Ortorexia: quando a preocupação em comer bem traz prejuízos

Neste quadro comportamental, o objetivo não é o baixo peso corporal, mas a "manutenção" da saúde

Escrito por Tais Romanelli

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Atualmente, existe uma preocupação crescente em se alimentar bem. E isso tem suas muitas vantagens para a saúde. Porém, em alguns casos – quando tal preocupação torna-se excessiva –, as consequências são negativas.

A ortorexia nervosa (ON), embora ainda não seja tão conhecida, é caracterizada pela obsessão em comer de forma saudável (ortho: correto; orexis: apetite). Maria Del Rosário, médica nutróloga e Diretora do Departamento de Transtornos Alimentares da Associação Brasileira de Nutrologia, explica que a pessoa com este quadro apresenta uma preocupação exagerada com a qualidade da alimentação, chegando a limitar a variedade de alimentos consumidos. “Assim, elas acabam muitas vezes excluindo certos grupos como, por exemplo, carnes, laticínios, gorduras e carboidratos, sem fazer a substituição adequada. E isso pode levar a quadros de carências nutricionais ou até a outro transtorno alimentar”, diz.

Luciana Kotaka, psicóloga clínica há 21 anos, especialista em Obesidade e Transtornos Alimentares e Hipnoterapeuta, comenta que a ON é descrita como um comportamento obsessivo patológico.

A psicóloga explica que, na ON, o desejo é o de melhorar a saúde. O curioso é que a tônica central não é a preocupação com o peso, mas, sim, o desejo de prevenir ou eliminar sintomas físicos (reais ou exagerados). “Ou ainda, de ser puro, natural, atingindo até conotações religiosas”, diz.

Maria comenta que ainda não se sabe a verdadeira prevalência da ON na população geral. “Mas, apesar de não ser uma doença oficial, descrita nos manuais médicos, ela tem sido vista com frequência nos consultórios. Uma recente revisão nos Estados Unidos estimou a prevalência da ON na população geral em 1%”, diz. “Os trabalhos científicos também identificaram grupos de risco, como os profissionais da área da saúde, artistas, esportistas e atletas”, acrescenta.

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Sinais da ortorexia nervosa

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Comer de forma saudável é ótimo e recomendado. Mas, até que ponto?

Maria destaca que o limite com o cuidado sadio e a ON é tênue, por isso, muitas vezes ela pode passar despercebida pelo olhar de um profissional não especializado em transtornos alimentares. “O problema é que a pessoa não procura ajuda porque acredita que está fazendo a escolha certa. O ortoréxico acredita ter uma alimentação exemplar, tenta convencer quem está por perto e também critica os outros que não comem corretamente”, comenta.

Dessa forma, alguns sinais de alerta e consequências, que podem estar associados à ortorexia nervosa, são:

  • Rigidez alimentar: as pessoas com este quadro tendem a excluir da sua alimentação alimentos que consideram “impuros”, por exemplo, por conterem agrotóxicos, conservantes, corantes, gorduras trans, gordura, açúcar e até glúten ou lactose (e fazem isso muitas vezes sem ter a intolerância comprovada).
  • Busca por normas: além da exclusão de determinados alimentos, Maria destaca que também é comum a pessoa desenvolver rituais quanto à forma de preparo e aos utensílios utilizados. “Com isso, a dieta fica limitada e pobre em nutrientes. A pessoa com ON inicia uma busca obsessiva por normas ou regras de alimentação saudável e não percebe que a extrema preocupação com a dieta prejudica outras áreas da sua vida. São os familiares e amigos os primeiros a observar que o paciente está sendo muito rígido e inflexível com as escolhas alimentares”, diz.
  • Alimentação não prazerosa: com tanta rigidez no preparo e consumo dos alimentos, a dieta fica monótona, não há momentos para “exceções” e para “comer com prazer” determinado prato/alimento.
  • Culpa e radicalismo: quando a pessoa com ON “cede às tentações” e/ou “quebra as regras” da sua alimentação, se culpa excessivamente, e logo começa a buscar uma “nova dieta” que tende a ter características ainda mais rígidas. Maria destaca que a pessoa também pode realizar autopunições, como, por exemplo, jejuns, nova restrição alimentar ou excesso de exercícios físicos.
  • Emagrecimento e déficit de nutrientes: “quando a ingestão insuficiente de alimentos é importante, também aparece a magreza (o emagrecimento e os quadros de desnutrição). É neste momento que o familiar procura ajuda”, destaca Maria. O déficit de nutrientes pode ainda ocasionar problemas como osteopenia, anemia, déficit de vitaminas, queda do cabelo, déficit de memória e concentração, unhas quebradiças e desmaios.
  • Isolamento social: Luciana ressalta que a pessoa com ON tende a se isolar de amigos e familiares. “Pois só quer consumir o que prepara em sua casa e aquilo que tem certeza de que está dentro dos critérios que ela definiu como adequados. Essa patologia acaba por afetar como um todo a vida do indivíduo, afastando-o de todo contexto social”, explica a psicóloga especialista em transtornos alimentares.

“Na minha experiência como nutróloga especializada em transtornos alimentares já atendi também pacientes mulheres com ON em idade fértil e com antecedentes de aborto, em função das suas dietas restritivas em nutrientes muito importantes para uma gestação adequada e saudável”, acrescenta Maria.

Ortorexia x anorexia

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A psicóloga Luciana explica que, na ortorexia, o objetivo não é o baixo peso corporal e, sim, a qualidade do alimento. “Na anorexia, por vez, há uma busca por uma imagem corporal específica, pelo peso abaixo do esperado para sua estrutura física”, diz.

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Maria reforça que, no caso da ortorexia, a preocupação é com a saúde. “Na anorexia nervosa, o motivo para deixar de comer de forma adequada é o medo de engordar. E as pessoas com este transtorno apresentam distorção da autoimagem corporal. Mas, é importante lembrar que pode existir uma passagem de um quadro para outro, por exemplo: a pessoa pode começar com ortorexia e, depois de um tempo, isso levar à anorexia… Assim como já tivemos casos em consultório em que pacientes com anorexia nervosa, antes de se recuperarem totalmente, apresentavam comportamentos ortoréxicos”, diz.

Principais causas da ortorexia nervosa

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“É muito difícil falarmos em causas, cada pessoa tem um histórico de vida, experiências que favorecem ou não o desenvolvimento desse quadro. Percebo que é uma somatória de fatores que desembocam na patologia em si: perfeccionismo, rigidez, escolhas alimentares, histórico de vida e doenças, etc.”, destaca a psicóloga Luciana.

Maria lista alguns dos principais fatores que podem estar relacionados com ortorexia nervosa:

  • A pessoa que já teve algum transtorno alimentar no passado ou um comportamento alimentar de risco na adolescência, e que não se recuperou totalmente, está mais suscetível a apresentar um quadro de ortorexia nervosa.

  • Os veículos de comunicação, ao propagar matérias sobre dietas da moda, muitas vezes sem evidências científicas, podem influenciar as pessoas a buscarem resultados rápidos e milagrosos de emagrecimento, condenando ainda alguns tipos de alimentos e incentivando a busca exagerada por uma vida mais saudável.
  • A cybercondria diz respeito a pessoas muito ansiosas que procuram informações médicas ou nutricionais pela internet sem consultar um médico ou especialista. Essas pessoas acabam se automedicando e comprando de forma compulsiva produtos divulgados de forma inadequada pela internet.
  • O cyberbulling também acontece na alimentação e na estética, a exemplo de pessoas que criticam ou hostilizam cruelmente a forma como o outro está fisicamente ou como se alimenta.
  • As mídias sociais são outro meio de disseminação de informações sem evidências científicas e, ainda, espaço para leigos criarem versões distorcidas e exageradas sobre alimentação saudável, o que pode influenciar os grupos mais vulneráveis.

A psicóloga Luciana comenta que já existem dados publicados revelando o quanto as mídias têm sido nocivas para esse público que busca a alimentação e corpo perfeitos. “E é claro que só será afetado quem tem uma história e personalidade que favorecem o desenvolvimento desse quadro. A questão é que o excesso de foco em cima de corpos, comidas, roupas, etc., faz com que as pessoas acabem se comparando ao outro… A insatisfação se torna concreta, ficamos expostos, acabamos sendo influenciados mesmo sem termos consciência”, diz.

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Tratamento para a ortorexia

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A ortorexia exige um tratamento multidisciplinar. “O tratamento para os ortoréxicos demanda a intervenção do psiquiatra (que verificará a necessidade de medicar o paciente), de um nutricionista ou nutrólogo (para orientar a alimentação) e de um psicólogo clínico (que trabalhará a relação emocional, comida e corpo, suas crenças, necessidades conscientes e inconscientes que o levam ao transtorno)”, destaca Luciana.

“Devo lembrar que nesse caso a situação se torna delicada, pois temos que atuar em algo que está aparentemente correto. Comer alimentos saudáveis parece inofensivo, e é por um lado – quando este comportamento não impede de se relacionar socialmente, que ele se adapte a outras situações cotidianas, sem radicalismo”, acrescenta a psicóloga.

O nutrólogo deverá fazer, inclusive, conforme destaca Maria, o tratamento nutrológico e medicamentoso das complicações relacionadas à ortorexia, como anemia, osteopenia, déficit de nutrientes, vitaminas e minerais, intolerâncias alimentares.

“É importante realizar o diagnóstico precoce da ON, fazendo a prevenção de quadros graves, mais complexos e demorados para sua recuperação total. Há relatos de casos de ON que precisaram de internação pela gravidade das complicações apresentadas”, comenta Maria.

Vale reforçar que o tratamento para a ortorexia deverá ser individualizado, levando em conta as particularidades de cada paciente.

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Fica claro que a ortorexia nervosa trata-se então de um quadro delicado, visto que é tênue a linha que divide as vantagens de se ter hábitos saudáveis da preocupação excessiva em se alimentar bem (e todas as consequências que isso traz). Porém, ao notar qualquer sinal deste comportamento obsessivo patológico, o paciente ou (mais provavelmente) os parentes e amigos que o cercam não devem hesitar em procurar ajuda profissional.

Assuntos: Alimentação

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