Opinião

Por que é importante ‘Pantanal’ falar sobre relacionamento abusivo?

A novela do momento mostra que relacionamentos são complexos e que sair de uma relação abusiva é um processo lento, doloroso e repleto de incoerências

Reprodução / Rede Globo

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14.06.22 às 9:11

Há muito tempo uma novela não atrai atenção de tantas pessoas como ‘Pantanal’, da TV Globo. O remake, baseado na novela de 1990, da TV Manchete, está não só na sala das casas das famílias tradicionais, mas também de jovens de diversas faixas etárias, que falam da trama em todas as redes sociais.

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E qual é o segredo desse sucesso? Além de o enredo ser bem construído e contar com ótimas atuações, ‘Pantanal’ se destaca por seus personagens complexos, com histórias que nos representam ou nos fazem refletir sobre nossas próprias vivências. Trinta anos se passaram desde a primeira exibição e a trama se moldou conforme a sociedade contemporânea. Nesse sentido, aborda temas como homofobia, machismo e relacionamentos abusivos.

O assunto de maior destaque nas últimas semanas são as atitudes da personagem Maria Bruaca, carinhosamente chamada de Mary Bru nas redes sociais. Isolada em uma fazenda no pantanal brasileiro, sua vida se resume a satisfazer o marido, Tenório, um homem insensível e até bruto. Para agradá-lo, por exemplo, não questiona suas ausências injustificadas porque parece acreditar que isso ajuda a manter seu casamento e faz parte da sua obrigação como esposa.

Além disso, enquanto mulher, tem pouca voz. Seu papel no casamento não é opinar ou tomar decisões, mas zelar pela casa e família. Mesmo que não concorde com os mandos e desmandos de seu marido, acata às suas ordens e silencia, deixando de lado seus desejos, crenças e emoções.

Contudo, a presença da filha, recém-chegada de São Paulo, mexe com a vida de Maria. Guta não aceita que a mãe seja maltratada por Tenório. Com pensamentos mais modernos e desconstruídos, busca fazer a mãe perceber que está em uma relação abusiva e enxergar que vive infeliz e alienada do mundo. Também questiona que a mãe seja chamada de “bruaca”, uma vez que o termo tenha conotação bastante pejorativa, referindo-se a uma mulher desleixada, feia e velha.

Mary Bru começa a olhar para sua relação e para si mesma

A descoberta de uma traição de Tenório foi o estopim para Maria começar a mudar. A partir de então, tomou atitudes que mostram a complexidade que é estar em uma relação abusiva. Por um lado, ficamos felizes de vê-la deixar o marido e filha em casa e sair para passear, sem se preocupar como vão se alimentar. Vibramos ao observá-la de cabelos soltos, deixando o lugar de dona de casa submissa de lado.

Por outro, observamos a personagem em busca de trair Tenório com Levi, sentindo-se satisfeita por isso, mas arrependendo-se logo em seguida. O sentimento de culpa corrói, ao mesmo tempo em que ela percebe que precisa se libertar da relação tóxica que vive.

Esses dois lados de Maria Bruaca mostram a complexidade que permeia a personagem. Isso é bastante positivo, visto que, ao longo de muitos anos, personagens femininas eram construídas de modo raso, sem grande densidade psicológica, em diversos formatos narrativos – não só nas novelas.

Além disso, ‘Pantanal’ nos mostra o quanto é difícil sair de um relacionamento abusivo. Trata-se de um processo lento, com muitos altos e baixos. Maria Bruaca se encontra nos primeiros estágios, ou seja, naquele momento em que percebeu que há algo de errado e precisa se libertar de uma relação nada saudável.

E por que é tão importante a Globo apresentar esse tema em uma novela que milhões de brasileiros assistem?

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Todas nós já vivenciamos relações abusivas

Se você nunca viveu uma relação abusiva, fico muito feliz, mas infelizmente não é a realidade de muitas mulheres. É comum nos darmos conta de que vivenciamos situações tóxicas em uma relação apenas tempos depois, em uma conversa com uma amiga, fazendo terapia, ou vendo alguém viver algo que você já passou e que, olhando agora de fora, parece inaceitável.

Abusadores costumam afetar psicologicamente suas companheiras. Muitas vezes, são manipuladores, machistas e nos fazem duvidar até da nossa sanidade mental. Assim, passamos a olhar menos para nós mesmas e desconfiamos das nossas percepções sobre isto ou aquilo. “Será que estou paranoica? Será que enlouqueci?”.

Nessa cegueira causada pelo relacionamento abusivo, vamos abrindo mão do que gostamos, do que somos ou poderíamos ser um dia. Deixamos de vivenciar experiências novas e acabamos nos privando até mesmo de atos prazerosos.

Passamos a viver daquilo que o outro nos apresenta como certo, como ideal. Isto é, começamos um processo de apagamento de quem somos. Com isso, a tendência é nos tornarmos dependentes emocionalmente do outro. Como se não pudéssemos viver sem aquela pessoa e não houvesse outras maneiras de existir que não fosse ao seu lado.

Estar nesse lugar é um processo destrutivo e ter força para conseguir sair dele é muito difícil. É por isso que assistimos à Maria Bruaca sendo incoerente em diversas situações e até ficamos revoltadas com alguns de seus atos.

Vê-la vivendo situações abusivas na novela pode ser uma porta de entrada para reflexão. É possível que um rompante de consciência surja nos alertando para: eu também vivo essa situação, ou eu também vivi isso.

Essa percepção é um acontecimento que pode fazer uma vítima de relacionamento abusivo começar a dar seus primeiros passos para a libertação. Pode ser que uma cena de novela torne-se o pontapé inicial para identificar algo errado na relação, ou que a pessoa precisa de ajuda.

Acompanhar a trajetória de Maria Bruaca também pode nos deixar mais vigilantes no que diz respeito às relações futuras, para que olhemos para nós e para nossos afetos com atenção aos detalhes.

Não que devamos viver em estado de alerta, porque isso não nos deixaria vivenciar verdadeiramente nossos sentimentos. Ainda assim, é importante sabermos lidar com ações que nos incomodam, entender por que nos incomodam e o que vamos fazer a partir desse incômodo.

Como lidar com um relacionamento abusivo?

Todo mundo tem ou já teve uma amiga Mary Bru – ou já foi essa pessoa. Julgamentos e condenações pelas atitudes erradas não levam a lugar nenhum nesse momento de busca por cura e libertação. O importante é estar presente para acolher, dar suporte, ouvir, mesmo que se ouça a mesma história repetidas vezes.

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A vítima de um relacionamento abusivo precisa falar, precisa de escuta sensível. Calar só aumenta a ferida invisível que carrega dentro de si, que infelizmente vai crescendo e corroendo a alegria, a paixão pela vida e o desejo de se relacionar novamente, dando lugar à insegurança, ao medo e ao bloqueio afetivo-emocional.

Nos resta sermos ouvintes e suporte, sem julgamentos. Oferecer um colo, um ombro e dizer frases simples, como “Eu estou aqui”, “Eu te entendo” e “Conte comigo”, pode ser a luz no fim do túnel, a saída de emergência, o respiro em meio ao caos.

Não existe receita de bolo para lidar com um relacionamento abusivo. Não existe porque somos seres humanos e, como tais, construídos por uma série de complexidades. Mesmo que houvesse uma forma exata de lidar com esse problema, não seria eu a pessoa mais indicada para isso, mas, sim, uma terapeuta.

Eu vivi relacionamentos abusivos e também fui abusiva em determinadas situações ao longo das minhas relações. Acredito que o mais importante é saber olhar para nós mesmas. Buscar compreender o que nos agrada ou não em nossas trocas afetivas e, a partir disso, tentar entender as razões que movem isso.

Olhar o outro também é importante, é claro, mas somos nós mesmas que vamos dar os sinais mais importantes. Atente-se a si, não ignore suas reações, seus sentimentos e emoções – e não deixe de falar sobre elas com quem confia.

Espero que ‘Pantanal’ continue mostrando às mulheres de diversas idades e realidades sociais que olhar para suas relações e para si mesmas com atenção é um ato de autocuidado – e que nunca, nunca é tarde para fazer isso!

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Dicas de Mulher.

Editora-chefe do Dicas de Mulher, mestra em Letras, mediadora do clube de leitura #LeiaMulheres e autora do livro "O rio seco que vive em mim". Durante longo período, pesquisou sobre violência no Brasil. Gosta de planta, de bicho e de gente, mas ainda mais de histórias.