não acreditasse nela mesma, ninguém mais iria acreditar. Tenha certeza de uma coisa: você é mais capaz do que imagina.

4. Adversária só existe na competição

Dentro da pista de skate existem adversárias, isso é fato. Mas essa “rivalidade” fica por lá. Há espaço para todo mundo e, principalmente entre as mulheres, é preciso criar uma rede de apoio. Lembra quando falamos sobre sororidade aqui? Ofereça ajuda às mulheres que estão ao seu lado, elas precisam assim como você.

A Karen é ou não é uma inspiração? Não existe nenhuma pessoa igual à outra nesse mundo, não precisamos caber em caixinhas que foram feitas para padronizar os indivíduos. Seja você mesma, lute por aquilo que ama e acredita e seja a referência que você ainda não encontrou.

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Assuntos: Mês da Mulher

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