Opinião

Na sigla LGBTQIA+, o “B” não é de bonita, mas também é

A bissexualidade costuma ser bastante apagada e mal representada na mídia, mas não aqui, ainda mais no mês do Orgulho LGBTQIA+

CANVA

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Atualizado em 01.07.22

É comum ouvir dizer que bissexuais são indecisas, privilegiadas e até promíscuas, mesmo entre pessoas do movimento LGBTQIA+. A verdade é que poucas pessoas entendem bem o que a tal letra “B” significa na sigla.

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Gosto da definição que a ativista e escritora Roby Ochs utiliza para explicar o que é ser bissexual, então vou utilizá-la: “Me chamo de bissexual porque eu reconheço que tenho em mim o potencial de sentir atração – romantica e/ou sexualmente – por pessoas de mais de um sexo e/ou gênero, não necessariamente ao mesmo tempo, não necessariamente do mesmo jeito, e não necessariamente no mesmo grau”.

O problema é que, para além da definição, que pode mesmo ser complexa, pouco esforço é feito para promover uma discussão a respeito da bissexualidade, em que bissexuais não só falem, mas também sejam ouvidos(as).

Nem mesmo quando se trata de políticas públicas há muitas iniciativas e espaços em que possamos dizer como nos sentimos, nossas vivências, necessidades e também dos nossos medos.

A falta de empatia e acolhimento com bissexuais têm muito a ver com a ideia de monossexualidade. Ela nos é ensinada desde muito cedo. Não só a adotamos, como ainda propagamos sem perceber. Não sabe do que se trata? Explico.

A monossexualidade determina que nós devemos nos relacionar, seja sexual e/ou afetivamente, com pessoas de apenas um determinado gênero, podendo ser hétero ou não. Sendo assim, não haveria como uma mesma pessoa sentir atração por homens, mulheres ou pessoas de outra orientação sexual ou identidade de gênero.

De acordo com essa visão, nós, bissexuais, acabamos ficando em um não lugar, por não nos encaixarmos na heterossexualidade ou homossexualidade. A grande questão é: por que deveríamos, necessariamente, estar em um único lugar? Quem disse que precisa ser assim?

Há muitos mitos que envolvem a bissexualidade e gostaria de, na medida do possível, desmistificá-los. Ou pelo menos trazer uma reflexão a respeito, para ajudar a dar maior visibilidade às pessoas bissexuais. Vamos lá?

Armário, indecisão, promiscuidade e outras coisinhas

Bissexuais ficam mais no armário do que gostariam, justamente pela falta de compreensão por parte das pessoas que nos rodeiam. Ou então saem do armário repetidas vezes, quando se relacionam com pessoas do mesmo gênero, por exemplo. “Olha lá, agora ela saiu com uma mulher. Achei que fosse hétero”.

É comum pensar que nós podemos nos aproveitar da “leitura heterossexual” que a sociedade faz de todos. Mas por que haveríamos de querer isso? Seria esconder-se, ou camuflar-se.

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Assim, não vivenciamos totalmente a nossa orientação sexual. Não falamos de nossos interesses e nossas relações. Algumas vezes, nem mesmo podemos contar, para pessoas próximas, aquele date furado, aquela situação inusitada, que serve de entretenimento gratuito e de qualidade.

Pessoas bissexuais não são indecisas, pelo contrário. Temos interesses por pessoas de orientação sexual e identidade de gênero iguais ou diferentes das nossas – e está tudo bem. É algo natural, não forçamos. Pode acontecer quando menos esperamos, embora geralmente tenhamos interesse maior ou menor neste ou naquele gênero – e as razões variam de pessoa para pessoa.

Vale dizer ainda que, no caso de mulheres, ser bi não se trata de uma espécie de estágio para se tornar lésbica. Não estamos em busca de uma formação inicial para que, depois, sejamos agraciadas com o diploma de formada. Essa lógica de pensamento é bifóbica.

A promiscuidade também não é uma característica inerente à bissexualidade. O que se pode dizer a respeito disso é que se trata de uma característica humana, independente da orientação sexual ou identidade do gênero. Você pode ou não carregar isso na sua bagagem.

Não vamos trocar um(a) parceiro(a) por uma pessoa de gênero oposto simplesmente porque queremos voltar à heterossexualidade. Isso pode acontecer? Sim, mas por inúmeras outras razões, a depender de cada sujeito e o que ele carrega dentro de si, do que busca em outra pessoa.

Por fim, não podia deixar de mencionar a fetichização da bissexualidade feminina. Homens héteros costumam objetificar mulheres bissexuais, devido ao fetiche de transar com duas mulheres ao mesmo tempo. Não queremos transar com um casal ou formar um trisal. E caso um dia isso seja um desejo, não pode ser algo que limita e ridiculariza.

Representatividade bissexual

Talvez um dos grandes problemas de se falar sobre bissexualidade e se declarar uma pessoa bissexual é justamente a falta de representatividade. O termo tem grande uso nos últimos tempos, nas mais diversas frentes, mas não está banalizado.

A representatividade bissexual é importante porque é uma forma de representar a realidade, de tornar natural ver uma pessoa bi se relacionando como preferir. Para isso, a maneira como as pessoas são retratadas importa muito, porque pode ter aspecto mais negativo do que positivo, mesmo que seja por meio da ficção.

Há pouca representatividade bi na mídia e ainda há menos exemplos positivos. A série superfamosa ‘Sex and the city’, por exemplo, sugere que a bissexualidade é apenas uma fase e, que após passa por ela, chega-se à homossexualidade.

Na série animada ‘Big mouth’, sobre relações e sexualidade na adolescência, uma personagem acaba definindo bissexuais como “binários demais” – isso gerou várias críticas e os produtores da série acabaram se desculpando.

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Em ‘Game of thrones’, o Príncipe Oberyn é bissexual e foi muito importante enquanto figura de destaque para os fãs bissexuais. No entanto, há um aspecto negativo porque havia ar de promiscuidade no personagem.

Na série ‘Orange is the new black’, Piper fica com homens e mulheres. No entanto, isso só fica evidente na quinta temporada, quando a personagem corrige a mãe após ser chamada de lésbica.

Contudo, há representações com caráter mais positivo. Como na série novelesca ‘Jane: the virgin’, quando Petra Solano entende que é bi, depois de passar boa parte da vida perseguindo riqueza e a família perfeita de comercial de margarina: marido e filhos felizes. Ao se apaixonar por uma mulher, entende o que realmente precisa na vida: amar e ser amada.

Também há a série de comédia policial ‘Brooklyn Nine-Nine’. Nela, a detetive Rosa Diaz (maravilhosa, perfeita, nunca errou!), solta um “Eu sou bi” no trabalho, ou seja, no departamento de polícia. Em seguida, fala da namorada do seu jeito bruto-romântico, que é de tirar sorrisos de muitos fãs.

Stephanie Beatriz, atriz que interpreta Diaz, é bissexual e teve um papel muito importante na construção não estereotipada da personagem que nada tem de indecisa. Em entrevista à ‘Entretainment Weekly’ pontuou: “Eu sugeri que essa palavra [bi] era muito importante para ela e que também seria muito importante para a comunidade bi ter a palavra dita na televisão. Não apenas uma sugestão de que agora ela namora garotas, mas uma clareza sobre essa personagem”.

Afinal, por que o “B” é de bonita também?

Como mulher bissexual, há uma faceta muito bonita que eu vejo nessa forma de levar as relações – e aqui falo muito mais de mim do que em qualquer outro momento deste texto. Não me importo com a Escala Kinksey, não estou preocupada com a porcentagem de interesse.

Pode parecer simplista e até romanticamente bobo, mas o que me fascina é saber que histórias as pessoas carregam, do que gostam ou não. Quero saber da infância, dos causos de família, dos bichos de estimação que têm ou tiveram, dos hobbies, das falhas e incoerências, dos desejos, dos sonhos, do que faz rir, do que emociona etc.

As relações vão além de ter um órgão sexual, ou corpo, mesmo que este também seja uma forma de ser e estar no mundo. É simples. Seria ainda mais se as pessoas compreendessem que relações podem ser construídas dessa maneira.

Esse modo de olhar o outro me torna mais humana, livre de amarras e me deixa mais segura para me envolver afetivamente. O que não quer dizer que as outras pessoas pertencentes à sigla LGBTQIA+ não se sintam assim por seus motivos próprios.

Somos seres diferentes e nossos caminhos em busca de leveza também diferem – e isso também é uma forma bonita de viver, porque não é pré-formatado, é diverso!

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* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Dicas de Mulher.

Editora-chefe do Dicas de Mulher, mestra em Letras, mediadora do clube de leitura #LeiaMulheres e autora do livro "O rio seco que vive em mim". Durante longo período, pesquisou sobre violência no Brasil. Gosta de planta, de bicho e de gente, mas ainda mais de histórias.