Casa e Decor

O artesanato pode ser um processo terapêutico e te conectar consigo mesma

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O trabalho manual pode auxiliar na expressão da subjetividade, traz benefícios à saúde mental e pode ser fonte de renda

Em 24.07.22

Não é de hoje que a arte é utilizada pela humanidade como uma forma de expressão de suas emoções e conhecimentos. Música, dança, escrita, desenho, pintura, esculturas, atuação, entre outras coisas, são a tradução de emoções e sentimentos que muitas vezes não conseguem ser transmitidos pela fala.

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O artesanato, por exemplo, ganhou até mesmo um olhar diferenciado e atento de teóricos da psicologia, tornando-se uma vertente dos processos terapêuticos, podendo ser utilizado em avaliações, tratamento, prevenção e reabilitação da saúde mental.

Sigmund Freud e Carl Jung, de acordo com um artigo, da psicóloga Alice Casanova dos Reis, foram os precursores do desenvolvimento da arte como instrumento terapêutico. No Brasil, os médicos, Osório César e Nise da Silveira, humanizaram o tratamento da saúde mental em instituições psiquiátricas por meio da arte, proporcionando a livre expressão da subjetividade.

Reis ressalta a arte como uma forma não só de expressão, mas também de reinvenção pessoal, pontua ainda que “o produto da criação artística é sempre um espelho que reflete e refrata de modo mais ou menos distorcido aquele que o criou, pois nele ganham forma seus desejos, emoções, sentimentos e ideias”, auxiliando assim na elaboração de conflitos, tal como a fala no processo de análise.

Pensando no contexto da arte como grande auxiliadora no desenvolvimento de saúde mental, atuando também no alívio do estresse e sintomas de ansiedade e depressão, o Dicas de Mulher conversou as artesãs, Manuela Pickert, que produz acessórios mediante a costura, e Kamila França, que realiza pintura em madeira e artes em lettering.

Artesanato como meio de atravessar momentos difíceis

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Inicialmente, ambas afirmam que sempre gostaram de realizar atividades manuais. Manuela, por exemplo, revela que já realizou cursos de produção de bijuterias e sabonetes, mas somente depois da pandemia buscou incluir o artesanato em sua rotina: “senti a necessidade de fazer algum trabalho manual diferente para distrair a cabeça e foi então que me aventurei a aprender a costurar”. Kamila, por sua vez, explica que foi após um workshop sobre lettering, indicado por uma amiga que se identificou com este tipo de arte e a implementou no dia a dia, inicialmente como um hobby.

As artesãs explicam que o artesanato ajudou-as a passar por momentos delicados de suas vidas, principalmente em relação às tensões do trabalho corporativo. “O tipo de trabalho que eu exercia antes era muito estressante por lidar com prazos apertadíssimos, horas extras frequentes e reconhecimento baixíssimo, então senti que precisava desacelerar a mente em algum lugar e, de preferência, longe de telas, já que eu trabalhava o dia inteiro em frente o computador”, esclarece Kamila.

Manuela afirma ainda que a arte atuou como um processo terapêutico em sua vida em diversos aspectos: “me ajudou a me reconectar comigo mesma, reavaliar o que eu gosto e o que eu quero fazer. A minha essência foi se perdendo ao longo dos anos e da rotina estressante do ambiente corporativo e o artesanato me ajudou a recuperá-la”.

Com isso, esclarecem brevemente como se sentem enquanto realizam o trabalho manual. “Ao longo do processo de criação e da arte finalizada dá uma sensação de dever cumprido, de objetivo alcançado, de orgulho do que eu posso e consigo fazer”, descreve Manuela. Por sua vez, Kamila conta que quando está criando tenta desligar a mente no intuito de afastar sentimentos negativos, e afirma com animação: “sempre que finalizo sinto alegria e satisfação de ter terminado e gostado do trabalho finalizado”.

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As artistas salientam que buscaram por esse instrumento terapêutico de maneira solo, sem um acompanhamento profissional que as orientasse nesse processo. Manuela, por exemplo, explica que iniciou o artesanato após perder o emprego durante a pandemia: “vi a necessidade de continuar ativa e produzindo alguma coisa, por estar me sentindo muito parada e inútil”. Contudo, ambas reconhecem a necessidade e a importância da psicoterapia, para além do artesanato.

Kamila, que hoje utiliza o artesanato como sua fonte de renda, conta que o artesanato para ela “significa mudança de vida e conhecer melhor quem eu sou e o que posso fazer a partir do nada”. Além disso, indica a arte, seja ela qual for, para as demais pessoas: “faça nem que seja para descansar a mente desse mundo acelerado, agitado e cheio de tela e informações, faz bem demais pra todos que praticam”.

Por fim, Manuela, que define o artesanato como “liberdade”, ressalta o quanto a arte a ajudou a lidar com seus conflitos pessoais: “o artesanato foi essencial para me ajudar durante o pico da pandemia, e sem dúvidas, até hoje, me faz sentir bem produzindo e vendo meu trabalho ser admirado por outras pessoas”. E a partir disso pontua: “se você tem uma vontade ou um sonho, vá em busca de aprender e fazer o que gosta, o que te traz alegria, o que te deixa satisfeita”.

Psicóloga apaixonada por literatura e psicanálise. Acredita que as palavras, escritas ou faladas, têm o poder de transformar.