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O amor e os momentos de crise: como lidar com eles?

Dialogar mais parece ser o melhor caminho para seguir com uma relação saudável

em 21/02/2014

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É bastante provável que você conheça algum amigo próximo ou familiar que tenha passado por um processo de divórcio. É possível ainda que você mesma já tenha passado por uma separação (seja de um namorado, seja de um marido).

Os desentendimentos amorosos e os términos de relacionamentos não estão somente nas telas do cinema, da TV ou nas páginas dos livros. Estão presentes no dia a dia de muitas pessoas e, talvez por isso, você já tenha parado e se perguntado: o que há de errado com as relações de hoje? Por que as antigas pareciam mais felizes e duradouras?

Keila Oliveira, psicóloga, sexóloga e terapeuta sexual, destaca que, antigamente, o casamento era um laço adquirido para a vida inteira. Alguns casamentos, inclusive, eram efetivados muito mais por uma convenção social, do que por um objetivo amoroso e de felicidade. “Os tempos mudaram, é claro, mas, a percepção de eternidade fazia com que os cônjuges fossem muito mais complacentes e pacientes uns com os outros”, diz.

Atualmente, acrescenta a profissional, os relacionamentos se baseiam muito mais na busca pela felicidade do que em convenções sociais. “Por um lado, evoluímos bastante, pois ter a felicidade como objetivo principal é muito importante. No entanto, por outro, a felicidade própria muitas vezes tem ficado em evidência, frente à felicidade do parceiro. E acredito que, para um relacionamento duradouro, é preciso que a felicidade do casal seja uma prioridade”, explica Keila.

Maria Cristina Gomes, psicóloga clínica que faz atendimento individual, de casal e família, chama a atenção para o fato de, cada vez mais, as pessoas sentirem medo de ficarem sozinhas. “Assim, quando acreditam encontrar a ‘alma gêmea’, não perdem tempo em correr para o altar (ou cartório). Na maioria dos casos, essas pessoas possuem pouco tempo de relacionamento e acabam oficializando a relação no auge da paixão”, diz.

A psicóloga Maria Cristina explica que, no início de um relacionamento, os parceiros ainda estão conhecendo um ao outro. “Muitas vezes fechamos os olhos para os defeitos e apenas enxergamos o que nos agrado no outro. E quando tem algo que nos incomoda, preferimos deixar de lado em vez de compreender e resolver as diferenças. A ilusão é acreditar que, com o tempo, as pessoas mudam e, assim, a relação poderá ser melhor no futuro. Mas, o fato é que ninguém muda ninguém. Cada um muda a si próprio conforme sua própria percepção da necessidade de mudança”, diz.

Além disso, um dos problemas principais dos relacionamentos atuais é a falta de diálogo entre o casal. “Muitas vezes, uma boa conversa em momentos de crise ou uma psicoterapia de casal poderia evitar uma separação (ou até mesmo um casamento) precoce”, diz Maria Cristina.

Momentos bons X momentos ruins

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Dentro deste contexto, surge uma questão: se os casais enxergassem seu namoro ou casamento como um relacionamento que tem seus “altos” e “baixos”, existiriam menos casos de separação?

“Prefiro dizer que todo casal pode passar por uma crise e enfrentar obstáculos em sua caminhada. Não é assim, também, quando estamos sozinhos?! Somos seres humanos e sujeitos a vivenciar crises e dificuldades em nossas vidas”, opina a psicóloga Maria Cristina. “Soma-se a isso mais uma pessoa, que convive do nosso lado e também traz para a relação suas próprias questões e dificuldades. Cada um traz uma bagagem de vida e padrões relacionais que aprenderam com suas famílias de origem. Quando se unem como um casal, estes padrões podem vir à tona, em alguns momentos, para serem melhor elaborados”, acrescenta.

Maria Cristina frisa que não existe relação perfeita. “Todos precisamos ir nos ajustando uns aos outros conforme convivemos juntos. Alguns casais brigam muito e não conseguem superar os momentos de crise, pois estão sempre vendo no outro a causa de seus problemas. A pergunta principal que cada um deveria sempre se fazer é: qual é a minha contribuição para que a relação esteja desta forma?”, diz.

A psicóloga Maria Cristina explica que as pessoas precisam se unir com a maturidade de enxergar que, na relação, os dois não viram um. “Cada um precisa existir no relacionamento; homem e mulher continuam sendo dois indivíduos que se uniram para trilhar um novo caminho juntos. Para isso, precisa haver a compreensão de que cada um tem sua responsabilidade para manter esta relação saudável”, diz. “Com isso, ao passarem por crises e dificuldades, deixariam de acusar um ao outro”, acrescenta.

Keila Oliveira reforça que é comum, entre um casal, haver divergências de atitudes, vontades e gostos. “Viver a dois requer paciência, abrir mão de algumas coisas e ser muito complacente”, diz.

Porém, não são raros os casos de pessoas que se decepcionam com seu parceiro assim que surge o primeiro desentendimento ou uma simples divergência de opinião.

Isso acontece, de acordo com a psicóloga Keila, porque as pessoas estão sempre na busca do “par perfeito” e esperam do outro, muitas vezes, além do que este pode dar. “Pensamos em desistir nas primeiras dificuldades e quando esbarramos nos primeiros defeitos. Consequência das atribulações modernas e do lema de que ‘a fila anda’. Passamos a esperar demais de um relacionamento e ficamos na expectativa de que, se não der certo, procuramos outro(a) e por aí vai”, explica.

Keila Oliveira destaca que, crises conjugais , períodos de “altos” e “baixos”, podem permear o relacionamento ao longo do tempo. “Mas o que diferencia casais de longa data dos que têm relações mais curtas, muitas vezes, é a capacidade de entender as imperfeições e os erros do outro e tentar sempre se corrigir com próprios erros. Entender que o outro tem defeitos que não serão ou não poderão ser mudados pode ser a chave para muitas portas”, diz.

Vale ressaltar que homens e mulheres são diferentes, pensam e agem de formas diferentes. “Aceitar e entender as peculiaridades de cada sexo também é importante e ajuda a dar intimidade e privacidade”, acrescenta a psicóloga Keila.

A importância do diálogo

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Cada casal tem seus problemas particulares. Porém, algumas queixas são bastante conhecidas entre a maioria deles. “Ele não se importa comigo”; “Ela reclama demais”; entre outros exemplos.

“Porém, observo que a dificuldade principal está sempre além da queixa que trazem ao consultório. Geralmente o problema é a falta de diálogo. E dialogar não é um falar e o outro ouvir. São ambos colocarem suas questões e pontos de vista, aceitando ouvir e compreender o outro também”, destaca a psicóloga Maria Cristina.

A profissional explica que, quase sempre, as pessoas não querem assumir suas próprias dificuldades e perceber como contribuem para um problema na relação. “Um bom exemplo seria o homem que acha que a mulher cobra muito e a mulher que percebe o homem como omisso na relação. Ele certamente se justificará dizendo que ele é assim porque ela cobra demais dele. Ela, por sua vez, dirá que precisa cobrar para que ele se posicione. Ficam nesta luta sem fim, como que em uma porta giratória. O problema continuará se repetindo e a relação seguirá desgastada, até que percebam que ambos são responsáveis pela atitude um do outro”, diz.

Será que a vale a pena?

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Muitas pessoas, em meio a brigas e decepções com o(a) parceiro(a), acabam se perguntando se vale mesmo a pena insistir nessa relação. Algumas pedem conselhos e mais conselhos aos amigos mais próximos, sempre questionando “se não é hora de abandonar o barco e seguir sua vida de outra maneira”.

Porém, a resposta para estas perguntas, somente o próprio casal pode encontrar.

Maria Cristina Gomes explica que o descontentamento não é a única razão para terminar uma relação, mas sim uma oportunidade para a pessoa avaliar o que está por trás deste sentimento. “São muitas variáveis envolvidas e todas devem ser bem trabalhadas. Contudo, penso que uma relação precisa ser prazerosa e trazer felicidade para ambos. E se a única coisa que ela trouxer for dor e sofrimento, então é preciso rever este relacionamento”, diz.

Se ainda houver vontade de compartilhar com o outro o mesmo caminho, uma boa terapia poderá auxiliar o casal a avaliar se ainda é possível manter uma relação saudável. “Caso contrário, é mesmo preferível interromper uma relação que não traz nenhum sentimento positivo. Buscar as razões de ainda estarem juntos mesmo com uma relação sofrida é importante mesmo que ocorra um término. Assim, diminui-se a possibilidade da repetição de escolhas de parceiros e parceiras que atuam sempre da mesma forma em nossas vidas, de maneira que nunca é possível vivenciar uma relação saudável e feliz”, destaca a psicóloga Maria Cristina.

Para Keila Oliveira, tudo na vida deve ser feito em busca de um equilíbrio. “Dificilmente, acredito, conseguimos estar plenamente satisfeitos com o outro. Somos seres imperfeitos e, nesta condição, há sempre um buraco existencial que tentamos preencher com o outro. Abrimos mão de certas coisas para ganhar outras em troca, mesmo que seja para ganhar paz e harmonia. No entanto, se abrir mão do que queremos nos causa mais sofrimento do que satisfação… Se isso nos faz sofrer em demasia ou nos causa estresse, é hora de começar a pensar se este relacionamento vale a pena”, destaca.

A psicóloga Keila finaliza dizendo que a condição de ser humano nos diz que sempre vamos sofrer ou ter atribulações, mas também conseguiremos ser felizes e ter satisfação. “Se a última faz a primeira valer a pena, temos um equilíbrio. Mas, se sofremos sempre muito mais do que nos regozijamos, as nossas atitudes e posturas precisam ser repensadas e partir para outros planos”, diz.

Portanto, tendo consciência de que nenhuma relação é perfeita; que crises conjugais acontecem assim como problemas pessoais “nos pegam de surpresa”; fica mais fácil seguir com uma relação saudável e agradável para ambos os lados.

Porém, é fundamental ainda que as pessoas nunca se acostumem com aquilo que lhes parece desgastante. Mas, sim, tenham a consciência de que também precisam “fazer a sua parte” para que o relacionamento siga bem, antes mesmo de cobrar qualquer tipo de atitude do outro. Para isso, a melhor solução é sempre o diálogo.

Homem e mulher devem conversar mais, expor seus sentimentos e desejos um com o outro e, sobretudo, estarem abertos a rever atitudes e comportamentos. E, quando lhes parecer muito difícil fazerem isso sozinhos, não devem temer em buscar ajuda de um psicoterapeuta, que certamente lhes auxiliará a atravessar as crises.

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