Puerpério: o que é, fases, mudanças físicas e emocionais

Escrito por Tais Romanelli

Foto: iStock

Puerpério, quarentena ou resguardo. Ambos os nomes se referem ao período pós-parto, em que a mulher se recupera das modificações sofridas durante a gestação.

Erica Mantelli, graduada pela Faculdade de Medicina da Universidade de Santo Amaro, com título de especialista em Ginecologia e Obstetrícia, pós-graduada em Medicina Legal e Perícias Médicas e Sexologia/Sexualidade Humana pela Universidade de São Paulo (USP), explica que o puerpério inicia-se logo após o nascimento do bebê e dura, aproximadamente, de seis a oito semanas.

Engana-se quem pensa que as alterações durante o puerpério são só de caráter físico. Saiba mais sobre as características deste período e entenda o que ele significa para a mulher.

Fases do puerpério

Foto: iStock

Erica explica como são classificadas as fases do puerpério:

  • Imediato: acontece logo após a saída da placenta e dura até 2 horas
  • Mediato: ocorre das 2 horas até, aproximadamente, 10 dias após o parto
  • Tardio: acontece a partir de 10 dias até 45 dias após o parto
  • Puerpério remoto: 45 dias até 60 dias após o parto

Durante todo o puerpério, o corpo da mulher passa por uma série de transformações que mexem, inclusive, com o emocional. Por isso, o olhar atento e apoio da família é bastante importante em todas as fases do período.

Leia também: 10 corpos de mulheres após a gravidez para você observar, admirar e respeitar

O que acontece no corpo da mulher?

Foto: iStock

Erica lembra que é na fase de puerpério que o corpo da mulher vai retornando às condições anteriores da gestação. “Todos os órgãos que sofreram alterações para dar espaço para o crescimento do útero voltam ao seu local habitual”, diz.

Neste sentido, veja as principais transformações que acontecem durante o puerpério e como elas refletem no dia a dia da mulher.

Útero

No pós-parto, ocorre a queda dos níveis de estrogênio e progesterona. Com isso, o útero começa a voltar ao seu tamanho normal, diminuindo cerca de um centímetro por dia.

Nessa fase, a mulher pode sentir algum incômodo abdominal, especialmente quando amamenta.

Sangramentos

Com o útero se contraindo para voltar ao normal, ocorre sangramento, chamado de lóquio. E, especialmente nos primeiros dias, o fluxo é intenso, com sangue vermelho, semelhante ao da menstruação. Mas, com o passar dos dias, o fluxo diminui e o sangue torna-se mais claro.

Leia também: 11 dúvidas comuns sobre licença paternidade esclarecidas

Coluna

Erica destaca que a coluna, que foi desviada durante a gravidez por conta do crescimento uterino, e também para compensar o centro de gravidade da mulher, vai voltando a se retificar durante o puerpério.

Não por acaso, muitas mulheres acabam sentindo dores nas costas neste período pós-parto. Isso costuma ser intensificado devido aos cuidados da mãe com o bebê (segurar no colo, amamentar, dar banho, trocar fraldas etc.).

Mamas

No puerpério, as mamas ficam mais cheias e doloridas, devido à produção de leite. Mas, a boa notícia é que a melhora dos sintomas ocorre exatamente através da amamentação.

Região íntima

Após ter o bebê, independentemente do tipo de parto, é normal a mulher notar sua vagina mais dilatada e inchada nos primeiros dias pós-parto.

As mulheres que tiveram parto normal com episiotomia (corte entre a vagina e ânus), em especial, costumam sentir dor e desconforto nesta região.

Leia também: Aleitamento materno: tire dúvidas e confira as dicas e relatos de mães

Incontinência urinária

Pode ocorrer, embora não seja regra, incontinência urinária, ou seja, aquele desejo súbito de urinar sem que seja possível “segurar”.

Este quadro pode durar até três meses, mas também pode ser controlado com a ajuda de exercícios que fortalecem a musculatura do períneo.

Hemorroida

Há chances de a mulher desenvolver hemorroida (dilatação das veias do ânus) devido à força exercida no parto.

Este quadro pode causar dores e até sangramento, mas, com o tratamento adequado indicado pelo médico, não oferece complicações.

Barriga

O abdômen não “diminui da noite para o dia”, vai voltando ao normal aos poucos. E isso pode fazer com que a pele fique flácida.

Algumas mulheres podem ainda ter diástase abdominal, que acontece quando os músculos da parede abdominal são separados.

Vale lembrar que, durante o puerpério, a amamentação é uma grande aliada da mãe. A sucção estimula a liberação de ocitocina, hormônio que, entre outros pontos, ajuda a mulher a voltar à sua forma física após o parto.

O que acontece com o emocional?

Foto: iStock

Erica Mantelli destaca que, no puerpério, ocorrem muitas mudanças emocionais, principalmente por conta das alterações hormonais. “Mas, também, é nessa fase que a mulher está se descobrindo como mãe, e isso gera um complexo de emoções”, explica.

Algumas alterações que podem ocorrer no puerpério, do ponto de vista emocional, são:

Insegurança, medo de “não dar conta” e tristeza

Além das alterações biológicas, provenientes de alterações hormonais bruscas, o próprio fato de tornar-se mãe é marcado por mudanças radicais. Tanto do ponto de vista psicológico, como social.

Existe, então, uma verdadeira adaptação da mulher a este novo papel e uma necessidade de “reorganização na rotina”. Isso é muito mais evidente em “mães de primeira viagem”, mas as mulheres que já tiveram filhos também não ficam imunes a todas as mudanças.

Com o nascimento do bebê, a mulher sente um súbito aumento de responsabilidade. Afinal, torna-se a referência de uma pessoa indefesa, sofre privação de sono, sente-se cansada, percebe mudanças físicas, entre muitos outros pontos. Tudo isso associado costuma gerar aquela sensação de “eu não vou dar conta”.

Não por acaso, grande parte das mulheres passam por um momento de tristeza após o parto, conhecido como “baby blues”. Esse período costuma durar até duas semanas após o nascimento do bebê.

Nesta fase, ela pode ter crises de choro, ataques de raiva, noites mal dormidas e muitas dificuldades de adaptação com a nova rotina que um bebê exige (banhos, amamentação, identificação do choro etc.). Mas, esta tristeza tende a sumir sozinha e não caracteriza um quadro de depressão pós-parto.

Privação do sono

Erica destaca que a privação do sono, por conta de o filho acordar diversas vezes durante a madrugada, faz com que as mães fiquem cansadas e estressadas.

Dificuldades com a amamentação

A ginecologista e obstetra Erica explica que, geralmente, o processo de amamentação é difícil, principalmente no início, e isso gera ansiedade e preocupação para a mãe.

Frustração e culpa

“Outro fator importante é a diferença entre o bebê idealizado durante a gravidez e o real, podendo gerar uma frustação e dificuldade de aceitação”, acrescenta Erica.

Tal frustração pode ainda gerar um sentimento de culpa, visto que uma mãe espera estar “inundada por sentimentos de felicidade e satisfação” em um momento tão especial (que é a chegada do bebê).

Então, quando ela não consegue sentir isso, enxergar “todo aquele amor incondicional” que as pessoas tanto falam, ela costuma se culpar por isso. Encontra ainda muita dificuldade para falar dos problemas e sentimentos negativos que está enfrentando.

Depressão pós-parto

Erica lembra que é comum a mulher sentir uma tristeza a partir do terceiro dia do pós-parto até duas semanas depois; isso é chamado de “baby blues”. “Nesse período, as mulheres têm alterações no nível de humor e acabam ficando mais chorosas. Porém, o problema é quando esses sintomas ficam mais intensos e acabam desenvolvendo o quadro de depressão”, explica.

Na depressão, salienta a ginecologista e obstetra, a mãe sente uma tristeza profunda e permanente. “Ela não possui vontade de se cuidar e, muitas vezes, acaba negligenciando os cuidados com o bebê. A mulher pode ter também ideias suicidas”, acrescenta.

Psicose pós-parto

Uma depressão pós-parto pode evoluir para um quadro de psicose pós-parto. Isso acontece quando a mulher passa a apresentar, também, além de tristeza profunda, uma confusão mental, com delírios e visões.

Erica ressalta que são diversas alterações que acontecem no puerpério. “E, por isso, é importante o contato de toda uma equipe médica com a mulher e a família, para acompanhar de perto todas as mudanças e sintomas, para que não ocorra nada além do esperado”, explica.

Amenizando os sintomas

Foto: iStock

Mas, como passar pelo puerpério da melhor forma possível? Embora cada mulher encare o período de uma maneira, abaixo você confere algumas dicas que fazem toda a diferença:

  • Prepare-se: “para amenizar os sintomas, principalmente os ligados às alterações emocionais no período de puerpério, é importante a mulher se preparar desde a gravidez. O obstetra deve conversar durante toda a gravidez com a paciente sobre como vai ser esse período e já prepará-la para as possíveis alterações”, explica Erica.
  • Tenha uma rede de apoio: além do médico, destaca Erica, a mulher deve conversar com a família e, principalmente, criar uma rede de apoio. “Ou seja, ter uma mãe, sogra, tia, vizinha, amiga, alguém com que ela possa contar para que tenha um período de descanso. A mulher não deve sentir vergonha de pedir ajuda”, orienta.
  • Descanse: Erica explica que, no pós-parto, a mãe também está em recuperação, portanto, é importante que ela tenha um tempo de descanso. “Muitas mães querem fazer tudo, dar conta do bebê e da casa. O ideal é se planejar antes para deixar tudo organizado e facilitar as coisas do dia a dia, evitando assim que ela tenha mais trabalho e estresse nesse período delicado”, destaca.
  • Exercite-se: Erica explica que a prática de atividade física e de alguma atividade relaxante também serve como prevenção e auxilia contra a depressão.
  • Tenha uma alimentação e hábitos saudáveis: preze por uma alimentação equilibrada, não fique muito tempo sem se alimentar e beba bastante água. Não fume e não consuma bebidas alcoólicas. Tudo isso contribui para um quadro emocional mais estável.
  • Não se desespere: tenha em mente que, por mais difícil que a fase seja, ela passará. Mas não hesite em pedir ajuda e falar sobre seus sentimentos.

Vele lembrar que o acompanhamento médico é fundamental tanto no período de gravidez como no pós-parto.

Consultas médicas pós-parto

Foto: iStock

Erica explica que, na fase após a gestação, é indicado que a mulher retorne ao obstetra cerca de 7 a 10 dias após o nascimento do bebê, para que o profissional faça uma avaliação, independentemente do tipo do parto por qual ela passou.

“Nessa avaliação, o médico vai orientar, vai verificar como está o sangramento, o útero… E esta também é uma excelente oportunidade para avaliar os aspectos emocionais. Aquela mãe que vem apresentando algum sinal de melancolia acentuada, por exemplo, já é um sinal de alerta para o médico”, acrescenta a ginecologista e obstetra.

Complicações

Erica explica que as principais complicações são:

  • Hemorragias no período imediato do pós-parto;
  • Processos infecciosos, que podem ser tanto no útero quanto nas mamas;
  • Alterações emocionais.

“Todas essas complicações podem ser diagnosticadas precocemente e devem receber o tratamento adequado”, finaliza a ginecologista e obstetra.

Assuntos: Bebês

Para você