COLUNA

Ei, deixa eu te contar: você pode ser emocionada!

Estela Lacerda

A expressão, que ganhou forças na internet, nos abstém de agir de modo afetuoso e leal aos nossos sentimentos

Em 19.07.22

“Será que estou sendo emocionada?” é um questionamento que diversas mulheres já fizeram às amigas, a si mesmas ou até a terapeutas. A expressão tornou-se muito comum, mesmo entre pessoas solteiras que passaram dos 30 anos – e, em tese, são mais maduras em suas relações.

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Mas, o que significa ser emocionada? Não há um conceito definitivo, talvez seja só mais uma expressão em alta na internet que, daqui há alguns anos, será vista como uma espécie de gíria. Resumidamente, refere-se a ser muito afetuosa com alguém ainda no início de uma relação, ou seja, com uma pessoa com a qual você ainda não tem um relacionamento definido.

Na mesma linha do “não posso ser emocionada”, existe o “trate ficante como ficante”. A questão é: o que significa tratar alguém assim? Não existe regra de tratamento para alguém que você está conhecendo.

Evitar demonstrar afeto significa que, provavelmente, você o sente, que ele existe, mas que você poda suas emoções. Não me parece que podar algo verdadeiro como o afeto, jogá-lo para baixo do tapete, seja uma atitude saudável e nem mesmo justa consigo mesma.

Com tantas preocupações que um adulto pode ter hoje – o preço do aluguel, dos produtos no mercado, do combustível, os índices de violência, as próximas eleições, entre outras -, me parece muito triste querer controlar e se preocupar com o que de mais potente pode existir em um ser humano: o sentir.

Se você deseja ser afetuosa com alguém, apenas seja leal a isso, independentemente da sua relação ser casual ou não, se ela será ou não um namoro no futuro. Tratar bem quem você se relaciona é lembrar que, para além de ser alguém que você beija e/ou com quem você transa, existe ali um ser humano que, como todas nós, gosta de ser cuidado e bem tratado.

É preciso reconhecer suas vontades: se quer ser carinhosa, atenciosa, contida ou reservada. A partir disso, compartilhá-las com a outra pessoa, sem deixar que a insegurança ou medo tome conta, parece bastante justo. Se não há correspondência de afeto, por exemplo, é o alerta de que talvez não estejam na mesma página e busquem coisas diferentes em uma relação.

coachs de relacionamento – com os quais não me identifico nem um pouco – que explicam que ser emocionada pode ser se iludir também. Para Luiza Vono, por exemplo, alguém com esse perfil “enxerga coisas que não existem, que pensa que um oi é um ‘vamos namorar agora’. Que tem uma distorção da realidade”, conforme dito em matéria ao UOL.

Agir assim é possível? Claro que é: podemos nos enganar. Justamente por isso é que defendo, novamente, que precisamos ser leais ao afeto e demonstrá-lo. Se o afeto não é correspondido, você logo saberá. Ao tomar conhecimento disso, você escolhe se deve seguir ou não com a relação, se ela lhe cabe da forma como funcionará, mais contida, mais distanciada etc.

Acima de tudo, o importante é se compreender. Saber como quer tratar alguém e de que modo deseja ser tratada. E, diante disso, não se abster do afeto, porque isso seria desrespeitar a si mesma.

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Agir dessa maneira pode ser, inclusive, uma forma madura de lidar com uma relação. Os dois (ou três – alô, trisal) podem construir um relacionamento verdadeiro, com carinho, respeito e diálogo.

Não há nada de errado em ser madura o suficiente para demonstrar o afeto que você nutre por alguém, mesmo em uma relação casual. Agir de modo carinhoso não é trocar alianças. Se pensarmos no mundo em que vivemos hoje, pautado em relações tão engessadas, distantes e frias, ser uma pessoa afetuosa é um ato de coragem!

Se sentir vontade de mandar uma mensagem de bom dia, mande. Se quer chamar para assistir a um filme no meio da semana, chame. Se lembrou dele(a) quando viu uma propaganda ou uma situação na rua, conte. Se deseja saber como foi o dia de trabalho, pergunte. Se pensou em comprar um livro de presente, compre. Se quer dar um cafuné, faça-o. Se está com saudade, demonstre ou diga. Se deseja fazer sua melhor receita para ele(a), corre já para a cozinha. Se quer por perto, seja presença. Há diversas linguagens para demonstrar seu afeto.

Hoje deixo um apelo: seja leal às suas emoções e não deixe que uma expressão na internet te diga como agir. Seu silêncio e sua contenção de gestos só vão aumentar inseguranças e medos.

Se deseja, trate seu(sua) ficante com todo afeto que carrega em si.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Dicas de Mulher.

Editora-chefe do Dicas de Mulher, mestra em Letras, mediadora do clube de leitura #LeiaMulheres e autora do livro "O rio seco que vive em mim". Durante longo período, pesquisou sobre violência no Brasil. Gosta de planta, de bicho e de gente, mas ainda mais de histórias.