Sociedade

A dororidade é uma importante ferramenta para dar voz às mulheres negras

Canva

Em 14.07.22

Dororidade é um conceito criado pela escritora Vilma Piedade para tratar dores, acolher e dar voz às mulheres negras para além de questões sobre o machismo e os direitos da mulher. A socióloga e ativista social Sara Araújo, falou sobre a sua importância e tirou as principais dúvidas sobre o assunto. Acompanhe!

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O que é dororidade?

Dororidade é um conceito importante para o feminismo, que vai além da luta contra o machismo, igualdade de gênero e direitos da mulher, pois acolhe especificamente as dores e vivências das mulheres negras, embasadas nas opressões de raça.

Segundo a socióloga, o termo “fala sobre o silenciamento das mulheres negras provocado pelo racismo e todas as violências causadas pela racialização, sendo o encontro das dores que somente as mulheres negras experienciam a partir do marcador racial”.

Quem é Vilma Piedade

Vilma Piedade

REPRODUÇÃO

Vilma Piedade é professora, escritora e autora do livro ‘Dororidade’, publicado em novembro de 2017, pela editora NÓS. Além de autora do livro, ela criou o conceito para dialogar com a sororidade e não para anular o termo. Visto que, segundo a autora, todas as mulheres sofrem com o machismo, cada uma com as suas dores. No entanto, o movimento feminista precisa olhar para a luta antirracista das mulheres negras.

“A sororidade parece não dar conta da nossa pretitude. Foi a partir dessa percepção que pensei em outra direção, num novo conceito que, apesar de muito novo, já carrega um fardo antigo, conhecido das mulheres: a Dor. Nesse caso, especificamente, a Dor que só pode ser sentida a depender da cor da pele. Quanto mais preta, mais racismo, mais dor”, diz Vilma em seu livro.

A escritora menciona em sua obra que muitas vezes se sentia excluída pelo movimento feminista moldado para a mulher ocidental, branca e de classe média. Em um trecho ela fala: “Sororidade une, irmana, mas não basta. O que parece nos unir, unir todas as mulheres, sem diferença de raça, classe, etnia, é a dor. Dororidade nasce na minha aposta, esperança, de ouvirmos mais umas as outras. Para construir um diálogo feminista com todos os tons de pretas”.

Dúvidas sobre o dororidade

Saber mais sobre o conceito é extremamente importante para olhar com mais sensibilidade para as mulheres negras e debater sobre dores que só elas experimentam. Dessa forma, a socióloga esclareceu as principais dúvidas acerca do conceito. Veja:

Dicas de Mulher – Qual a diferença entre dororidade e sororidade?

Sara Araújo – o conceito de sororidade une as mulheres no combate ao machismo, misoginia, sexismo e igualdade de gênero, mas deixa de fora o marcador de raça. Nesse sentido, a sororidade não acolhe as mulheres negras, que, além de sofrer com a questão de gênero, raça, classe e sexualidade, ainda têm contra si, o racismo.

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Citando Bell Hooks, Lélia Gonzáles, Beatriz Nascimento e Sueli Carneiro: enquanto as mulheres brancas estavam lutando para trabalhar e queimando seus sutiãs, as mulheres negras já estavam trabalhando, principalmente nas casas das mulheres brancas, cuidando dos filhos destas, enquanto deixavam seus próprios filhos à sorte. Assim, os direitos das mulheres negras não faziam parte da agenda das mulheres brancas.

Por este motivo, em 25 de julho de 1992, mulheres negras da América Latina e do Caribe se reuniram em Santo Domingos, na República Dominicana, para combater o racismo e o machismo e reivindicar políticas públicas para as mulheres negras e para a população negra. A data foi reconhecida pela ONU.

Por que a dororidade é uma forma de combate?

Porque luta pela dignidade das mulheres negras, pelo reconhecimento da humanidade dessas mulheres que ainda não são reconhecidas socialmente como dignas de direitos.

Qual a origem do termo dororidade?

O termo dororidade é um conceito cunhado pela teórica Vilma Piedade, a qual, em 2017, escreveu o livro ‘Dororidade’, pela editora NÓS/SP.

Por que a dororidade é tão importante?

Porque coloca na agenda pública e no debate público a luta e combate às violências direcionadas aos corpos de mulheres negras. Dessa forma, o termo tensiona uma disputa de narrativas e traz as mulheres negras para debater questões que somente atravessam seus corpos em razão do racismo. Ou seja, elas falam por elas mesmas, sem a necessidade de uma tutela, de interlocutores/as.

Por que ainda se fala pouco em dororidade?

Penso que se fala pouco sobre o conceito de dororidade porque ele foi cunhado por uma teórica negra, a sociedade brasileira insiste em negar o racismo e o feminismo neoliberal acaba contribuindo pela não popularização do conceito.

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Você acredita que compreender o que é dororidade pode contribuir para construir o Feminismo Interseccional Inclusivo? Qual sua opinião?

Penso que já existe uma compreensão do conceito, o que não existe é uma boa vontade de quem detém o poder da narrativa em deslocar o olhar para abraçar o pensamento, pois existe uma intencionalidade em promover o epistemicídio. Não tenho dúvida de que o conceito de dororidade só soma e não subtrai, uma vez que acolhe demandas de todos os corpos. Como já pontuou Angela Davis, “quando uma mulher negra se movimenta, toda a sociedade se movimenta com ela”.

Agora que você já sabe sobre o conceito de dororidade e esclareceu as principais dúvidas, veja a seguir vídeos que abordam o tema e complemente seus conhecimentos.

Vídeos e relatos sobre dororidade para conhecer sobre o assunto

A seguir, confira vídeos com informações extras e debates sobre a dororidade. Além disso, entenda a importância em falar das dores compartilhadas por mulheres negras:

Dororidade: a dor da mulher negra importa

Nesse vídeo, você confere uma explicação simples e objetiva sobre dororidade e a representação do feminismo nos anos 1980, bem antes da criação do termo. Esse vídeo é importante para entender como desde o princípio as mulheres negras precisaram lutar para ganhar espaço.

Literatura, escritas pretas e dororidade

Acompanhe nesse vídeo, uma live com Vilma Piedade, Alberto Rodrigues e Thainá Briggs. Eles falam sobre literatura, feminismo, mulheres negras, maternidade solo, experiências e dores. Vale a pena conferir, pois, há um rico conteúdo que pode complementar seus estudos sobre o assunto.

Dororidade e a esperança para mulheres negras

A professora Eliene Rosa, formada em Letras, aborda em seu canal no YouTube temas importantes sobre a população negra. Dessa vez, ela fala sobre dorororidade e discute sobre a libertação de corpos e mentes negras. Assista e entenda a importância de divulgar esse termo, para que outras mulheres negras se sintam acolhidas e representadas.

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Resenha do livro dororidade

Bruna Santiago, do canal Leituras Pretas, faz uma resenha sobre o livro lançado por Vilma Piedade e a criação do conceito dororidade. Então, se você ainda não leu o livro ou nunca se interessou por livros teóricos, confira algumas informações importantes sobre ele e se planeje para iniciar a leitura também.

Como visto, a dororidade não é só importante para o feminismo, mas sim para englobar questões vividas especificamente pelas mulheres negras, compreendendo e acolhendo as suas dores. Aproveite e conheça 15 livros feministas para aprimorar seus saberes sobre o movimento e suas temáticas.

Formada em Letras e pós-graduada em Jornalismo Digital. Apaixonada por livros, plantas e animais. Ama viajar e pesquisar sobre outras culturas. Escreve sobre diversos assuntos, especialmente sobre saúde, bem-estar, beleza e comportamento.