Thays Pretti
Sou muito contrária a falar sobre aniversários de morte, primeiro por não ver isso propriamente como uma data comemorativa e segundo por achar meio mórbido. Mas esta semana tem me dado sinais e, quando eu os recebo, eu os acolho. Arrisco pensar que seja o universo tentando se comunicar comigo, amém.
Então, terça-feira, dia 26 de julho, esbarrei com uma matéria sobre o aniversário de 70 anos da morte de Eva Perón, ex-primeira-dama da Argentina. Como no dia anterior havia comentado justamente sobre ela com um amigo, falando sobre um livro, me perguntei: coincidência ou um recado do universo? Assumi que fosse este último, e comecei a escrever o texto.
Evita, como também era conhecida, não era unanimidade. Havia quem a considerasse ambiciosa, hipócrita e interesseira, pela sua trajetória de menina pobre a primeira-dama (como se ascensão econômica fosse por si só uma coisa “errada”). Por outro lado, havia quem a visse como uma revolucionária e grande defensora da justiça social – inclusive sendo tomada como santa por muitas pessoas.
Ainda que seja uma figura controversa, Evita de fato defendeu os direitos trabalhistas e o voto feminino, além de fundar o Partido Peronista Feminino, primeiro partido político de mulheres de grande porte do país. Sobre ser ou não uma boa pessoa, lembro da fala de um amigo, que defende que “ninguém é 100%”. De fato, todo mundo tem características positivas e negativas e, como diz o ditado, é importante não jogar o bebê fora com a água suja do banho. É importante saber filtrar as coisas e separar o que é bom e o que é ruim, para não descartar uma coisa (ou pessoa) em sua completude por alguns traços negativos que ela tenha.
Por aqui, não conheço a história argentina tão a fundo e, entre me posicionar de um lado ou de outro da opinião pública sobre essa questão, prefiro falar do sumiço do cadáver embalsamado de Evita Perón.
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Me explico: depois de sua morte, em 1952, aos 33 anos, Eva foi embalsamada e exposta para visitação pública. Três anos depois, um golpe de Estado derrubou o governo peronista, o corpo foi roubado e só reapareceu 16 anos depois, na Europa.
Apesar de Evita ser uma pessoa pública, restaram muitas dúvidas sobre o que teria acontecido durante esse tempo, e como teria sido o translado do corpo de Evita Perón da Argentina para a Europa (Itália, mais especificamente). Foi em tal espaço cinzento da história que entrou o livro do qual eu falava com meu amigo na segunda-feira, ‘Santa Evita’, de Tomás Eloy Martínez, agora adaptado para o audiovisual pela Star+, em uma série de sete episódios.
O livro, lançado na Argentina em 1995 e trazido para o Brasil no ano seguinte, poderia ser classificado como uma metaficção historiográfica. A principal característica desse gênero é a apropriação/incorporação de personagens e/ou acontecimentos históricos para problematizar ou se misturar a fatos concebidos como “verdadeiros”. Ou seja, o escritor constrói sua narrativa (ficcional) a partir de lacunas e interpretações dúbias de acontecimentos tidos como reais.
Em ‘Santa Evita’, Martínez inventa o que teria acontecido com o corpo embalsamado de Evita Perón nos 16 anos durante os quais ele desapareceu. A narrativa é leve e engraçada, cheia de reviravoltas. Além disso, ganha suporte de certos recortes de jornal (reais) inseridos pelo livro aqui e ali, reforçando no leitor a sensação de realidade.
É justamente nesse ponto que tal tipo de texto me coloca uma pulga atrás da orelha.
Na verdade, não estou sendo justa. O problema não é esse tipo de texto, mas o fato de eu estar arisca. É que essa estética atualmente me remete às fake news e outras manobras narrativas intencionalmente manipuladoras, as quais considero bastante preocupantes. Questionar a História dentro de um livro, brincar com a veracidade dos fatos, preencher de ficção os espaços que ficaram vagos nos acontecimentos, tudo isso é brilhante e muito saudável quando feito de boa-fé. O problema é quando esse movimento se desvirtua.
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Um exemplo: recentemente, tenho visto cada vez mais os meios de comunicação (sérios) alertarem para novas tecnologias que permitem a manipulação de vídeos e o quanto isso é problemático em um momento como o nosso. Afinal, estamos politicamente polarizados e com ânimos acirrados devido às eleições. Além disso, tem havido muita má-fé por parte das pessoas, que divulgam informações falsas e, pior do que isso, produzem conteúdos falsos com intenção de ludibriar e enfraquecer outras pessoas e grupos.
Não é novidade para ninguém que a História – sim, mesmo essa, com letra maiúscula – é uma questão de narrativa. Também não é de hoje que se diz que a versão da história que nos chega é a versão dos vencedores. Essa reflexão tem aberto espaço para repensar vários acontecimentos no decorrer dos séculos, dando voz a grupos marginalizados e invisibilizados, e isso é ótimo. Hoje, há a possibilidade de termos versões de um mesmo episódio: por exemplo, a dos opressores e a dos oprimidos.
Ou seja, como em relação a tudo, o problema não é a ferramenta, é o uso que nós, como sociedade, fazemos dela (lembre-se: não joguemos o bebê fora com a água suja do banho). Quando grupos oprimidos questionam as narrativas históricas para perguntar onde estavam tais grupos neste ou naquele evento histórico, isso nos faz repensar invisibilidades e corrigir erros. Mas, quando são os grupos opressores que tentam manipular as narrativas de modo a manter o controle e a dominação, é importante estarmos de olhos bem abertos, filtrando toda informação com cuidado.
Meu desejo é que, em algum momento, eu possa voltar a ler ‘Santa Evita’ com a mesma leveza que o li da primeira vez, achando graça em como Martínez conseguiu preencher lacunas históricas com uma narrativa criativa e engraçada. Ler sem ter que parar a toda hora e me perguntar: poxa, as fake news estão estragando até a metaficção historiográfica, que estava bem sossegada no canto dela e nada tinha a ver com isso.
Decepções sociais à parte, o livro é uma pequena joia da literatura latino-americana, bem-humorado e bem construído, e vale a leitura. Quanto à adaptação audiovisual de ‘Santa Evita’, se ela carregar a mesma energia do livro, com certeza vai ser um belo sucesso, além de ser mais um produto cultural, entre os vários já existentes, que se dedicam a investigar a enigmática figura que foi Evita Perón.
Escritora, autora de "A mulher que ri", "Efêmeras" e "Do Silêncio". Apaixonada por Clarice Lispector, clubes de leitura e pessoas. Gosta de listar coisas de três em três. Escrevo a newsletter Versilibrista.