Fome e mau humor realmente têm ligação? A ciência esclarece

Escrito por Raquel Praconi Pinzon

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Você deu a maior “patada” na sua melhor amiga, ignorou o namorado no WhatsApp, se irritou com a sua mãe e depois teve que pedir desculpa para todo mundo porque descobriu que seu mal era fome?

Bem, descontar nosso mau humor em quem está perto de nós não é um comportamento desejável, mas, nesse caso, a fome realmente pode explicar boa parte do problema.

É bem possível que você já tenha feito a associação entre a falta de comida e a irritação, mas o que você talvez não saiba é que um estudo feito na Universidade Estadual da Flórida encontrou indícios que comprovam essa relação.

A glicose e os bonecos de vudu

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Partindo do princípio de que demonstramos mais nossa irritação às pessoas que são mais próximas de nós, os pesquisadores recrutaram 107 casais que viviam juntos para investigar a influência dos níveis de glicose no sangue (glicemia) e o grau de agressividade de cada indivíduo.

Para isso, os participantes tiveram que medir sua glicemia antes do café da manhã e antes de dormir durante 21 dias. O interesse dos pesquisadores nesse dado estava no fato de que, em pessoas saudáveis, os níveis de glicose aumentam quando nos alimentamos e diminuem quando passamos muito tempo sem comer – ou seja, a glicemia cai quando estamos com fome.

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Além disso, para que fosse possível medir os impulsos de agressividade, os participantes tiveram que realizar mais uma tarefa: todas as noites, de acordo com o nível de irritação que estavam sentindo em relação ao cônjuge, eles deveriam espetar um boneco de vudu que representava o parceiro ou a parceira com 0 a 51 alfinetes.

Essa tarefa deveria ser feita de forma isolada e cada pessoa deveria anotar o número de alfinetes utilizados. E, como você pode imaginar, o resultado foi que níveis mais baixos de glicose no sangue à noite estavam associados a um maior número de alfinetes espetados no boneco de vudu, ou seja, havia uma tendência maior a apresentar impulsos agressivos em relação a uma pessoa próxima.

Impulsos agressivos x comportamento agressivo

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Ter um impulso de agressividade não significa necessariamente que teremos um comportamento de fato agressivo, pois temos mecanismos de autocontrole. Porém, os cientistas queriam investigar se esse aspecto também sofreria influência dos níveis de glicose.

Para isso, ao fim dos 21 dias do estudo, os casais se deslocaram ao laboratório para participar de um teste. Os cientistas disseram aos participantes que os parceiros disputariam entre si em um jogo de computador simples, e o perdedor sofreria o “castigo” de ouvir barulhos irritantes (unhas arranhando um quadro-negro, motor de dentista, sirene de ambulância etc.) em um fone de ouvido.

A intensidade e a duração desses ruídos seriam definidas pelo vencedor, que poderia escolher entre barulhos de 60 a 105 decibéis (equivalente a um alarme de incêndio) e tempos entre 0,5 a 5 segundos. Havia também uma opção em que nenhum ruído seria emitido nos fones de ouvido do cônjuge perdedor.

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O que os participantes não sabiam é que as partidas do jogo de computador tinham resultados pré-determinados, de forma que cada indivíduo perderia 13 das 25 disputas, e que os ruídos que eles estavam ouvindo nos fones não haviam sido escolhidos pelos cônjuges – na verdade, os sons já haviam sido definidos pelos cientistas e, mesmo variando entre si, estavam sempre dentro dos limites seguros para a audição.

Assim, o que realmente importava é que os participantes acreditavam ter em mãos uma “arma” que poderia causar diferentes níveis de sofrimento (ou nenhum sofrimento) a seus parceiros, uma metodologia já utilizada anteriormente para medir o comportamento agressivo em laboratório.

Como os cientistas previram, os participantes que tiveram níveis menores de glicose no dia a dia (medidos ao longo dos 21 dias do estudo) apresentaram uma inclinação maior a escolher ruídos mais intensos e prolongados, o que pode ser entendido como uma tendência maior a ter um comportamento agressivo.

Por que a falta de glicose aumenta a agressividade?

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Você já deve ter estado em uma situação em que ficou muito nervosa, mas precisou engolir a raiva para não fazer nenhuma besteira, certo? Isso é possível por causa do nosso autocontrole, que nos permite frear impulsos prejudiciais – e é essencial para manter um bom relacionamento com qualquer pessoa.

Porém, o autocontrole não é um recurso inesgotável: dessa forma, quando precisamos acioná-lo, passamos a ter um pouco menos dessa capacidade para os próximos desafios, nos deixando mais propícias a sucumbir a nossos ímpetos.

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Outro fator importante é que ter autocontrole demanda muita energia, a qual é obtida, em grande parte, pela transformação da glicose proveniente dos alimentos que consumimos. Assim, quando a glicemia cai, temos menos energia para acionar o autocontrole, dando lugar a atos de agressividade, fúria e negativismo.

Como uma das principais causas da queda da glicemia é justamente o fato de passar muito tempo sem comer, você já deve ter concluído: sim, a fome nos deixa de mau humor – não que a gente precisasse de uma pesquisa científica para saber disso!

Contudo, nunca é demais lembrar: a irritação causada pela queda dos níveis de glicose é bem diferente de uma agressão física e outras atitudes que coloquem você em risco. Portanto, embora a fome possa explicar o mau humor, ela não é desculpa para um comportamento abusivo, combinado?

Assuntos: Bem-Estar

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