COLUNA

Klara Castanho, os dias melhores virão

Klara Castanho

Em meio a tanta exposição, o exercício da empatia pode ser o caminho mais humano a trilhar

Atualizado em 01.07.22

As últimas semanas foram muito difíceis porque suportamos diversas dores. Ao ler notícias sobre violência, algo em nós, mulheres e feministas, dói de um modo muito mais intenso, porque temos consciência da nossa posição no mundo.

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Em um primeiro momento, acompanhamos o caso de uma jovem de 11 anos que foi estuprada e quase teve o direito ao aborto negado. Graças a uma juíza que, posteriormente, foi promovida.

Logo em seguida, a Suprema Corte dos Estados Unidos suspendeu o direito ao aborto, após 49 anos de legalização. Especula-se também a anulação do casamento homoafetivo e do direito a contraceptivos. Isso nos afeta no Brasil? Muito, afinal uma nuvem de conservadorismo vem tomando conta de todo mundo, suspendendo direitos importantes.

Quando estávamos nos recuperando dos últimos acontecimentos, a atriz Klara Castanho, em uma carta aberta no seu Instagram, disse que foi estuprada. Não porque gostaria de revelar essa situação traumática que viveu, mas porque foi exposta por profissionais de saúde, pela mídia e por diversas outras pessoas na internet e precisou dar explicações sobre isso.

Não quero repercutir a carta. Quero falar da dor e da empatia, esse exercício humano que podemos fazer em uma situação assim.

Coloque-se no lugar da vítima

Klara Castanho passou por muitos eventos dolorosos. O primeiro foi o próprio estupro em si, que causou dores físicas e emocionais. Lidar com isso, ter forças para procurar ajuda e tomar todas as medidas necessárias também é um movimento que exige esforço e machuca.

Descobrir estar grávida meses depois, mesmo tendo tomado uma pílula do dia seguinte é mais uma dor. Ter consciência de que um estupro gerou uma vida que você carrega em seu corpo violentado deve ser uma das situações mais dolorosas pela qual uma mulher pode passar.

Não bastasse isso, o próprio parto foi um momento doloroso. Era um bebê fruto de um estupro que dilacerou Castanho enquanto mulher. A jovem atriz, então, optou por entregar a criança à adoção mediante um processo completamente legal, do ponto de vista jurídico. Um ato de amor, pois não tinha condições de criar esse bebê, que merece ser feliz e protegido.

Além de ter de lidar com toda essa experiência, Castanho teve informações vazadas sobre sua situação por uma enfermeira a certos jornalistas – com os quais não vou gastar palavras. Passou também por agressões verbais de seu próprio médico. O hospital, que deveria ser um espaço de amparo e cura, tornou-se mais um transtorno.

A repercussão do fato acabou fazendo a atriz se pronunciar em uma rede social. Não porque ela queria revelar o fato e apresentar os pormenores, mas por que deseja ser respeitada, quer que sua privacidade seja mantida – e ela tem todo o direito a isso.

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A questão é que verbalizar toda essa sequência de atos dolorosos em uma carta aberta, na sua própria rede social, é relembrar o trauma, reviver cada momento do pesadelo ao qual foi submetida. Optar por não silenciar parecia ser a única coisa capaz de acalmar um pouco o coração de Klara quando inúmeras pessoas conspiravam e criavam versões acerca a violência sofrida por ela.

Uma mulher que toma decisões incomoda

Todas as atitudes da vítima, superexpostas por meio da mídia, foram questionadas e se tornaram alvo de discurso de ódio. Por que incomoda tanto ver uma mulher tomando decisões? Por que é tão difícil aceitar que uma mulher deva tomar decisões que correspondem ao seu corpo e a seu direito reprodutivo?

Na sociedade machista e misógina em que vivemos, parece inaceitável que uma mulher tome qualquer decisão, seja relacionada ao aborto, à adoção ou mesmo a se pronunciar sobre suas dores.

No entanto, enquanto isso, o autor desse estupro permanece anônimo e protegido. Sua ação violenta pouco foi questionada, sua identidade, informações pessoais ou qualquer coisa nesse sentido não circularam na mídia.

Mais uma vez, um homem permanece intacto, enquanto uma mulher é julgada e moralizada, enquanto deveria ser acolhida e respeitada em um momento de tanta fragilidade.

Aqui, quero declarar que admiro Klara Castanho. Não sei se eu e tantas outras mulheres ao meu redor teríamos metade de sua força para lidar com eventos tão traumáticos. Aos 21 anos, foi madura, sábia e amorosa ao decidir que aquela criança, mesmo sendo fruto de um ato que a dilacera, deve ter uma família e crescer em um lar afetuoso. Ela não tem culpa do que aconteceu – nem mesmo Klara -, e imagino que não seja fácil decidir não criar um filho.

Assim como dito em carta aberta, desejo à Klara que as lembranças dolorosas deixem de existir gradualmente e suas feridas sejam curadas. Espero que ela possa ser feliz e acreditar nas pessoas novamente. Que possa sorrir sem medo!

O tempo é um dos melhores remédios que se pode ter, ao lado do afeto que muitas de nós, mulheres, transmitimos à Klara. Dias melhores virão e ela ainda será mais gigante do que já é!

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Dicas de Mulher.

Editora-chefe do Dicas de Mulher, mestra em Letras, mediadora do clube de leitura #LeiaMulheres e autora do livro "O rio seco que vive em mim". Durante longo período, pesquisou sobre violência no Brasil. Gosta de planta, de bicho e de gente, mas ainda mais de histórias.