Transtorno Obsessivo-Compulsivo: um problema que não é brincadeira

Escrito por Helena Montemezzo

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Você conhece alguém que gosta de organizar as coisas e sai por aí dizendo que tem TOC? Ou alguém que limpa a casa todos os dias e também se rotula dessa forma?

Acontece que o Transtorno Obsessivo-Compulsivo é um problema sério e que merece ser discutido de uma maneira muito mais atenciosa do que você imagina. Descubra quais são as características do TOC, suas verdades e seus mitos.

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Tipos de TOC

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Uma dúvida frequente com relação ao TOC recai sobre a existência de tipos diferentes para esta doença. O psicólogo Carlos Vieira esclarece que esses tipos se caracterizam a partir do comportamento da pessoa que sofre do transtorno.

Checagem/Verificação

Segundo Carlos, o indivíduo que sofre desse tipo de TOC sente a necessidade de, antes de sair de casa pela manhã, verificar se o fogão está realmente desligado ou se a torneira da pia está fechada, por exemplo.

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“Ele pode ligar e desligar boca por boca do fogão repetidas vezes com certos padrões – a primeira boca, liga e desliga quatro vezes, a segunda só uma, a terceira sete vezes. No caso da torneira, a pessoa chega até o carro e desconfia que a água da pia esteja pingando (mas não está). Ela volta, checa a pia, abre e fecha mais de uma vez, confere o registro da água…”, diz.

Isso tudo pode acarretar em um atraso de, pelo menos, meia hora e impedir a pessoa de chegar a tempo a um compromisso.

Contaminação

Esse tipo de TOC se configura a partir de uma ilusão de que tudo em que a pessoa tocar ou comer possa conter germes.

Segundo o psicólogo, ela pode ir a um restaurante e não pegar a comida pois tem certeza de que há contaminação. Nesse caso, ela prefere não se alimentar adequadamente.

De relacionamentos

Carlos fala de pesquisas recentes que constatam a existência de um novo tipo de TOC: o de relacionamentos.

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“O transtorno pode afetar o relacionamento amoroso de modo que o indivíduo duvide do comprometimento ou amor do outro, mesmo tendo provas constantes de que há consideração, afeto, respeito por parte da(o) companheira(o)”.

Tudo isso pode parecer exagero para você, mas para quem sofre de TOC, são situações sobre as quais não há controle.

Sinais e sintomas

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De acordo com Carlos, o TOC se trata de um transtorno de ansiedade. “Seus sintomas envolvem pensamentos recorrentes, indesejados, ideias ou sensações (obsessões/pensamentos) que fazem uma pessoa realizar tarefas e rituais (compulsões/ações) sistematicamente”, diz o profissional.

A maior problemática do TOC não recai, necessariamente, sobre as manias que o indivíduo deve exercer, mas, sim, sobre as consequências do descumprimento delas. Isso pode acarretar em uma necessidade de autopunição.

A pessoa pode pensar: “se eu não cumprir determinada tarefa, meus pais vão morrer em 3 horas. Se eu pensar em tal coisa, meu carro vai capotar no caminho de volta pra casa e vai acertar pessoas indefesas. Estes pensamentos estão quase sempre acompanhados de ansiedade”, ressalta Carlos.

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Ou seja, os sintomas do TOC se dão, basicamente, na tentativa de aliviar uma angústia ou crise de ansiedade a partir de uma série de rituais que, na maioria das vezes, atrapalha a rotina.

Causas

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Ainda não há estudos que comprovem as causas do TOC, de acordo com o psicólogo. Sabe-se, apenas, que há alguns fatores que podem influenciar o quadro:

  • Estrutura familiar frágil
  • Forte influência religiosa (no sentido de crer que para maus comportamentos há sempre um castigo divino)
  • Estilo de vida extremamente estressante
  • Situações traumáticas
  • Alterações no nível de serotonina (neurotransmissor responsável pelo controle da ansiedade).

Fatores de risco

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Estudos sobre os fatores de riscos com relação ao TOC também são inconclusivos. O que se sabe é que há uma chance de existir uma forte ligação entre o desenvolvimento do transtorno e o histórico familiar.

O TOC atinge homens e mulheres na mesma proporção e tende a se desenvolver na infância ou início da adolescência. Entretanto, Carlos ressalta que há, sim, casos em que o transtorno surge somente na vida adulta.

Diagnóstico

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De acordo com Carlos, o diagnóstico do TOC deve ser realizado por um profissional competente da psicologia clínica ou de um médico (normalmente psiquiatras). Para o diagnóstico a partir da psicoterapia, há três formas de ocorrência:

  • Diagnóstico prévio por parte de um médico e encaminhamento para um(a) psicólogo(a), a fim de confirmar a condição;
  • Queixas do paciente com relação a comportamentos e pensamentos intrusivos que possam vir a caracterizar o TOC;
  • Outras queixas distintas e, durante um longo processo de análise, identificar a possibilidade da ocorrência do TOC.

Em qualquer caso, é de extrema importância que o paciente não se diagnostique por conta própria e, se houver desconfiança, que recorra a um profissional da área da psicologia ou psiquiatria.

Tratamentos

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Por ser um transtorno que afeta os indivíduos de maneiras muito variadas, o tratamento do TOC depende de cada caso.

Terapia

De acordo com Carlos, o acompanhamento psicológico pode ser muito valioso para pessoas que sofrem de TOC, pois é uma prática que permite ao ser humano a reflexão sobre esse problema.

As sessões de terapia podem nos ajudar a lidar com os sintomas do transtorno, a entendê-los, a aceitá-los. Isso pode diminuir consideravelmente as crises de ansiedade decorrentes dessa doença.

Medicamentos

Como o TOC mexe com níveis de serotonina, os medicamentos indicados no tratamento do TOC são, no geral, antidepressivos.

“Os remédios são inibidores seletivos de recaptação de serotonina, normalmente os mesmos usados nos quadros de depressão. São os únicos que funcionam”, diz Carlos.

Além dessas duas formas de tratamento, é de grande vantagem que cada paciente procure maneiras de aliviar a tensão causada pela doença, mas sem deixar o acompanhamento profissional de lado. Atividades artísticas ou físicas podem atuar na diminuição da ansiedade.

Convivendo com o TOC

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A convivência com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo é bastante delicada para quem sofre desse problema. A rotina pode ser quebrada a qualquer momento por um ritual que deve ser cumprido, o que ocasiona atrasos e crises de extrema ansiedade.

Mas não é só isso: os sintomas do TOC tendem a interferir não só na vida de quem sofre, mas também de quem convive com pessoas diagnosticadas.

A compreensão é fundamental para que o paciente consiga lidar com esse problema. Por isso, é muito importante que todos se libertem dos estereótipos que rotulam esse transtorno sério, que de brincadeira não tem nada.

“Em casos de transtornos como o obsessivo-compulsivo, bipolar, de pânico e até em depressão, se há um comprometimento dos familiares e amigos em evitar um olhar preconceituoso ou de negligência, e, principalmente, em apoiar a pessoa durante o tratamento, as chances de progresso aumentam”, alerta o psicólogo Carlos Vieira.

Depoimentos

Confira três depoimentos anônimos de pessoas que sofrem de TOC. Neles, é fácil visualizar a rotina conturbada e como é difícil lidar com a ansiedade:

“Toda vez que dirigia pra algum lugar longe, que demorasse no mínimo 10 minutos, eu colocava uma playlist no aleatório no som do meu carro. A questão é: preciso chegar até meu destino final antes de três músicas. Caso tocasse a terceira música e não tivesse chegado ao local, eu refazia o percurso do zero e colocava outras músicas antes de chegar numa terceira. Para que eu conseguisse chegar a tempo, eu corria muito, fazia ultrapassagens e até cruzava sinais vermelhos. Se eu não ‘obedecesse’ esse comando, sentia que minha semana seria comprometida e todos meus dias da semana seriam ruins. Não foi fácil, sempre gostei de ouvir música no carro, mas depois de um tempo de terapia, a solução foi surgindo aos poucos e hoje raramente tenho este comportamento. E, se tenho, o único efeito punitivo comigo mesmo é que fico irritado. Um avanço pra quem já refez percurso duas vezes pra um determinado destino.”

“Quando comecei minha vida sexual, fazia sexo protegido e minha namorada tomava anticoncepcional regularmente, nunca havia esquecido. Um dia, estava na aula do meu curso superior e recebi uma mensagem dela às 8 da manhã. Disse que estava se sentindo enjoada e por isso não saiu de casa. Fiquei transtornado, sabia que havíamos feito sexo dois dias antes e achei que ela pudesse estar grávida. Fui embora da aula apenas cinco minutos depois de ter começado. Chegando em casa, pesquisei sintomas de gravidez no Google em vários idiomas, vi provavelmente mais de vinte páginas de cada idioma, pesquisei combinações diferentes… Lembro de ter perdido uma manhã e a tarde toda literalmente sentado em frente ao computador pesquisando e lendo sobre isso e mesmo assim minha ansiedade não ia embora. Se não fizesse isso, sentia que minha namorada ia realmente estar grávida e a forma de evitar era se eu lesse e pesquisasse muito do assunto. Sabia que havia algo de diferente comigo há alguns anos, mas nunca me importei em saber o que era. Depois desse episódio, percebi que precisava de ajuda. Fui a um clínico geral e ele me recomendou uma psicóloga, e depois de um tempo fui diagnosticado com TOC. Tenho feito terapia e tomado remédio desde então.”

“Não consigo prestar atenção nas aulas da minha faculdade, mesmo sendo disciplinas que gosto. Depois de aproximadamente 20 minutos de aula, vou até as últimas folhas do caderno e faço listas de todos os tipos: músicas que gosto, filmes que gosto, invento discografias por ordem de álbuns que não existem. A ansiedade não me deixa em paz se não fizer. Estes comportamentos até fazem as aulas passarem bem mais rápido, mas quase nunca as aproveito.”

Com certeza, o TOC é um problema muito grave que não pode ser revestido de estereótipos. Uma convivência difícil como essa precisa ser discutida de maneira mais atenciosa. Você tem alguma dúvida com relação a esse transtorno? Talvez seja possível solucioná-la.

Perguntas frequentes

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O que é mito e o que é verdade quando o assunto é TOC? Existem muitas dúvidas com relação a esse transtorno, que devem ser esclarecidas para desmistificar vários pontos sobre essa doença bastante recorrente, mas pouco levada a sério.

1. TOC tem cura?

Segundo Carlos, não. “Mas há uma variedade de tratamentos com excelentes resultados dentro da psicologia e da medicina que podem levar a uma considerável diminuição dos sintomas”, diz.

2. Manias de organização e/ou limpeza podem caracterizar o TOC?

Não é uma regra. Gostar de limpar e organizar a casa não é, necessariamente, um problema e não há motivos para se rotular com um transtorno.

Isso passa a ser preocupante, de acordo com Carlos, quando a mania é acompanhada de um medo de uma punição irreal e/ou uma grande carga de ansiedade se a pessoa não realizar essas atividades.

“Uma pessoa sem TOC teria satisfação em concluir essas tarefas, enquanto alguém com TOC, não, mesmo após realizá-las repetidas vezes, de várias formas diferentes e por muito tempo”, ressalta o profissional.

3. É possível conviver com o TOC sem medicamento? E sem acompanhamento psicológico?

“A ausência da medicação vai depender de cada caso específico. Atualmente, há cada vez mais casos de pessoas que são resistentes às medicações. Seja por opção pessoal, pela maneira que os efeitos colaterais agem no indivíduo, preço das medicações ou outros motivos”.

Entretanto, Carlos alerta que essa decisão deve ser tomada de maneira responsável, com a orientação dos profissionais adequados.

Quanto à ausência de acompanhamento psicológico, Carlos não recomenda. “Através da terapia, o paciente pode trabalhar questões relacionadas não só ao TOC, mas também à vida, suas angústias, suas aspirações…” e, pouco a pouco, aprender a lidar com a condição.

4. O TOC pode desencadear alguns problemas mais graves, como depressão e pensamentos suicidas?

“Sim. Indivíduos que têm TOC sem diagnóstico podem sofrer de depressão e os casos mais graves desencadeiam pensamentos suicidas. O TOC não tratado também pode gerar transtornos graves de ansiedade e fobias sociais, por exemplo.”

O psicólogo exemplifica: “Há casos em que a pessoa se demitiu pois, não sabendo que tinha TOC, não conseguia explicar ou controlar o que sentia. Ela fica tão refém dos pensamentos obsessivos que não é capaz de dar conta de sua vida profissional. Consequentemente, pode desenvolver uma profunda depressão.”

5. E depois que os rituais são cumpridos? A ansiedade passa?

Não. “Se as tarefas forem realizadas, não há garantia de que os pensamentos punitivos e a ansiedade desapareçam. Aliás, na maioria das vezes, eles continuam e a pessoa acaba realizando as tarefas de formas diferentes e repetitivas ao longo do dia”, diz.

Vale ressaltar, mais uma vez, que o TOC não deve ser diagnosticado por outras pessoas que não sejam os profissionais indicados acima. Se você sofre de alguma mania diária acompanhada de crises de ansiedade e pensamentos punitivos, procure um psicólogo ou um médico.

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