Opinião

Shakira anunciou separação e nós precisamos normalizar términos

Relacionamentos não precisam ter fins trágicos, terminar não significa dar errado e uma separação pode deixar uma mulher (ainda mais) incrível

Shakira

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Atualizado em 01.07.22

No fim de semana, a internet estava chocada com a separação da cantora Shakira e o jogador de futebol Piqué, após 12 anos de relacionamento. Claro que as pessoas queriam imediatamente saber qual era o motivo do término. Parece que quando o assunto é terminar uma relação, espera-se um dramalhão estilo novela mexicana – mais ainda se há famosos envolvidos.

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Logo surgiram as primeiras hipóteses sobre traições e de uma vida, digamos, libertina que o jogador estaria levando. Um jornal até anunciou que Shakira estava sendo hospitalizada com crises de ansiedade devido ao momento que está vivendo – e a cantora estava apenas acompanhando o pai, que sofreu um incidente. Outro veículo ainda apresentou os bens de milhões dos dois.

O ex-casal foi gentil ao informar à imprensa que a separação era oficial. Explicaram estar fazendo isso pensando no bem dos filhos e queriam que a privacidade da família fosse respeitada.

Mais fofocas sem muito fundamento devem estar rodando por aí, mas deixo isso para você buscar. Meu assunto aqui é outro. “Da maior importância”, como diria Caetano Veloso. Precisamos normalizar términos de relacionamento. No fundo, eles nos fazem bem. Mesmo sendo difícil perceber isso de imediato.

Ah, e os fins não precisam ser trágicos! Podem acontecer numa relax, numa tranquila, numa boa, como diria Tim Maia.

Separação e amor romântico

Cresci assistindo novelas e lendo romances açucarados, até certa altura da vida, na biblioteca do bairro. Lembro dos finais de relacionamento repletos de drama, seja em casamentos ou namoros. Era mais ou menos isso que todos nós gostávamos de encontrar nessas narrativas. A vida acontecendo. Casais se formando e/ou se distanciando, enfrentando seus dilemas, com outros acontecimentos aqui e ali, no trabalho, com amigos, vizinhos etc.

Não muito longe das narrativas ficcionais, na vida real – que é às vezes muito mais absurda – via também términos de pessoas próximas, com a mesma colher de drama. Em alguns casos, cheia demais. Então, ao longo dos meus relacionamentos, pensei que terminar sempre seria assim: com brigas, com desafetos e uma mochila de traumas.

Mais do que isso: achava que um término me destruiria toda por dentro. Seria difícil me curar, superar. Acredito que isso era reflexo de muitos rocks tristes que ouvia na adolescência. Talvez seja mesmo assim, até que tenhamos alguma maturidade.

Acredito que temos uma visão muito romântica do que são os relacionamentos e isso acaba influenciando como encaramos separações. Crescemos acreditando que não podemos estar sozinhas e passamos a vida em função de encontrar um amor. Quando encontramos, colocamos essa relação como elemento central das nossas vidas, ou seja, ela é o que mais ocupa nosso tempo.

Chamo isso de hierarquização de relações: o companheiro ou companheira no topo das relações, no centro, enquanto outras são postas abaixo na escala de valorização afetiva. No entanto, não acredito que seja uma maneira saudável de vivenciar um relacionamento. É preciso horizontalizar nossas relações e colocar namoros ou casamentos na mesma linha de importância das amizades, por exemplo.

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Com isso, separar-se de alguém é permitir que esse outro(a) possa partir sem grandes ruídos. Sem que sua vida se torne um vazio sem fim. É olhar para suas outras relações, amigos e/ou familiares, e pensar: não estou só, eu tenho essas pessoas comigo. O que não quer dizer que terminar uma relação não seja um processo doloroso, porque é, independentemente de quem tenha tomado a iniciativa.

Esse relacionamento deu errado ou deu muito certo até aqui?

Outro ponto é que essa ideia romântica do(a) parceiro(a) amoroso como grande evento de nossas vidas acaba enxergando um término como “uma relação que deu errado”. Será que deu?

Voltemos à Shakira e Piqué como exemplo – depois falo até de mim, para criarmos uma proximidade maior. Foram 12 anos de relacionamento, e o término aconteceu porque era melhor assim. Não enxergo uma relação tão duradoura como algo que deu errado. Durante mais de uma década ela existiu, isso não é pouco.

Shakira nunca me disse, mas aposto que tiveram momentos de muitas alegrias, de companheirismo e, o mais importante, de crescimento e amadurecimento, coisas que uma relação costuma proporcionar.

A relação deu certo e, quando parecia não funcionar mais, ela deixou de existir. Isso precisa ser normalizado. Não porque eu quero. Mas porque é um modo mais leve e afetuoso de encarar nossas relações, sem causar grandes dores, que podem nos amargurar e persistir por anos.

Me separei em março de 2021, após um relacionamento de seis anos. Na época, foi um término sem grandes ruídos e, talvez por isso, causou estranhamento. Terminamos da maneira mais amigável que pudemos e que nossa maturidade permitiu. Auxiliamos um ao outro nessa transição para novos lares. Assim, cada um teria um lugar confortável para iniciar uma nova etapa da vida.

Pessoas diversas me perguntaram na época: “Mas o que deu errado?”. Não tinha nada de errado. Houve muito respeito, amizade, crescimento. E houve um término. Porque não éramos mais compatíveis – algo bastante normal em relações longas. Com o passar dos anos, mudamos quem somos, o que queremos, revemos nossos objetivos, nossos sonhos, nosso estilo, entre outras coisas.

Muitas vezes, o olhar romântico que lançamos aos nossos relacionamentos não nos permite entender que não somos donos de ninguém e que o amor pode ser intensamente verdadeiro, mesmo que a relação acabe. Por exemplo, amei muito meu ex-companheiro e fui a melhor pessoa que consegui ser na época. O que não significa que não falhei, que ele não falhou. Falhamos juntos – e isso é ser um humano.

Esse amor pode ainda existir em outros formatos. Podemos amar cada pessoa que passou pela nossa vida, nos transformando em seres melhores. Por que não amar quem nos permitiu ser isso ou aquilo sem receios? Por que não amar alguém com quem construímos uma relação de afeto e empatia?

O amor não precisa estar em nossas vidas apenas romanticamente. Entender isso é primordial.

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A separação pode ser “up” na vida de uma mulher

Quero terminar essas palavrinhas de hoje com um ar de graça. Shakira não é a primeira mulher no mundo a se separar, nem eu, nem minhas amigas. Ela vai sofrer, todas nós já sofremos. Isso é tão comum hoje quanto mudar de carreira – e não falo de modo pejorativo.

Fico contente de ver que as pessoas não estão se prendendo a casamentos infelizes por anos. Simplesmente para manter as aparências, por causa de filhos ou qualquer coisa nesse sentido – isso, sim, é viver um relacionamento que deu errado.

Sou totalmente favorável às separações! Acredito até que elas podem dar um up na vida de uma mulher, transformando-a em uma mulher mais incrível do que é. Como assim? Explico!

A separação como um evento positivo na vida de uma mulher já foi assunto entre as minhas amigas, em cafés da tarde, almoços e, claro, nas idas aos bares. Chegamos a cogitar um podcast para levar nossas discussões para além da nossa bolha – mas quem já não pensou nisso depois de uma conversa profunda e engraçadinha, né?

O fato é que tanto eu quanto minhas amigas nos tornamos mulheres muito mais fortes e donas de si após separações. Também compartilhamos sentimentos semelhantes no que diz respeito a como nos sentimos logo depois de um término.

Foram comuns questionamentos como “O que será de mim sem ele(a)?”, “O que era eu, o que era ele(a)?”, “Será que dou conta de seguir minha vida e todos meus projetos, sem o suporte dele(a)?”, entre outros.

Em um primeiro momento, com uma dorzinha bem alojada no peito, parece que nada vai ser possível. Parece que temos a possibilidade de desabar. Porque vivemos com a ideia de que precisamos ter um companheiro – um homem – para conseguir crescer na vida e alcançar nossos objetivos.

A verdade é que, depois que a nuvem de pessimismo se vai e nasce aquele solzinho gostoso, bem vibe de domingo, tudo muda. A chave vira!

Não percebemos que damos conta de tudo sozinhas, pelo contrário. Nos damos conta de que o suporte verdadeiro está nas amizades ou até mesmo na família – se você tem uma boa relação com a sua. Lembra o que falei de horizontalizar as relações? Pois bem.

Eu e as mulheres que conheço crescemos muito com nossas separações. Nós percebemos, com amparo umas das outras, que somos ainda mais independentes e potentes. Eu, particularmente, vi cada uma se tornando uma mulher ainda mais admirável e repleta de amor por si, por seu corpo, ideias, talentos etc.

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Trabalhamos, somos assertivas, tomamos decisões, temos nossas casas, saímos para nos divertir, investimos tempo de qualidade em atividades que amamos, temos hobbies e nossas criações, artísticas ou não. Também nos descobrimos mulheres mais atraentes e interessantes, independentemente de qualquer padrão de beleza que a sociedade queira impor.

Isso é muito bonito. Aprendemos a acolher nossas qualidades e também nossas imperfeições. Nos amamos mais e aprendemos que nossas relações precisam existir até onde o afeto recíproco tenha morada. Até quando o casal carrega um sorriso leve e bobo no rosto, ao andar juntos por aí.

É por isso que reforço: sou favorável às separações.

Por fim, digo que ofereceria meu ombro à Shakira, mas estamos longe – e acredito que ela tem boas amigas. Aposto que em breve ela estará circulando por aí mais incrível do que nunca!

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Dicas de Mulher.

Editora-chefe do Dicas de Mulher, mestra em Letras, mediadora do clube de leitura #LeiaMulheres e autora do livro "O rio seco que vive em mim". Durante longo período, pesquisou sobre violência no Brasil. Gosta de planta, de bicho e de gente, mas ainda mais de histórias.