COLUNA

Tudo o que tenho levo comigo – ou não?

Thays Pretti

Uma breve reflexão sobre mudanças e nossa capacidade de fluir com elas

Em 25.08.22

Mudanças sempre foram difíceis. Mudei muito de casa quando criança e adolescente, o que me entranhou uma sensação de não pertencimento. Ela se alastrava milímetro a milímetro pelas paredes e por dentro de mim cada vez que eu chegava a um novo lugar. Era uma coisa incerta, a aparência fria e distante das paredes como a de um quadro com o qual eu distraidamente me deparasse em um museu. A cada nova casa, lá estava eu diante de sua exasperante impessoalidade, como a aspereza crua de uma folha em branco.

Não me sentir própria de lugar nenhum me lançou nesse permanente estado de dúvida, nessa constante busca pela resposta à pergunta: “onde é o meu lugar?”. É uma questão que me povoa. Recentemente, fiz um mapa astrológico bem completo e descobri que não tenho quase nada nos signos da Terra. Deve vir daí minha carência em ter raiz: uma necessidade de me agarrar ao chão, um medo quase herdado de voar. Por outro lado, a maior parte dos meus planetas estão em signos de Ar. Será que isso não deveria me dar mais asa? Não sei.

Infelizmente para mim, porém, mudanças ocorrem. Aliás, parece mesmo que me perseguem. É um rearranjo para melhor adaptação às circunstâncias do momento, é um reajuste abusivo de aluguel, é um dono de imóvel que pede a casa de volta. Mudanças sempre ocorrem.

Minha mais recente foi na semana passada. Ainda estou recolocando livros nas estantes, arrumando miudezas. É provável que eu leve o mês inteiro até deixar tudo em ordem. Antes disso, passei cerca de um mês encaixotando coisas. E essas coisas – ah! como eu me apego a elas. Sem ter um ninho, sempre precisei de um algo para chamar de meu, para ser meu lugar, mesmo estando frequentemente em trânsito.

Meus livros, roupas e penduricalhos acabaram cumprindo essa função: onde eles estivessem, eu estaria. Uma vez, li o título de um livro da Herta Müller que me impactou muito nesse sentido: ‘Tudo o que tenho levo comigo’. Nunca fui atrás da sinopse, mas me senti identificada. Meu desejo de morar nas coisas que eu carregava e que fariam da nova casa um lar ressoava nessa expressão. Eu seguia, me movendo como uma andarilha que arrastasse um carrinho de compras e um cachorro por onde fosse.

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Porém, tendo mudado três vezes de casa nos últimos três anos, acabei entrando em um processo… inesperado. A ‘revelação’ começou com os livros. Ainda não contei quantos volumes tenho, mas devo estar em torno de 800. É uma bela biblioteca, que tenho construído no decorrer dos anos e da qual me orgulho bastante. Porém, se no primeiro semestre de 2022 eu li trinta livros, de quantos anos eu precisaria para dar conta de ler toda essa estante? Essa pergunta ficou girando na minha cabeça enquanto eu carregava minhas pesadíssimas caixas elevador abaixo e casa nova adentro.

Além disso, essa percepção me mostrou que há livros os quais eu tenho carregado mudança após mudança sem lê-los ou manuseá-los de outro modo que senão para tirar e recolocar na estante. E isso não se deu apenas em relação a eles. Também com roupas, calçados, móveis, enfeites, coisinhas de cozinha, tanta coisa não utilizada, tanta coisa apenas carregada de um lado para o outro – vai que eu preciso?

Então, de uma hora para outra, comecei a experimentar uma espécie de desapego que nunca senti. O sentimento ainda é tímido, vai e vem em ondas. Às vezes me vejo visceralmente apegada a uma caneca trincada, às vezes acho que poderia viver viajando em um trailer, apenas com uma mochila de roupas. Porém, no meio da movimentação desse descontrolado pêndulo, comecei a pensar em algo sobre o que eu não havia pensado antes: na possibilidade de que meu lar, o lugar ao qual eu sempre desejei tanto pertencer, seja justamente… o trânsito. A mudança, o caminho, em suma, o voo, para o qual sempre achei que não tivesse asa o suficiente.

É curioso perceber que eu não preciso de tudo o que eu tenho, mas ainda mais curioso é notar que eu sou meu lar, e que, nesse sentido, posso estar em casa onde eu estiver – e mesmo nos caminhos, que são, a princípio, não lugares. Eu sei, soa uma conversa meio good vibes, new age, forças astrais. Também não gosto muito dessa energia, entendo e respeito você torcer o nariz. Eu torceria.

Ao mesmo tempo, eu sou, sim, meu próprio lar. E acho que posso experimentar habitar mais o movimento do que um espaço. Não que eu não queira um teto, um quarto e roupas de cama macias e lisinhas. Mas pode ser que, depois de sofrer tanto com mudanças, e de, como um Sísifo moderno, carregar livros montanha acima, só para vê-los rolando montanha abaixo na sequência, eu esteja entendendo o que o Universo quer me ensinar com essas experiências todas. Talvez o meu lugar seja justamente o não lugar.

Sei que parece uma ideia estranha. Deixo claro também que nem sou do tipo, nem tenho idade para nomadismos. Mas abraçar o caos e as mudanças que sempre me alcançam talvez seja uma forma mais inteligente de habitá-las do que resistindo e me agarrando ao que não pode ser controlado.

É muito mais uma questão de deixar os acontecimentos fluírem e perceber a beleza que resulta dessa constante ciclicidade da vida. Entender o desgaste das coisas, a sujeira que se acumula, as revoluções e as renovações que são necessárias. Lembrar que primeiro vem a semente, depois a planta, e a flor, e o fruto, e o nada, seguido então pela nova semente. Talvez assim, com essa consciência, onde quer que esteja, eu reencontre minha casa, no meio desse processo de revolver a nudez dos novos espaços habitáveis, dia após dia, mês após mês, ano após ano.

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Desse modo, mesmo sendo sempre outra, toda casa pode ser tão minha conhecida que se torna algo como uma parte de mim. Uma parte viva e pulsante que deixo para trás ao sair.

E apago a luz.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Dicas de Mulher.

Escritora, autora de "A mulher que ri", "Efêmeras" e "Do Silêncio". Apaixonada por Clarice Lispector, clubes de leitura e pessoas. Gosta de listar coisas de três em três. Escrevo a newsletter Versilibrista.