COLUNA

Ninguém diz eu te amo como Gal

Thays Pretti

Gal Costa é uma cantora que alcança multidões tanto com sua voz quanto com as canções que interpreta - e que me alcança pelos caminhos misteriosos do sentir

Em 21.07.22

Uma das artes mais presentes na minha vida sempre foi a música. Nunca toquei nenhum instrumento, infelizmente, e sou uma cantora de banheiro muito mediana. Mesmo assim, o encantamento sempre esteve aqui, em especial por causa das letras. Sou uma apaixonada por palavras.

Publicidade

Começou quando eu era bem criança e ficava ouvindo CDs deitada no sofá, com os encartes na mão, lendo o que se dizia na canção. Só não foram esses os primeiros livros de poemas que li porque eu era aficionada por bibliotecas desde muito pequena, e fui apresentada bem cedo aos poemas infantis de Cecília Meireles e Vinícius de Moraes. Apesar disso, os encartes estiveram entre meus primeiros contatos com a poesia e formaram meu senso estético e minha percepção de ritmo.

Eu não tinha critérios. Intercalava Leandro & Leonardo e Milton Nascimento, Sandy & Júnior e Legião Urbana, Ana Carolina e Titãs. Lembro também de termos em casa (e ainda tenho) o álbum ‘Barulhinho Bom’, da Marisa Monte, com um encarte repleto de ilustrações eróticas de Carlos Zéfiro. Com algo entre dez e doze anos, eu lia as letras sentindo um misto de curiosidade e vergonha, espiando pudica as imagens em torno do texto.

Era uma experiência que ultrapassava o texto: eu estava sendo inserida no mundo. Havia em muitas letras vivências que eu ainda não tinha, especialmente naquelas que falavam sobre relacionamentos. Quando eu soube que muitas músicas das décadas de 60 e 70 eram críticas veladas à ditadura militar foi uma nova revolução! Eu investigava as letras, buscava textos explicativos, referências. Conhecer como os artistas preservavam a própria liberdade mesmo em contextos restritivos sempre me instigou muito, talvez pela infância controlada que eu tive. O desejo de liberdade é um dos mais impossíveis de conter.

Sei que hoje isso já parece muito distante da realidade. Os álbuns migraram para plataformas virtuais de streaming, e acessamos as letras facilmente por meio da internet. Mas, naquele momento, era um tipo de fruição artística muito peculiar: acompanhar a música com o encarte na mão.

É aqui que entra a Gal.

Gal não foi das primeiras artistas que chegaram à minha vida. Demorou um pouco. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Chico Buarque, todos eles já tinham espaço cativo no meu rol de preferidos quando Gal Costa chegou.

Conheci suas músicas a partir da adolescência. Tudo ali parecia excessivo e eu tinha medo. A voz dela me intimidava pela visceralidade. Eu sabia que ela era uma cantora libertária, que punha os seios à mostra em show, e que defendia sua liberdade mesmo durante a ditadura militar, o que para mim já colocava sobre ela uma aura de mistério e veneração. Ouvia-a falar de amor e me desconsertava inteira. A intensidade das suas letras me atravessava, mas eu não sabia o que fazer com o que furiosamente me invadia. Conhecia-a, mas não a compreendia de todo, ela ainda não morava em mim. Ainda assim, eu a ouvia mais e mais, mergulhando nessa estranheza e agradável desconforto.

Curiosamente, muito dessa fúria e intensidade eu só entendi quando me apaixonei de fato pela primeira vez.

Isso não foi, porém, coisa de meninice. Pequenas paixões, tive várias, virando a página ano a ano, desde a pré-escola. Quase sempre não correspondidas e não realizadas, o que não me afetava. Chorava uma pequena lágrima de praxe, seguia a fila e a vida. Nunca retrocedia. Mal do signo de Libra, dizem. Não sei.

Publicidade

Cheguei até a me casar (e separar). Paixão mesmo, foi só depois. Há quem diga que isso só acontece uma vez na vida. Às vezes, desejo que seja verdade, que eu não precise mais enfrentar essa revolução de sentir – apenas amenidades e afetos tranquilos, não mais. Às vezes, quero que seja possível sentir isso ainda outra vez, e outra. Como um viciado. Adrenalina e feniletilamina correndo soltas pelas veias diante de alguém, o rosto corado e cru.

Tudo isso, as dúvidas, a intensidade, a vontade de ser livre e o desejo por um ninho, eu encontro na Gal. Hoje, com muito mais experiência do que eu tinha quando a conheci na adolescência, me identifico com as músicas que ela interpreta em um nível físico: arrisco dizer que minha pulsação deve até mudar quando elas caem no meu ouvido.

Enquanto escrevo este texto, ouço seu álbum ‘A pele do futuro’ e o título já é uma experiência sensorial: pensar que o futuro possa ter uma pele, imaginar sua textura e cor e cheiro. Como seria a pele do futuro? Fecho os olhos e sinto com todos os sentidos engajados – a única maneira possível de sentir.

Esse álbum é carregado de imagens de finais e despedidas. Os amores estão quase sempre perdidos ou não correspondidos. Há saudades, expectativas. Em ‘Palavras no Corpo’, Gal sustenta, intensa, que: “ninguém diz eu te amo como eu”. É certo. Ninguém diz eu te amo como Gal e esse mesmo sentimento me invade quando a escuto, por meu afeto também ser sempre inteiro. Insubstituível. Eu sei. Ninguém diz eu te amo como eu. Música a música, sou arrastada pelo álbum inteiro, chorando pelos amores que tive e por aqueles que as canções me fizeram imaginar.

Como se não bastasse dizer do meu choro, Gal também me inflama o peito e a voz. Canções como ‘Dê um rolê’, do álbum ‘Fa-Tal – Gal a todo vapor’, são músicas para cantar gritando e lavando a alma, sem se preocupar com afinação – “eu sou, eu sou, eu sou amor da cabeça aos pés”. É o caso também de ‘Vaca Profana’, do álbum ‘Profana’, escrita por Caetano Veloso a pedido de Gal Costa. Ela canta:

“Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada
Escrevo, assim, minhas palavras
Na voz de uma mulher sagrada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada”.

Como um hino para as mais variadas revoluções, ela nos dá força, nos impulsiona. Sei que o termo está um pouco gasto, mas eu diria ser uma música “empoderadora”. Ela é feminina, intensa, livre. Ela é como me sinto por dentro, na minha potência mais profunda.

Aliás, a intensidade de Gal é evidente desde os títulos de alguns dos seus álbuns. ‘Nenhuma dor’, ‘Estratosférica’, ‘Cantar’, ‘Água Viva’, ‘Minha voz’, ‘Todas as coisas e eu’, ‘O sorriso do gato de Alice’… há certo mistério e magia e, ainda, uma devoção. À música, ao fazer artístico, à beleza de ser-se, de assumir a potência que se é e viver inteira, alta, ampla e clara como uma ave no céu.

Certo, pode ser que tudo isso seja apenas eu, minha identificação com o trabalho dela. A melhor obra de arte, para mim, é aquela que nos atravessa, e isso ela faz por mim. Na voz dela ouço a minha, no sentimento dela sinto o meu descrito. Me encontro e me transmuto em pura vibração de sentidos ao ouvi-la, e acredito que isso é o que todas as pessoas buscamos na arte.

Somos atravessados de formas diferentes por cada artista, e é por isso que é tão bonito haver tanta gente produzindo arte. Alguém falará por nós e, quando isso acontecer, será como se estivéssemos em país estrangeiro e, de repente, ouvíssemos soar nossa própria língua. É um reconhecimento. É uma emoção.

Publicidade

Por aqui, encerro com o desejo de que toda pessoa seja arrebatada assim por vários artistas e obras de arte. Ao contrário da paixão, ninguém nunca cogitou que essa fosse uma experiência que só pudesse acontecer uma vez na vida. Ainda bem. Então, que esbanjemos e nos lambuzemos de toda arte que nos faça sentir vivos e humanos e intensos, amando profunda e profusamente. Como a Gal.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Dicas de Mulher.

Escritora, autora de "A mulher que ri", "Efêmeras" e "Do Silêncio". Apaixonada por Clarice Lispector, clubes de leitura e pessoas. Gosta de listar coisas de três em três.