COLUNA

O que a diversidade na literatura nos ensina sobre empatia

Thays Pretti

E o que a empatia nos ensina sobre (escrever) literatura

Meu bisavô era o tipo de pessoa que atravessava a rua para não andar na mesma calçada que um negro. Meu avô fazia piada sobre um namorado que uma prima teve, dizendo que só apareciam os dentes dele nas fotografias. Meu pai até hoje naturaliza expressões racistas. Apesar disso, essas situações nunca me pareceram normais ou aceitáveis – e creio que, em parte, foi graças a um livro.

Negras Raízes, de Alex Haley. Li esse livro quando tinha 13 anos. Era um livro grande, com umas 600 páginas, que terminei em três dias. Chorei muitas vezes por Kunta Kinte, levado à força da Gâmbia para os Estados Unidos, e pelas sete gerações seguintes, todas apresentadas no livro. Foi um dos livros que mais me marcaram até hoje. Quando, mais recentemente, as discussões sobre antirracismo, representatividade e dívida histórica ganharam força no Brasil, especialmente em meio a debates sobre violências e cotas raciais, não tive dificuldades para me posicionar como apoiadora. Negras raízes já tinha me preparado para isso.

Não estou aqui para fazer a defesa desse livro específico – por mais que eu realmente recomende a leitura. O que quero chamar a atenção é para o quanto ele me fez entender uma situação vivida por um grupo ao qual eu não pertenço. Eu não sou negra. Meus antepassados não foram arrancados de sua terra e cultura e forçados a trabalhar para outras pessoas. Mas eu consegui sentir um pouquinho dessa dor por meio de uma narrativa, o suficiente para conseguir me posicionar desde muito cedo como antirracista, mesmo que meu contexto como pessoa branca não exigisse isso de mim.

Essa capacidade de sentir com o outro é o que chamamos de empatia, e ela é uma das coisas mais bonitas que as artes – entre elas a literatura, meu foco de vida – podem nos proporcionar. Sim, a arte proporciona prazer estético, entretenimento e as mais variadas emoções. Mas também proporciona empatia, a capacidade de se identificar, de sentir com o outro, de se colocar no lugar do outro, de ver a vida a partir de outro lugar.

É claro que, para isso, a gente precisa ler narrativas que fujam do padrão. E qual é o padrão em relação às narrativas?

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Uma pesquisa coordenada pela professora da Universidade de Brasília e doutora em Teoria Literária pela UNICAMP, Regina Dalcastagnè, mostrou que cerca de 78% dos protagonistas dos romances publicados entre 2005 e 2015 são brancos. 6% deles são negros. Apenas 1% é indígena. E isso olhando só para raça. Questões como classe social, gênero e orientação sexual também apresentam disparidades enormes. Em resumo, no recorte dessa pesquisa, o principal personagem do romance brasileiro ainda era homem, branco, heterossexual, de classe média-alta e morador de São Paulo ou Rio de Janeiro.

Eu poderia dizer aqui que isso reflete bastante o perfil dos escritores no Brasil durante o período analisado na pesquisa, e que isso também deveria ser colocado em debate, mas já entrei um pouco nessa questão em um texto anterior. O que é importante ressaltar aqui é que esse tipo de leitura não é bem o que estimula identificação e empatia com grupos variados, porque ele acaba só reforçando o que já é sabido.

Eu não sou um homem branco, heterossexual, de classe média-alta, mas imagino como um homem assim se sente em várias situações, porque uma enorme quantidade de livros e outros produtos artísticos e culturais enfocam esse homem. Só que eu não sei como se sente uma mulher indígena quando vê um filho ser xingado no semáforo, por exemplo. Eu não sei como se sente uma mulher negra quando ela se descobre lésbica. Preciso de mais narrativas, de mais variedade nas narrativas, para conseguir cada vez mais entender as multiplicidades das vidas humanas.

Publiquei um livro de contos em 2019, somente com protagonistas femininas. Foi uma decisão pensada de antemão, não aconteceu por acaso. Foi uma decisão política. Eu não me sinto proibida de criar personagens homens, mas, em relação a esse livro, eu pensei: por quê? As narrativas masculinas já estão aí, são múltiplas. Mas as narrativas sobre mulheres ainda não foram suficientemente exploradas. Ainda há muitas histórias para contar. Prova disso é que várias mulheres que leram o livro se identificaram com situações narradas – situações que pensavam que só eram vividas por elas. E vários homens que leram disseram ter olhado para as mães, as avós e outras mulheres de suas vidas de outra forma. Ou seja, a leitura criou a empatia necessária para que esses leitores conseguissem sentir com o outro. E isso é mágico.

Um homem branco não pode criar uma personagem mulher ou um negro?

Até onde eu sei, ainda vivemos em uma democracia, em que se respeita a liberdade de expressão (ainda que nem sempre). Então, é claro que todo mundo pode escrever sobre o que quiser. A questão aqui é: será que tal pessoa vai realmente conseguir criar uma personagem não estereotipada sem uma imersão no universo do outro?

A empatia é fundamental para não cair em estereótipos, então precisamos ter contato com narrativas de grupos diferentes dos nossos. Como consequência, um homem branco pode construir muito bem uma personagem que seja uma mulher negra, por exemplo – desde que ele se dedique com muita abertura a conhecer narrativas, relatos e experiências de mulheres negras.

Infelizmente, isso acontece pouco. Um primeiro motivo para isso é que o mercado editorial sempre foi composto, em sua maioria, por homens brancos, que admiram outros homens brancos, publicam homens brancos, premiam e validam criticamente homens brancos (já falei sobre isso em outra ocasião). Nesse círculo vicioso, é difícil até mesmo que percebam que, para falar sobre uma mulher negra, é necessário ler sobre vivências de mulheres negras. E isso depende da publicação e circulação de mais mulheres negras no campo literário. Porém, essa publicação e validação depende de o mercado editorial aceitar que o que uma mulher negra entende como uma narrativa de ficção é diferente do que um homem branco compreende como tal. Percebe como o ciclo é complexo?

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Além disso, nesse círculo de homens brancos lendo homens brancos, fica-se com a impressão de que uma mulher negra (ou outro personagem que não seja padrão) é aquilo que eles dizem ser uma mulher negra – até porque uma mentira repetida muitas vezes toma aparências de verdade. Lembra da questão dos estereótipos que mencionei acima? Pois é.

Um homem branco, leitor de uma variedade de autores diferentes de seus padrões, aberto a sentir com o outro e refletir sobre experiências diversas das suas estará certamente munido de um bom material para construir personagens verossímeis muito variadas, ainda que, é claro, nada substitua o relato da experiência direta. Mas ele realizará um bom trabalho. Notem, porém, que há uma condição: precisa haver essa dedicação a sair de si e sentir com o outro. Sem isso, tentar escrever sobre uma experiência muito diversa da sua pode resultar em algo bem medíocre (frequentemente é).

Então pessoas negras só podem escrever sobre sua experiência como negros?

Não é esse o ponto. A questão é que você vê o mundo de forma muito diferente conforme a posição que você ocupa nele. É claro que uma pessoa negra falará com muito mais propriedade sobre sua experiência de ser negro que uma pessoa não racializada como negra. Mas o que quer que um(a) escritor(a) negro(a) (ou indígena, ou amarelo(a), ou surdo(a) etc.) escreva sobre qualquer assunto estará carregado de outra experiência, diferente daquela de uma pessoa branca.

Tenho um exemplo para facilitar essa questão: pense em um pão. A percepção de (e a escrita sobre) um pão será diferente se você gostar ou não de pão, se você for o padeiro, se seu avô muito amado e recém-falecido fazia pão. Ou, ainda, se você estiver com fome ou se for celíaco. Nossa relação com as coisas que existem no mundo muda nossa forma de narrá-las. E nossa relação com as coisas do mundo está entrelaçada à nossa raça, classe social, gênero, orientação sexual, idade etc. Cada pessoa é única, e isso é o mais próximo que podemos chegar do divino.

Os homens brancos devem deixar de escrever?

Ninguém deve deixar de fazer nada que ama (dentro do que é lícito, claro). O importante é entender o próprio lugar. É importante conhecer as próprias limitações e trabalhar para superá-las – e isso passa por estimular a entrada de outras pessoas (diferentes de você) no seu campo de atuação. E isso não vale só para a arte. Se você é esportista e percebe que há poucas pessoas de tal ou tal grupo no esporte que você pratica, vale se perguntar por quê. Mais do que isso, vale agir afirmativamente na direção de mudar essa situação. Essas pequenas ações, a micropolítica do dia a dia, pode fazer muita diferença – se não no mundo todo, pelo menos no seu mundo. E, talvez, no mundo de mais pessoas à sua volta.

Então, voltando à literatura, se eu puder deixar duas mensagens finais, eu gostaria de pedir aos escritores e escritoras que não são homens brancos que insistam e escrevam. Narrem suas vivências ou falem sobre o que mais quiserem. O mundo precisa dessas histórias para nos conectarmos uns aos outros e para entendermos que somos diversos enquanto sociedade. E gostaria de pedir aos leitores que se permitam conhecer outras narrativas, que se permitam sentir com outras pessoas, de outros grupos e com outras perspectivas. Leiam mulheres, leiam negros, leiam indígenas, leiam autores LGBTQIA+. Leiam neurodiversos, surdos, portadores de necessidades especiais. Prometo que vocês vão sair desse exercício muito maiores do que entraram – assim como eu sei que saí maior da minha leitura de Negras Raízes.


Observações:

1. Os escritores na colagem digital que ilustra esta coluna são: Conceição Evaristo, Ailton Krenak, Jeferson Tenório e Camila Sosa Villada. Todos fogem dos padrões mais tradicionais no mercado literário, trazendo novos olhares tanto para a ficção quanto para a não ficção (e poesia). Vale conhecer, caso não os conheçam.

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2. A primeira parte deste texto é uma versão adaptada da minha talk no TEDx, “A importância da diversidade na literatura é sentir com o outro”, de 2020, cujo vídeo deixo abaixo:

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Dicas de Mulher.

Escritora, autora de "A mulher que ri", "Efêmeras" e "Do Silêncio". Apaixonada por Clarice Lispector, clubes de leitura e pessoas. Gosta de listar coisas de três em três. Escrevo a newsletter Versilibrista.