Agitação e expressão de medo são sinais característicos do Terror Noturno em crianças

O distúrbio dura alguns minutos e atinge, na maioria dos casos, crianças, mas pode ocorrer em outras faixas etárias

Escrito por Tais Romanelli
Foto: Getty Images

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O terror noturno é um distúrbio do sono e dura alguns minutos. Frequentemente pode ser acompanhado de sonambulismo. Embora a prevalência seja bem maior em crianças de até 5 anos, pode ocorrer em outras faixas etárias.

Mario Louzã, médico psiquiatra, doutor em Medicina pela Universidade de Würzburg, e Membro Filiado do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, explica que o terror noturno (TN) é um distúrbio do sono que está incluído no grupo das parassonias. “Caracteriza-se por um comportamento abrupto de agitação motora e medo ou manifestação de terror, com duração breve, durante o sono. Ocorrem manifestações físicas de terror/medo, como por exemplo, taquicardia e sudorese. A pessoa em geral não responde aos estímulos do ambiente”, diz.

“Tipicamente, a criança no meio da noite grita, agita-se na cama, tem a expressão de medo ou terror; isto dura alguns minutos e ela volta a dormir como se nada tivesse acontecido. Devido à agitação, eventualmente a criança pode se machucar, havendo muitas vezes necessidade de contê-la para evitar ferimentos. Geralmente a pessoa não se lembra no dia seguinte do episódio de TN”, destaca Louzã.

O médico ressalta que o TN é típico de crianças, em geral entre os 3 e os 8 anos de idade (até 6% de prevalência), sendo mais raro em adultos (2% de prevalência).

Terror Noturno X Pesadelo

Louzã destaca que o sono é dividido em fase REM (Rapid Eye Movements) e não-REM. O TN ocorre na fase não-REM; já o pesadelo, durante a fase REM (período do sono em que ocorrem os sonhos).

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A psicóloga Thais Khoury, especialista do Personare, explica que os pesadelos, em geral, apesar de impactantes, ocorrem durante o sono REM, mais profundo, e em geral podem ser lembrados sem grandes confusões. “Muitas vezes a pessoa nem mesmo acorda ou acorda rapidamente, voltando a dormir em seguida. Já o terror noturno é acompanhado de sintomas típicos, e ocorre em estágios de sono menos profundos, ocasionando desorientação e sensação de pavor. Em geral, os conteúdos não podem ser recordados”, diz.

Causas do Terror Noturno

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Não se sabe exatamente quais são as causas do TN. “Fatores genéticos e do neurodesenvolvimento podem estar implicados. Aparentemente estes levam a uma instabilidade das ondas lentas do sono. Alguns fatores parecem aumentar a chance de TN: privação de sono, apneia obstrutiva (prejuízo na respiração durante o sono, com paradas respiratórias por obstrução das vias aéreas)”, diz Louzã.

Thais destaca que as causas do terror noturno podem estar ligadas a uma imaturidade do Sistema Nervoso, o que permitiria compreender a prevalência em crianças pequenas. “Não é incomum que haja ocorrências em família, embora não haja evidência de que seja genético. Fatores externos como mudança brusca de rotina e estresse podem favorecer o aparecimento de crises. Privação de sono pode ser um fator que também contribui, assim como o uso de medicamentos ou suspensão dos mesmos”, ressalta.

Sintomas do Terror Noturno

Thais destaca os principais sinais do TN:

  • Agitação;
  • Gemidos;
  • Expressões de terror;
  • Gritos;
  • Confusão mental que perdura ao acordar, podendo não reconhecer as pessoas ao redor e também apresentar um comportamento agressivo consigo e com outros.

Vale lembrar que, devido à agitação, eventualmente a criança/pessoa pode se machucar durante o episódio de terror noturno.

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O que fazer durante um episódio de TN?

Thais destaca que deve-se evitar acordar a criança ou adulto. “As medidas mais diretas envolvem observar para que não caiam ou se machuquem, quebrem objetos ou saiam do quarto… Apaziguar a criança, caso ela acorde, de maneira carinhosa e compreensiva. E, em casos onde a recorrência é muito frequente ou intensa com possibilidade de autoagressão, deve-se buscar o acompanhamento profissional”, diz.

Louzã ressalta que o que os pais devem fazer é, basicamente, conter a criança para evitar que se machuque. “Devem ainda manter a calma, tentar conversar com a criança (embora quase sempre a criança não interaja na conversa). E é importante levar a criança para avaliação com o psiquiatra ou neuropediatra”, diz.

Tratamento para o Terror Noturno

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De acordo com Thais, os tratamentos giram em torno da psicoterapia, o acompanhamento familiar e medidas preventivas, e eventualmente a prescrição de medicamentos. “Com o tempo e a maturidade, os sintomas tendem a desaparecer. Mas, em adultos com episódios recorrentes, o tratamento pode ser mais difícil. Cada caso deve ser particularmente avaliado para um melhor encaminhamento”, diz a psicóloga.

Louzã ressalta que em casos em que a agitação é mais grave, podem ser receitados medicamentos antidepressivos.

Formas de prevenir o Terror Noturno

Para evitar o TN, as orientações da psicóloga Thais são:

  • Evitar fatores de estresse que possam aumentar o nível de ansiedade;
  • Buscar consistência no horário do sono;
  • Evitar alimentos de difícil digestão, gordurosos e estimulantes;
  • Atentar para medicações em uso que possam desencadear os episódios;
  • Cuidar da qualidade afetiva das relações de forma consistente.

“Essas são medidas que podem ajudar a minimizar as possibilidades de ocorrência da crise, embora não haja garantias. Em alguns casos, é importante não deixar objetos perigosos ao alcance ou portas abertas que permitam a saída para a rua, a fim de prevenir situações de risco para a pessoa. Oferecer acalento no momento em que a pessoa desperte também pode ser de grande valor para acalmar e permitir que ela se reestabilize”, finaliza a psicóloga.

Embora não costume gerar problemas graves, é válido ter bons hábitos a fim de evitar episódios de terror noturno. No caso das crianças, em especial – que representam a maioria dos pacientes com esse distúrbio –, os pais devem estar atentos para evitar que elas se machuquem. Devem ainda demonstrar todo amor e compreensão na forma de lidar com elas, além de não hesitar em buscar ajuda profissional.

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