COLUNA

Trabalho doméstico familiar é coisa de mulher?

CANVA

Muitas vezes, o trabalho doméstico em uma família fica a cargo da mulher e, infelizmente, ainda não é uma profissão reconhecida

Em 04.07.22

Beatriz não trabalha. Ela apenas cuida da casa, das crianças e da mãe idosa e adoecida que compartilha o domicílio. Limpa e organiza a casa, lava a louça, faz compras, cozinha, lava e passa a roupa, cuida, educa e brinca com as crianças, acompanha suas atividades escolares, leva-as ao médico, administra os remédios da mãe e lhe faz companhia, faz compras de roupas e calçados para toda a família, agenda e acompanha a manutenção dos eletrodomésticos e faz todo o planejamento da casa.

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Se você cansou de ler essa enorme lista, ainda que incompleta, imagine como se sente Beatriz após executar diariamente todas essas atividades: ela fica extenuada. Mas como ela se ocupa do trabalho doméstico familiar, todo mundo diz que ela não trabalha. Quando o marido chega em casa, Beatriz reclama e ele diz: “Do que está cansada, se passou o dia todo em casa?”.

Essa talvez seja a rotina de muitas mulheres – inclusive das que trabalham fora, uma vez que fazem jornada dupla.

Apenas características biológicas, como a capacidade de gerar filhos ou a menor força física, justificam a naturalização dessa condição para as mulheres? Obviamente, não. São as convenções sociais que determinam que o cuidado com a casa, com os filhos, os doentes e os idosos recaiam mais sobre elas. A divisão sexual do trabalho é uma circunstância histórico-social e não tem relação com a natureza biológica feminina e/ou masculina.

Coisa de mulher X coisa de homem

Os papéis estereotipados do que se convencionou chamar “coisa de mulher” e “coisa de homem” são incutidos desde a infância. As meninas brincam, sobretudo, de “casinha” e de boneca, aprendendo os afazeres domésticos e o cuidado com as pessoas. São ensinadas a arrumar suas camas, limpar a casa, lavar a louça, ninar os bebês e cozinhar para todos. Enquanto isso, os meninos brincam na rua, de bola, de “carrinho”, de “lutinha”, de ser cientista e bombeiro. É um ciclo que desde a infância estabelece a desigualdade de gênero, e inclui também a ideia de que meninos vestem azul e meninas vestem rosa.

Quando os homens realizam os afazeres domésticos, geralmente se percebem “ajudando” a mãe ou a esposa. Aquilo que deveria ser uma obrigação, visto que tais homens também moram ali, passa a ser tomado como uma “virtude”, um “diferencial”. O mesmo não ocorre com as mulheres.

Os homens até têm se envolvido mais com as atividades da casa e dos cuidados com os filhos, idosos e adoecidos, mas ainda estamos longe de ver equidade de gênero nesse movimento. Eventualmente, eles realizam pequenos reparos nas residências, levam o lixo para rua, cuidam dos jardins, dos carros, vão ao supermercado, à farmácia, realizam o pagamento de contas e algum lazer com os filhos. Esses trabalhos são menos exaustivos, descontínuos e realizados, na sua maioria, fora da residência.

O trabalho em casa, repetitivo, invisível, de longa jornada e exaustivo, continua sendo realizado pelas mulheres. Sobrecarregadas, elas sentem os efeitos físicos e psicológicos negativos que, quase sempre, resultam em obstáculos ao desenvolvimento das suas carreiras profissionais.

Embora desvalorizado, o trabalho doméstico familiar é um pilar fundamental da economia por garantir condições mínimas para que os integrantes da família possam sair, estudar ou exercer suas profissões.

Quando comecei a escrever sobre esse tema, me lembrei do livro ‘A vida invisível de Eurídice Gusmão’, de Martha Batalha (2016). No romance, Eurídice sonha ser pianista, porém acaba sendo uma “boa esposa” e uma “dona de casa exemplar”. Sua vida foi limitada e invisibilizada. Embora a história se passe no Rio de Janeiro dos anos de 1940/50, Eurídice ainda é, infelizmente, uma personagem possível no século XXI.

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Como valorizar o trabalho doméstico?

Penso que algumas ações poderiam ser desencadeadas no sentido da valorização e do compartilhamento do trabalho doméstico familiar. Como transformar essa atividade numa profissão reconhecida na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), adotada pelo Ministério do Trabalho e Previdência; atribuir a ela uma remuneração mínima e criar condições para que as mulheres possam se aposentar por terem desempenhado por décadas essa função; oferecer aos homens licença paternidade igual à licença maternidade; instalar mais creches públicas de qualidade e oferecer auxílio-creche; bem como organizar restaurantes e lavanderias públicas que contribuam para diminuir o labor nas residências.

Além dessas e outras mudanças, seria necessária uma transformação cultural que talvez até já esteja em curso, mas ainda é muito lenta.

Nesse cenário, penso sempre no importante papel das escolas públicas. São elas que mais colaboram para a quebra dos conservadorismos e discriminações que existem nas famílias e na sociedade, em geral. Elas desempenham papel importante na construção da igualdade de gênero e na mudança dos padrões estabelecidos pela sociedade. Podem ser um espaço de práticas de respeito a todas as diversidades.

Nas escolas, é possível ensinar que meninos e meninas podem brincar daquilo que mais lhes agradar, e podem experimentar inúmeras brincadeiras novas, ampliando seus repertórios culturais e possibilitando que as crianças vivenciem papéis, situações, ações e movimentos dos mais diversos.

Não posso terminar esse texto sem recomendar o livro ‘Para educar crianças feministas’ (2017), da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. A escritora apresenta conselhos sobre como oferecer uma formação igualitária a todas as crianças. É um livro basilar para quem quer educar seus filhos para o mundo contemporâneo. Um mundo em que cuidar da casa, dos filhos, doentes e idosos não deve ser somente “coisa de mulher”.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Dicas de Mulher.

Doutora em História, mestra em Educação e graduada em Pedagogia. Professora aposentada pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mantém-se na luta cotidiana pela educação de qualidade, democrática e para todos.