COLUNA

Violência em hospitais é reflexo da cultura do estupro

Estela Lacerda

Uma mulher foi vítima de um anestesista em um local que deveria ser de cuidado e acolhimento, mas, infelizmente, esse não é um caso isolado

Em 12.07.22

Desde criança, nunca gostei muito de hospitais. Enxergava aquele espaço como um lugar associado a coisas ruins: doença, sofrimento, angústia e ansiedade. Ao amadurecer, passei a enxergar de outro modo, como um espaço de cura e cuidado, onde também surgem vidas novas.

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Não foi essa visão de hospitais, construída já na vida adulta, que tive ontem. Então, lembrei como eu enxergava esses lugares quando era criança: com medo. Talvez não seja tão errado assim pensar que crianças são mais sábias que nós. Ainda assim, eu queria que, nesse caso, a criança em mim estivesse errada.

A semana começou com mais uma notícia de estupro, depois do caso de Klara Castanho e da menina de 11 anos, ambos recentes. O médico anestesista Giovanni Quintella Bezerra foi preso por estuprar uma mulher completamente dopada durante uma cesárea, no Hospital da Mulher, em São João de Meriti, RJ.

Enfermeiras da unidade de atendimento estavam desconfiadas de Bezerra. Decidiram, então, filmar o anestesista às escondidas. Assim, ele foi flagrado colocando o pênis na boca da paciente enquanto ocorria a cirurgia. Depois foi visto limpando os vestígios do crime.

Vale deixar claro, para não restar nenhuma dúvida sequer, que estupro se trata de “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal, ou a praticar, ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”, conforme o Código Penal.

Ou seja, independentemente de não haver lesão corporal grave, o ato de Bezerra é considerado estupro, uma violência contra uma mulher que não podia sequer se defender porque nem tinha consciência do que acontecia ao seu redor. Ele a estuprou no ápice de sua vulnerabilidade.

Mas esse não é um caso isolado. Uma reportagem recente do ‘UOL’, mostra que, entre 2018 e 2020, houve um registro de estupro a cada 13 dias em ambientes de saúde em São Paulo, como hospitais, postos de saúde, clínicas psiquiátricas e consultórios. As idades das vítimas variam entre 1 a 68 anos.

Em 2019, o jornal ‘The Intercept Brasil’ também conduziu um levantamento significativo sobre a violência sexual em instituições de saúde. Entre 2014 e 2019, em nove estados brasileiros, foram registrados 1.734 casos.

Cultura do estupro

Os casos recentes e os dados de violência sexual em unidades de saúde mostram que vivemos em uma sociedade formada pela misoginia, que propaga a cultura do estupro com naturalidade.

Meninas e mulheres têm seus corpos objetificados desde muito cedo, desumanizando-as enquanto seres humanos. Nem os homens, nem as leis nos enxergam como donas dos nossos corpos de modo a poder dizer o que pode ou não ser feito com ele e a partir dele.

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A violência de um homem contra uma mulher é naturalizada, a ponto de ele mesmo não interpretar tal ato como violência. Isso parte, sem dúvidas, da percepção machista de que ele é superior a meninas e mulheres e que não é necessário consentimento, não aceitando um “não”. A radicalização disso é se sentirem no direito de violentar mulheres em total estado de vulnerabilidade e fragilidade.

Diante disso, falar sobre a cultura do estupro e conscientizar meninos e homens é urgente. Meninas e mulheres devem ter direito a seus corpos e nenhuma de suas atitudes deve ser usada como prerrogativa para culpabilizá-la de uma violência sofrida.

Não vejo outro caminho para isso senão o diálogo e a educação sexual nas escolas e na família. Falar sobre cultura do estupro e suas implicações são os primeiros passos para desconstruir uma sociedade misógina e machista.

Espero, ainda, poder olhar os hospitais como um espaço seguro e de cuidado novamente. Deixo também meus parabéns às enfermeiras pela coragem de lutar por justiça. E um abraço, muito afetuoso e acolhedor, a essa mulher, mais uma vítima de estupro no Brasil.

Por fim, torço para não termos medo de denunciar agressores. Que consigamos falar de nossas dores e possamos usar nossas vozes para auxiliar mulheres silenciadas.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Dicas de Mulher.

Editora-chefe do Dicas de Mulher, mestra em Letras, mediadora do clube de leitura #LeiaMulheres e autora do livro "O rio seco que vive em mim". Durante longo período, pesquisou sobre violência no Brasil. Gosta de planta, de bicho e de gente, mas ainda mais de histórias.