COLUNA

Qual o papel dos brancos na luta antirracista?

Giovana Ewbank e família / Estela Lacerda

Giovana Ewbank serve de exemplo ao mostrar que a branquitude deve usar seus privilégios contra a opressão racial

Em 02.08.22

Neste último domingo, vimos Giovana Ewbank e Bruno Gagliasso se tornarem notícia. A partir de um vídeo que vazou nas redes sociais, é possível ver a atriz defender veementemente seus filhos, Titi e Bless, que haviam sofrido racismo em um restaurante em Portugal.

Publicidade

A racista e criminosa bradava que não só as crianças saíssem do local e voltassem para a África, mas também uma família de turistas angolanos. O que ela não esperava era ser confrontada, denunciada e, por fim, presa.

No entanto, tudo indica que a agressora ficará impune, pois o Código Penal de Portugal não prevê o crime de injúria racial. Apenas casos de homicídio e violência física gerados por questões raciais estão previstos.

Após o assunto ganhar as redes sociais, muitas foram as opiniões de diversas pessoas a respeito do fato. Dentre elas, a que destaco aqui é a de Raio Gomes, do portal ‘Mundo negro’, com o qual concordo: Giovana Ewbank fez o que se espera de alguém que tem o privilégio branco, ou seja, defendeu seus filhos de uma racista e deu nome ao crime que ela cometeu.

Assim como muitas pessoas, me pergunto se Ewbank seria levada a sério se fosse uma mulher e mãe negra em defesa de seus filhos. Se teria direito a defendê-los sem ser expulsa do restaurante, acusada de ser violenta, louca ou coisa semelhante. Também me pergunto se a polícia portuguesa de fato atenderia ao chamado de Gagliasso.

E qual é o papel dos dois, do meu e do seu, pessoa branca, no enfrentamento do racismo? O privilégio da branquitude é real e ter consciência disso é extremamente importante. Mas, mais do que isso, é preciso saber utilizá-lo na luta antirracista.

Nós, pessoas brancas, precisamos entender que vivemos um sistema de opressão que nos privilegia historicamente, como já apontado por Djamila Ribeiro não só em seu ‘Pequeno manual antirracista’, mas em diversas publicações e falas. Sendo assim, devemos, também, nos responsabilizar pelas desigualdades e pelo racismo. Só assim teremos uma postura ética em nossas vidas.

É fundamental que a branquitude compreenda os mecanismos operantes do racismo. Deve estar atenta a si e ao outro, em um profundo exercício de conscientização e reflexão acerca de atitudes antes nunca questionadas.

Muito se fala em empatia hoje, um importante exercício de humanidade ao nos colocarmos no lugar do outro, mas ela não existe ao apertarmos um botão. Ribeiro, inclusive, salienta que essa ação se trata de uma construção ética, política e intelectual.

Sendo assim, é preciso refletir sobre atitudes e posturas, estudar a respeito do racismo e da luta antirracista, ler e escutar o que tem a falar as pessoas negras. E não menos importante: assim como Ewbank, colocar em prática todo esse conhecimento e esse privilégio na luta contra a opressão racial.

Publicidade

Finalizo essa pequena reflexão com uma fala de Sueli Carneiro que declara que o antirracismo branco precisa, antes de tudo, tirar da sombra “um sujeito oculto que se encontra por trás de cada ato de discriminação, por trás de cada violação de direito da população negra”.

A filósofa aponta que estamos, principalmente no Brasil, acostumados a falar do racismo apenas com foco na vítima: a mulher negra violentada, o homem negro assassinado, as crianças que sofrem racismo.

Esquecemos que, do outro lado, está o racismo estrutural, ou seja, aquele que “não se encarna em nenhum sujeito concreto, que não se encarna concretamente nas práticas sociais ou nas políticas de contratação”.

Sendo assim, esse sujeito oculto tem que sair da sombra, isto é, precisa ser revelado. Quem ele ou ela é? Quando e como será responsabilizado por seus atos racistas?

Não se pode tolerar, silenciar e/ou omitir qualquer desprezo pela existência e vida de pessoas negras. Só assim a branquitude apoiará e dará suporte à luta antirracista verdadeiramente.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Dicas de Mulher.

Editora-chefe do Dicas de Mulher, mestra em Letras, mediadora do clube de leitura #LeiaMulheres e autora do livro "O rio seco que vive em mim". Durante longo período, pesquisou sobre violência no Brasil. Gosta de planta, de bicho e de gente, mas ainda mais de histórias.